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Divulgação/convite à FAU

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Corpo e ideia (à memória de Flávio Nassar); por Mateus Nunes

Julian Schnabel, On the day Cy died (His right arm bent under his head as a pillow) [No dia em que Cy morreu (Seu braço direito curvado sob sua cabeça como um travesseiro)], 2011, gesso em lona militar, 487,7 x 561,3 cm.

Alguns dias foram necessários para que eu pudesse escrever algo. Esses dias não acalentaram o coração inflamado, mas preencheram a mente amortecida que se negava, de alguma forma, a processar o luto. De peito aberto e de uma vez só, sem revisões ou grandes intenções, teço algumas palavras que revolviam na minha garganta e no meu coração com a partida do professor Flávio Nassar no último dia 23. Não há pretensões de se fazer uma homenagem a alguém tão grande. Compartilho aqui apenas algumas coisas que fizemos – ou que planejamos fazer – juntos nas últimas semanas, para que sirva como conforto – provavelmente só a mim. Nesse caso, toda homenagem é insuficiente.

Ele era um homem de mil causas, e causas grandes. De forte temperamento e posições políticas bem cravadas, sempre me tratou com uma afabilidade sem igual e me adotou como um filho. Os méritos das conquistas pelo patrimônio histórico, pelos estudos landianos, pelas lutas sindicais e políticas vão reverberar durante muito tempo, além de serem melhores escritas por pessoas mais adequadas para isso. Escrevo aqui um suspiro saudoso de memória. Tive a sorte de, por algum tempo, ter o nome dele relacionado ao meu, como “o-orientando-do professor-Flávio-Nassar”. Isso me abriu portas que nunca imaginei serem abertas – no tempo em que morei em Lisboa, verbalizar esse conjunto de palavras era como estender um tapete vermelho – e me livrou de possíveis amizades complicadas.

Há algum tempo, sentia que estávamos em um clima de despedida, por mais que nenhum dos dois tivesse coragem de externar esse pensamento. Repassou-me, aos poucos, inúmeros projetos, como seminários sobre arte italiana, textos bíblicos e a escritura de introduções de livros sobre naturalistas e cineastas. Na minha última viagem a Belém, há algumas semanas, fizemos algo que sonhávamos há tempos. Depois de anos adiando a visita ao seu sítio no Marahú, finalmente fui, com meus pais e meu irmão. Fomos recebidos da melhor forma possível por ele, pela sua esposa Mirtes, pelo seu filho Paulo André e pela sua neta Flora – e, depois, da amiga Marina Ramos, também aluna dele. Era um dia especialmente quente e fui de camisa preta – e ele só parou de reclamar quando eu fui ao banheiro trocar por uma camiseta dele que me entregou, que ia até os meus joelhos. Esse é um bom exemplo do cuidado e da teimosia característicos dele.

Enquanto os tambaquis eram assados pelo Paulo André, ele nos guiou pelos lindíssimos jardins que ele projetou e construiu, narrando como tinha conseguido tal e tal espécie. Andava com um bastão de trilha para se apoiar, que frequentemente esquecia apoiado em alguma árvore ao se empolgar em alguma explicação e gritava meu nome para buscar. Depois do almoço, pediu mil desculpas porque teve de se recolher, pois precisava repousar. O corpo já pedia atenção. Deu, durante a trilha nos jardins, uma dúzia de mudas de plantas para a minha mãe, principalmente de orquídeas. Para mim, a cena era inexplicável: ver dois mundos tão próximos ao meu coração interagindo, como num almoço de família no sítio. Alguns dias depois que ele partiu, minha mãe me mandou uma foto das orquídeas por ele presenteadas florindo como nunca tínhamos visto antes.

Nas nossas últimas conversas, falávamos mais de literatura do que de arquitetura ou arte, assuntos que nos uniam profundamente. Ele estava devorando os livros de José Saramago, e trocávamos ideia sobre um ou outro que eu já havia lido. Ele estava completamente fascinado, surpreso por não ter embarcado nessa jornada antes, mas grato de tê-la feito só naquele momento. Nessas últimas semanas, ele me ligou de madrugada, profundamente incomodado com as traduções para o português do poema “She walks in beauty”, do Lord Byron. Ficamos a madrugada toda pensando em possíveis traduções, e de como encaixar o conceito de “flutuar” como uma possível leitura warburguiana nessa tradução. Abri tabelas, estudamos as métricas, e chegamos em um resultado satisfatório, mas longe de ser perfeito. Mas isso já fez com que tanto ele quanto eu pudéssemos dormir em paz naquele dia que já havia raiado. Isso é só um dos exemplos das fixações dele que também me encantavam – os episódios são inesgotáveis, e me presentearam com lindas histórias pra contar –, como a interpretação de alguns textos do Evangelho, alguns desenhos de animais e a história de alguns santos. A atenção e o cuidado se transpunham pra tudo que eu escrevia, que ele lia com a maior atenção, fazendo anotações e me indagando sempre sobre a escolha das palavras. Sempre me lembrava que as regras são meras tendências, não verdades; e que as fronteiras entre as coisas são reais na proporção em que nossas imaginações são pequenas. Isso não escusava, entretanto, da rigidez paternal em sempre me fazer começar pelas regras.

