Un chef-de-cuisine na “Boca do povo”.

Mês de Agosto de 2010, Rita é auxiliar de enfermagem e observa naquele dia de trabalho, que havia alvoroço diferente no Hospital da Beneficente Portuguesa. Logo uma colega se aproxima e comenta: “tu sabes que temos um paciente importante”. Ocupados no dia-a-dia dos seus afazeres em benefício da saúde das pessoas, médicos, enfermeiras e atendentes comunicam-se através de frases curtas e significativas, a lançada nesse dia para a Rita foi: “O cozinheiro está internado”. Quem é esse cozinheiro questionava-se Rita.
Conheci o Paulo Martins no inicio de 1968, junto a outros veteranos no trote de recepção aos novos calouros de arquitetura. Tempo em que, ainda era obrigatório, na nossa tropical e super-úmida Belém, para comparecer as provas do vestibular o uso de terno e gravata (paletó), provas que eram realizadas no próprio Chalet de Ferro (atualmente no Campus Guamá), edifício onde funcionava o Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPA e localizado na Avenida Almirante Barroso. Informalmente vestidos, fomos recebidos com alegria e dignidade por todos eles. O trote foi de boas vindas efetivamente.
Naquele mesmo ano, antes da promulgação do Ato Institucional 5, pela ditadura militar, houve as ocupações de escolas da UFPA pelos estudantes. Com o curso de Arquitetura não foi diferente. Lá estávamos, revezando-nos para tomar conta e administrar o edifício, dávamos o apoio para os que participavam mais ativamente no movimento e que estavam nas séries mais adiantadas. Paulo, apesar de já estar na 4a série não era atuante, mas tinha um bom relacionamento com todos. Um exemplo que deu à época foi o de auto-suficiência financeira, pois já trabalhava, salvo engano no DNER – Departamento Nacional de Estradas e Rodagens e utilizava talão de cheques, isso então era uma grande novidade para os universitários de Belém.
Ainda na condição de estudante trabalhei com ele, que já era arquiteto formado na turma de 1969. Foi no início da década de 1970 na execução de uma grande maquete para a sede do Iate Clube de Belém. O projeto, dele com o Claudio Cativo, José Freire e Paulo Lima, não foi construído, infelizmente. A maquete ficou impecável. O Jaime Bibas, que também já era arquiteto, emprestou o seu toque especial, fazendo com extrema perfeição, esquiadores e lanchas na escala 1: 250. Depois disso, houve um grande hiato, pouco o via. Em 1972 fui para São Paulo e lá se foram mais dez anos. Na minha volta para Belém o Paulo arquiteto já estava quase no final da transformação profissional, era o dono do “Lá em Casa”, junto com a mãe Ana Maria Martins. Cruzei algumas vezes com ele, éramos apenas conhecidos e arquitetos, então a nossa conversa não ia além de “fazia tempo que eu não te via, o que tu estás fazendo” ou “está ótima a comida”.
Não, ele não é um simples cozinheiro, Paulo Martins é um chef-de-cuisine paraense e é também arquiteto, intervém o médico que chegara naquele exato momento. Rita aquiesceu com a cabeça e pensou: que perda então para a cozinha da nossa gente, se ele morrer.

Belém, 14 de setembro de 2010.
Professor Fabiano Homobono Paes de Andrade

Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s