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Desenho: módulo e repetição virtual

Este exemplar de ladrilho hidráulico foi encontrado ao relento no quintal do Chalé Cardoso em Mosqueiro há uns 15 anos; curiosamente não pertence a nenhum de seus cômodos.
Passou a ilustrar alguns cabeçalhos do Blog da FAU, por ora “presos” pela passagem do Ano Novo — o atual ficará fixo até 02 de janeiro de 2012.
A reprodução virtual do padrão mostra sua aplicação que assemelha-se, na progressão, a papel de presente ou estamparia de tecido.

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Subsídios à recomposição virtual da Chácara Bem-Bom


Blog da FAU.
A Arqueologia da Arquitetura — disciplina que nasce na Itália em meados dos anos 70 no âmbito da grande tradição de restauro e do desenvolvimento da Arqueologia Medieval (T. Mannoni, G. P. Brigiolo e R. Perenti) — aglutina diversos conhecimentos, não só de materiais e técnicas construtivos datados, mas de tudo que se relacione à memória de uma edificação e seu contexto físico e sociocultural.
A Chácara Bem-Bom ou “Casa do Facióla”, como era tradicionalmente conhecida no bairro do Marco, em Belém do Pará, guarda certa semelhança com a Casa de Dona Yayá, no bairro do Bixiga, em São Paulo.
Ambas são chácaras do final do século XIX com edificações em estilo eclético.
A Casa de Dona Yayá “…foi transferida para a USP, como herança jacente, em 1961, após o falecimento da proprietária, Sebastiana de Mello Freire…”, segundo Dossiê do Centro de Preservação Cultural da USP.
Já a Chácara Bem-Bom (imóvel e áreas laterais) foi desapropriada pela Prefeitura Municipal de Belém em 1999 após seu desabamento.
O mesmo Dossiê explica que: “Os estudos documentais e prospectivos empreendidos pelo CPC-USP entre 1989 e 1991 demonstraram que a velha casa, para além das suas características arquitetônicas formais, encerrava múltiplos valores e significações ao testemunhar em sua evolução modos de construir e morar.
Em seu núcleo resistem intactas as paredes de um dos mais antigos chalés de tijolos construídos no final do século XIX no bairro do Bexiga; o jardim é resquício da grande chácara que o rodeava; as pinturas murais testemunham técnicas e práticas artesanais do período; o anexo (parte construído nos anos 20 e outra nos anos 50) indica a maneira de realizar o tratamento da doença mental em meados do século XX. Desse modo, unem-se os valores históricos da casa aos da memória social, os interessantes aspectos técnicos e artísticos ao de testemunho de costumes.”.
A Chácara Bem-Bom, ao contrário da Casa de Dona Yayá, não teve a sorte de ficar sob os auspícios de uma instituição capaz de recuperá-la nos moldes científicos necessários.
Apesar de um jornal local noticiar, em junho de 1999, que a empresa Paulo Brígido Engenharia LTDA, “…ficou responsável por coletar todas as peças que compõem o acervo do solar…” e ter, do mesmo engenheiro, a garantia de que “a estrutura do prédio está perfeita, dando condições para a restauração completa. ‘Nada é impossível para a engenharia. A fachada está na íntegra, e as esquadrias dá para aproveitar’…”; coisa alguma dessa natureza foi vista pelos munícipes de Belém.
No local desapropriado pela Prefeitura Municipal de Belém erigiu-se um hospital que inicialmente serviria à saúde mental e hoje, em boa parte equipado, pretender-se-á como apoio pós-operatório ao Pronto Socorro Municipal com 40 leitos; uma presunção de caráter político, pois há 12 anos tal obra se arrasta, sem conclusão ou satisfação à população.
O audiovisual aqui produzido reúne fotografias de época e ilustrações que compõem dois trabalhos acadêmicos desenvolvidos no curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará, além de notícias de jornais e outros documentos pertinentes ao assunto.
Esse levantamento, que necessita de continuidade investigativa, poderá subsidiar uma reconstituição virtual do Bem-Bom — há meios digitais atuais capazes  de resolver muitos desses dilemas e outros aplicativos surgirão.
No vídeo observa-se que a “restauração” do imóvel não obedeceu a nenhum conceito nem a metodologia empregada na Arqueologia da Arquitetura, resultando em distante recomposição que quase nada guarda dos tempos idos; sobrou-lhe apenas a fachada e uma parede lateral, todo o restante foi demolido deliberadamente em prol da nova construção.
Há sim dois chafarizes que ornamentam as laterais do “solar” desde o século XIX, confecionados na mesma pedra que parte do muro da travessa Barão do Triunfo; um está intacto e guarda sua originalidade, o outro, recuperado, teve a fonte descaracterizada.
Um registro feito em 2008, que empresta imagens à coletânea, mostra que três conjuntos de ladrilhos hidráulicos remanescentes de uma das soleiras do pavimento térreo foram retirados nesse interim; a reprodução do padrão obtido com a junção dos módulos, ampliada, serviu como modelo à decoração dos dois pisos que nos primórdios eram em tábua corrida macheada com desenhos que combinavam acapú e pau amarelo.
Na realidade a Chácara Bem-Bom também foi retalhada em sua essência espacial e três prédios surgem no local: um público (PMB) e dois privados.
As escavações feitas para suas fundações, além de eliminarem a vegetação característica da paisagem, apagaram os vestígios que porventura o solo guardava.
Por ora os recursos tecnológicos virtuais são o único alento à recuperação de um lugar de retiro de um homem abastado e público  (senador estadual e intendente municipal) que alimentou a imaginação popular com “causos” curiosos propalados pela redondeza; essa “tradição oral” ficará para outra oportunidade.