No nosso último encontro, pude entregar-lhe a tese de doutorado que escrevi, mas que é muito mais mérito dele do que meu. Quando a entreguei impressa em suas mãos, ele ficou muito orgulhoso de ver que a tese era dedicada a ele, além de contar com um longo agradecimento. E assim permanecerá, com os agradecimentos no presente, sem “in memoriam” ou algo do tipo. A defesa é daqui a algumas semanas e também será dedicada a ele. Aplicarei o muito que aprendi da forma que puder, até mesmo nas pequenas coisas que fizer.

Telefonou-me quando precisou vir a São Paulo, cidade onde hoje moro, por motivos de saúde. Dizia que estava mal e que os médicos não sabiam o que havia agravado. Continuávamos conversando por telefone e mensagens, e ele me mandava longos áudios com a voz grogue sobre São Jerônimo – meu padroeiro. Depois de alguns dias, o contato se fazia apenas com a Mirtes, sua esposa, de coração gigante e forças desmedidas. Ela me ligava e me atualizava sobre o cenário clínico, que infelizmente só piorava. Seus filhos e familiares vieram para São Paulo, para visitá-lo, e, pelas restrições do hospital e da UTI, não pude vê-lo – manterei a imagem dele vivo, vivo, muito vivo, como minha última memória física com ele. Na tarde do dia 22, recebi a ligação da Mirtes de que provavelmente aconteceria nas próximas horas. No dia seguinte, como um suspiro, ele se foi.

“Corpo opaco”, seu último livro publicado e o primeiro de poesias, revolvia sobre a ideia da imanência do corpo, da materialidade das coisas. Porém, assim como outros grandes, ele já não era um corpo, mas é uma ideia. Ideias não morrem. Que celebremos a felicidade com que ele sempre nos contagiou, mesmo nos dias difíceis, em sua honra. Sigamos em frente, à luta, com a coragem que ele nos ensinou.

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Flávio Nassar, biografia e trajetória

Entrevista em maio de 2012

Depoimento de Flávio Nassar a Edilza Fontes para o projeto de pesquisa 25 anos de Ensino Superior Regionalizado.

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FAU Fau Ufpa

Velório do professor Flávio Nassar: aulas suspensas

Morte da Ideia, de Klee.

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Arquitetura e Urbanismo

Flavito: o Bibão te espera no Céu, mano

Um forte abraço entre Jaime Bibas e Flávio Nassar registrado no cinquentenário da FAU (2015)

Ontem lembrei desse cumprimento entre velhos amigos que não se encontravam havia meses: Jaime Bibas e Flávio Nassar – dois editores do Laboratório Virtual em momentos distintos – estavam numa atrasada festa à comemoração da implementação da Escola de Arquitetura da Universidade do Pará (ainda sem o Federal), chocadeira, de certo modo, de ambos.
Flávio faleceu hoje em São Paulo; Bibão, como Flavito o chamava, pegou a van mais cedo: em 15 de setembro de 2019; mas, abraçaços são atemporais, tais quais os que vi, dei e recebi ontem na Faculdade com o retorno, depois de dois anos, às atividades presenciais.
Abracei e beijei muito: colegas, funcionários e alunos… que felicidade!
Só não pude abraçar o Flavito – o Velho Bala ficou na saudade.

Mas pera aí: esse Céu, com o planeta em Armagedom, tá ficando melhor que a Terra; vamos listar? Paulo Cal, Vicente Cecim, Zé Gondim, Paulo Chaves, Jorge Derenji, Maria Hilda Gondim, Graça Pena, Maria Sylvia Nunes, José Maria de Castro Abreu, Aurélio do Carmo, Aldir Blanc…

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Arquitetura e Urbanismo

PAPO NO TUCUPI com FLÁVIO NASSAR

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Arquitetura e Urbanismo

Estêncil em arte de rua

Muro lateral da Escola Superior de Educação Física – travessa Timbó