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Abril de 2012: mês de eleições na FAU


O mandato da atual direção da FAU, segundo a Portaria Nº1979/2010-Reitoria, finda em 1º de maio de 2012.
O professor Juliano Ximenes (foto) anunciou reservadamente na confraternização do dia 22 passado que não tem intenção de concorrer novamente à função; portanto, ou haverá um consenso entre os membro do Conselho da Faculdade — do mesmo modo que Juliano/Haroldo foram escolhidos por inscrição de chapa única — ou uma eleição será realizada com o benéfico confronto de ideias de duplas ainda indefinidas.
Em ambos os casos há a necessidade do estabelecimento de composições políticas que garantam uma gestão tranquila sem contraforças perniciosas à dinâmica natural da FAU.
Quem assumir a direção da Faculdade de Arquitetura e Urnanismo da UFPA terá uma missão importante: a comemoração dos 50 anos do curso, em abril de 2014; justamente no final do mandato futuro.

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O parto de Maria segundo Saramago; por Roger Normando


Detalhe de A Natividade com São Francisco e São Lourenço (Caravaggio, 1609).

O escritor José Saramago nasceu numa aldeiazinha portuguesa (Azinhaga, Golegã, 1922). Foi laureado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa, em razão da sua densa produção. Foi exaustivamente perseguido pela igreja católica até se mudar de Lisboa. Motivo: O evangelho segundo Jesus Cristo.

Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres.

O grifo acima é apenas uma biopsia da obra – não a mais famosa, decerto a mais farpante. Saramago descreve todos os passos de Jesus calcado num aspecto humanístico contundente, contornado por uma narrativa visceral, como se percebe, bastante distante dos evangelhos. Alguns críticos outorgam como irônico. No bojo, é um diálogo distante dos clichês clericais, pois escancara a fragilidade e vulnerabilidade de Jesus, a começar pelo nascimento, quando, sequer, cita a data natalina. Certamente a chave para harmonizar este romance com o mundo cristão fizeram Igreja, católicos e Governantes de seu País protestarem de forma voraz. Saramago se viu obrigado a partir do continente e passou a residir nas Ilhas Canárias, onde permaneceu até a sua morte (Lanzarote, 18 de Junho de 2010).
Sobre o conteúdo do romance e relacinando-o ao título do texto, o autor relata o final do período gestacional de Maria com muita resignação, percebida pelas andanças na moleira de um burro, no sentido Nazaré-Jerusalém-Belém, na companhia do carpinteiro José. O trabalho de parto se inicia em Jerusalém, pelos sinais de contração uterina contido silenciosamente no trejeito de Maria lidar com aos espasmos uterinos:

Quando já estavam a porta da cidade, Maria não pode reter um grito de dor, mas este lancinante, como se uma lança tivesse traspassado(…). E amanhã irei a Belém (diz José), ao recenseamento, e direi que estás de parto, vais lá depois se preciso, que não sei como são as leis dos romanos, e Maria respondeu, Já não sinto dores, e assim era, aquela lançada que a fizera gritar tornara-se um picar de espinho.

Com as dores de Maria abrandadas, José, agora aliviado, consegue chegar a Belém e começa a procurar um aconchego onde Maria pudesse dar a luz:

Apoquentava a perspectiva de ter de procurar um lugar no labirinto das ruas de Jerusalém em circunstancia de tanta aflição a mulher em doloroso trabalho de parto, e ele, como qualquer outro homem, apavorado a responsabilidade, mas sem o querer confessar. Chegando a Belém, pensava, que em tamanho e importância não diferirá muito de Nazaré, as coisas serão certamente mais fáceis, sabido como e que nas povoações pequenas, onde todos se conhecem, a solidariedade costuma a ser uma palavra menos vã. Se Maria já não se queixa, ou é que lhe passaram as dores, ou é que consegue aguentá-las, num caso como no outro, tanto faz, ala para Belém.

No rumo de Belém, eles vão acompanhados de uma parteira (escrava), que muito se preocupa com riscos de contaminação puerperal, num tempo ulterior aos miasmas de Semelweiss (1846) e às descobertas de Lister (1860) – em plena contra-mão da evolução histórica da infectologia. No final do parágrafo, Saramago deixa escorrer, aos mais afeitos a sua biografia, a própria origem campestre, e engendra no pensamento de quem o lê, a sensação de que o mesmo acontecera naquela aldeiazinha de Portugal.

A escrava Zelomi, que esse é o seu nome, vai à frente guiando os passos, e leva um pote com brasas para o lume, uma caiçola de barro para aquecer a água, sal para esfregar o recém-nascido, não vá apanhar alguma infecção. E como de panos vem Maria servida e a faca com que se há-de cortar o cordão umbilical trá-la José no seu alforge, se Zelomi não preferir cortá-lo com os dentes, já a criança pode nascer, afinal um estábulo serve tão bem como uma casa, e só quem nunca teve a felicidade de dormir numa manjedoura ignora que nada há no mundo que se pareça mais que um berço.

Chama-se atenção que a posição e as dores do parto de Maria eram iguais às de todas as outras mulheres:

Entrou a escrava, disse uma palavra animadora, Coragem, depois pôs-se de joelhos entre as pernas abertas de Maria, que assim têm de estar abertas as pernas das mulheres para o que entra e para o que sai, Zelomi [a escrava] já perdera o conto às crianças que vira nascer, e o padecimento desta pobre mulher é igual ao de todas as outras mulheres, Como foi determinado pelo senhor Deus quando Eva errou por desobidiência, Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos nascerão entre dores, e hoje, passados já tantos séculos, com tanta dor acumulada, Deus ainda não se dá por satisfeito e a agonia.

Já na cidade de Belém, eis o trabalho de parto, enfim, se concretizando:

Viemos de Nazaré de Galileia ao recenseamento, na hora que chegamos cresceram-lhe as dores, e agora está nascendo.

E dá-se, então o nascimento de Jesus Cristo:

O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. Envolto em panos, repousa na manjedoura, não longe do burro, porém não há perigo de ser mordido, que ao animal prenderam-no curto. Zelomi saiu fora a enterrar as secundinas, ao tempo que José se vem aproximando. Ela espera que ele entre e deixa-se ficar, respirando a brisa fresca do anoitecer.

Posteriormente três pastores chegam ao estábulo. Maria, encostada e ainda adormecida, desperta e ouve cada um deles, ao lado da manjedoura, onde descansa o rebento :

O primeiro pastor avançou e disse, Com estas minhas mãos mungi as minhas ovelhas e recolhi o leite delas. Maria, abrindo os olhos, sorriu. Adiantou-se o segundo pastor e disse, por sua vez, Com estas minhas mãos trabalhei o leite e fabriquei o queijo. Maria acenou com a cabeça e voltou a sorrir. Então, o terceiro pastor chegou-se para diante, num momento pareceu que enchia a cova com a sua grande estatura, e disse, mas não olhava nem o pai nem a mãe da criança nascida, Com estas minhas mãos amassei este pão que te trago, com o fogo que só dentro da terra há o cozi. E Maria soube quem ele era.


Adoração dos Pastores  (Caravaggio, 1609).

Nota-se a simplicidade franciscana que cobre todo ambiente. No celeiro feito de madeira, um burro e um boi (delineado atrás do burro) compõem a imagem do fundo. Há resíduos de palha pelo chão, enquanto em uma cesta da Santa Família se vê um pedaço de pão, as ferramentas de José e algumas peças de roupa.
José (vestindo vermelho, como Maria) introduz os pastores (à direita). Maria mantêm o menino em seu aconchego e, afora as duas auréolas, apenas o jovem semi desnudo, ajoelhado e com as mãos cruzadas, dão ao momento um significado especial, no meio da pobreza.

Referências:
1. Lopes, JM. Saramago – Biografia. Leya. 2010.
2. Saramago J. O Evangelho segundo Jesus Cristo. Companhia das letras, 1991.
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Geraldo Roger Normando Júnior é professor da Faculdade de Medicina do Instituto de Ciências da Saúde e médico do Hospital Universitário João de Barros Barreto da Universidade Federal do Pará. 
É um dos autores do livro Traumatismo Torácico – Visão geral e especializada:

 

 

 

 

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Texto originalmente publicado em Arte Médica.

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A torre de led da Tv Liveral

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O Feliz Natal do nosso editor chefe: Jaime Bibas

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Divulgação/convite à FAU

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UM SORRISO POR FAVOR: o mundo gráfico de goeldi


Blog da FAU

Curta-metragem / Sonoro
Material original
16mm, COR, 23min, 24q
Data e local de produção
Ano: 1981
Final de filmagem: 1980
País: BR
Cidade: Belo Horizonte; Rio de Janeiro
Estado: MG; RJ
Certificados
Certificado de censura A-27468, validade 16.12.1992, emissão 16.12.1987, Livre.
Data e local de lançamento
Data: 1981.06.15
Local: Rio de Janeiro
Sala(s): Cândido Mendes
Sinopse
“Inspirado na obra do grande gravador brasileiro Oswaldo Goeldi, o filme procura passar em linguagem cinematográfica o espírito (a essência) e o imenso (expressionista) universo gráfico em que a obra se estende. Sem preocupações biográficas ou didáticas, discorre e discute a obra no conteúdo artístico e cinematográfico do movimento expressionista.” (FCaxambu/85)
Gênero
Drama; Documentário
Prêmios
Prêmio de Melhor Montagem para Sganzerla, Rogério e Melhor Filme no Festival de Brasília, 14, 1981, DF
Dados de produção
Companhia(s) produtora(s): Editora Cordel Produções
Produção: Drumond, Mario
Direção de produção: Drumond, Mário
Produção executiva: Oliveira, Lício Marcos de
Companhia(s) distribuidora(s): Lagos Filmes do Brasil Ltda.
Argumento: Tavares, Fernando
Roteirista: Barros, José de
Direção: Barros, José de
Direção de fotografia: Barros, José de
Câmera: Barros, José de
Som direto: Penna, João Vargas
Edição: Sganzerla, Rogério
Montagem de som: Lanna, Sílvio
Cenografia: Medeiros, Oswaldo
Música (Genérico): Visconti, Eliseu; Ravel, Maurice; Guarnieri, Camargo; Villa-Lobos, Heitor; Nepomuceno, Alberto; Pastoril (Folclore)

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Foto: Phelipe Paraense.

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Johnnie Walker X João Andante


Imagem-link à Folha.com.

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A periguete do BASA

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Propagandas “proibidas” no Youtube

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Uma cobrinha atravessando a rua na UFPA




Segundo o cidadão acima — que não soubemos seu nome, mas pareceu um ofidiologista diletante — seria uma cobra-cipó.
Grande coisa; afinal, a Universidade é cheia de cobras, dentro e fora dos seus laboratórios e em todos os sentidos que a semântica alcança; portanto, esta postagem é pura falta de assunto do BF para uma tarde de sexta-feira.
É quase impossível que alguém que possua um título de graduação expedido pela UFPA não tenha visto uma cobra n’algum canto do Campus do Guamá.
Não vamos enumerar quantas vimos porque poderia parecer a história de um alegre caçador amazônida.
Mas…um causo vale a pena ser registrado, dada a notoriedade de seu protagonista:
Lá pelos idos de 1983 ou 1984 o Emmanuel Nassar, que dava aulas no pavilhão FP, foi pegar seu FIAT 147 no estacionamento; entrou no automóvel, bateu a ignição e engrenou marcha à ré, mas…algo impedia que a direção girasse.
Ele desceu do carro e foi verificar: uma jiboia havia se instalado nas ferragens da suspensão dianteira do lado do motorista (dá para imaginar o susto?).
Desenroscar a “bichinha” dali deu trabalho a muita gente, contudo, o ofídio saiu ileso da situação.
Moral da história (e das fotos): ninguém mata cobra na UFPA.

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AP apostou no mau gosto natalino; do Blog HB.

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Grandes arquitetos mostram os rumos da arquitetura contemporânea


Imagem-link ao Start da Globo News.

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Vicente Salle — Doutor das Coisas do Mundo (partes 1 e 2); pelo Fórum Landi

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Uma Belle Époque agora do Pará

O paraense cultua uma nostalgia do ciclo da borracha. Mas vive-se hoje uma efervescência cultural bem mais interessante do que na época do colonialismo francês
Por João de Jesus Paes Loureiro
Ilustração Bel Andrade Lima

O passado não pode matar o presente. Nem tornar o presente o passado de um passado. O que passou mantido como símbolo de valor que ultrapasse o presente. O passado deve ser respeitado, garantido em sua integridade, resguardado como exemplo de um contexto cultural, mas não em superposição de superioridade ao presente.
No Pará perdura ainda a ideia de ter havido uma Belle Époque (expressão marcada do apogeu parisiense no fin du siècle) correspondente ao período final do ciclo da borracha, que teria elevado a cultura local a uma altura jamais alcançada depois dela. A partir de então viver-se-ia a história de uma queda, prostrados em um estado comatoso e letárgico. Instalou-se pela cultura dominante a ideia de uma via-sacra às avessas: a ressurreição anterior à agonia. Teria havido a Belle Époque e, depois… o resto! O não-lugar do novo. Mas não é propriamente assim.
A celebrada Belle Époque de Belém, como se diz, na verdade foi o fausto colonialista da Belle Époque francesa beneficiando-se do mercado consumidor do Pará amazônico, ainda com os bolsos cheios do dinheiro da borracha. A consagração de um colonialismo elegante que se tornou modelo para o gosto e motivo inibidor do reconhecimento de uma produção local com as características de um “ethos” amazônico, considerado, nessa óptica, em descompasso com as artes modeladas na Europa.
Houve na Região Norte um longo período de relativo isolamento até fins da década de 1950 e durante a fase de emparedamento político cultural via ditadura militar (que considerou a Amazônia uma terra sem homens para a vinda de homens sem terra, sacramentando a invisibilização do homem na região). A partir de meados da década de 1990, a arte no Pará vem assumindo gradualmente sua fisionomia de expressão simbólica da cultura intercorrente com as técnicas e procedimentos da arte moderna, sobretudo desde a pop art. Saindo da condição de espaço fértil para o extrativismo científico, cultural e artístico, o Pará vem assumindo sua fala como produtor de conhecimento, detentor de valores próprios, criador de formas artísticas: o “Pássaro Junino” como invenção de um gênero de teatro musical popular; o “Boi Tinga” como um caso de dança-teatro na época junina; o Carimbó” e o “Lundu” como ritmos de possibilidades jazzísticas e eletro; as “guitarradas” e o “tecnobrega” como incorporações do pop caribenho; a dança de pesquisa local intercorrente com linguagens contemporâneas do movimento; a literatura de pensamento universal a partir do local; a fotografia, o cinema, a história em quadrinhos, o grafitismo, a pintura corporal indígena, o design de joias, o ecumenismo do Círio de Nazaré e a culinária. Operam-se originais hibridizações próprias das paisagens etnoculturais configuradas pela civilização internética. Percebe-se uma cadeia produtiva no campo das artes envolvendo pesquisa, realização, circulação e consumo desconfinado.
Estamos assistindo a uma época na qual “Belém se mexe”. Reverbera essa forma de efervescência da produção artística local. Isso não significa fechamento ou circunscrição no círculo do silêncio regional. Trata-se de uma expressão a partir do local, plurissignificativa, assimiladora e hibridizante, superpondo a paisagem cultural nativista moderna à paisagem da geografia eletrônica da comunicação, o imaginário local dialogando com o imaginário cósmico. Entre o rio e a floresta vê-se o infinito. No confronto com a modernidade pós-moderna há uma dionisíaca poética do imaginário.
Esse desentortar a antiga história da enviesada Belle Époque parisiense em Belém para a atual “bela época” de um nativismo moderno e transacional emerge da criatividade dos artistas. E traz em sua estrutura a incorporação frontal das relações estéticas complexas da contemporaneidade, o fascínio pelas poéticas da individualidade, as transgressões de modelos hegemônicos, a substituição da imitação pela iniciativa de propor novas formas e possibilidades criativas, legitimação de materiais locais na mesma dimensão dos já consagrados historicamente em outras culturas.
Há, para quem possa observar atentamente, uma visível anomia na expressão cultural da arte no Pará. Uma mudança de qualidade e quantidade acumulada por décadas e que, no contexto de sua realidade possível, se revela na diversificada produção artística e passa a ter um público crescente que reconhece o valor contido nessas poéticas.
A arte é uma encantaria da cultura. As encantarias são olimpos submersos nos rios da Amazônia habitados pelos encantados, que são signos e deuses desse relicário que é o imaginário amazônico. Expressam a poética dos rios de água doce e da floresta. Assim, também, as artes no Pará mostram-se como um jorro de poética nativista moderna, no oceano universal da cultura. Um crescente diálogo transacional com a contemporaneidade do mundo. Esta sim pode ser considerada a emergência de uma “bela época” artística de Belém e do Pará.

João de Jesus Paes Loureiro é escritor, poeta, autor dos livros Café Central – O Tempo Submerso nos Espelhos, Água da Fonte, Romance das Três Flautas, entre outros.

Fonte: Bravo DEZ/2011.

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Perspectivas para o Setor de Real Estate no Brasil em 2012


CM-Nota-241111-final (arquivo em pdf.)

Material enviado pelo professor Claudio Tavares de Alencar – associado Poli/USP.