Hospital São Sebastião – 120 metros?

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O Hospital São Sebastião, segundo O ASILO DAS MADALENAS, escrito pelo médico José Maria de Castro Abreu Júnior, foi demolido em 1959 (precisamente em 8 de novembro de 1959), portanto: quatro anos depois da data das aerofotografias da Coleção Silveira Neto, pertencente à Biblioteca Central da UFPA, que acreditamos de 1955.
O curioso é que na imagem, por suposto, dever-se-ia enxergar três hospitais de isolamento da Cidade, mais o esqueleto da construção do Sanatório de Belém, hoje Hospital Universitário João de Barros Barreto.
SOUZA ARAÚJO, em A Profilaxia Rural no Estado do Pará – vol.1 Typ Livraria Gillet, 1922; localiza o São Sebastião:

[…] “… O hospital está no mesmo terreno do Hospital Domingos Freire, do qual dista 130 metros, separado do mesmo por uma cerca; pela frente do terreno, na Barão de Mamoré e pelos lados de toda a área compreendida por aquela grande propriedade do Estado, corre uma cercadura… ” […].

A análise gráfica da antiga imagem feita por avião, baseada nas medidas proporcionais do Google Earth, mostra-nos os 130m marcados do início do que supomos ser o São Sebastião, seguindo ao Norte para o portão de ferro do Domingos Freire; entre eles o Hospital São Roque, de arquitetura modernizante, típica dos anos 1930, que demolido deu origem ao antigo Instituto Médico Legal.
Os 130 metros marcados perpendicularmente à linha da frente (88m) em direção aos fundos (396m), que chegavam ao pântano do nascente no vale do igarapé Tucunduba, bateriam exatamente no centro do esqueleto do Sanatório; em outras palavras: se fosse esse o marco, nonsense, para levantar o hoje HUJBB, seria condição sine qua a demolição do antigo hospital de pau; se a distância fosse inversa, da sede do Domingos Freire à frente, em 130m daríamos no pequeno, mas denso bosque, sem clareiras.
Souza Araújo explica como era o São Sebastião:

[…] A obra foi executada com uma celeridade admirável, em 3 mezes.
O edifício é vasto: tem de comprimento 120 metros e de largura 22m. Toda a edificação é de madeira; as grandes enfermarias e o 1º corpo são forrados. A’ esquerda do edifício foi construído um grande desinfectorio, com uma estufa locomovel; junto foi instalada a lavanderia e um pequeno compartimento ao lado do que serve actualmente de oficina de carpintaria. […].

Se o autor estiver correto ao afirmar que o São Sebastião tinha 120 metros de comprimento, logicamente alinhados pela Barão de Mamoré, como ele próprio disse, a análise acima fura; cai por terra, e, por conseguinte, dar-se-á ao humor.
Por outro lado, o que conseguimos interpretar usando as ferramentas mais rudimentares da Internet, é que os fundos teriam mesmo, aproximadamente, os 22m; mas o comprimento não iria além dos cinquenta e poucos metros; ou seja: menos da metade daquilo que diz a literatura.
Não era habitual, à época do arco de pua,  que em três meses se construísse 2.640m² de modo ortogonal; senão, vejamos a imagem do São Sebastião, de madeira, que se pode entender por vistas:

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Considerando que a fotografia (mais antiga que a aerofotografia) tenha capturado o hospital pela frente e este fosse até o limite da via de acesso às casas vizinhas, na hoje travessa Napoleão Laureano; teríamos esse interstício, à esquerda, com a vegetação já crescida, também presente na foto aérea – e há tal hiato “verde” (a foto é P&B) entre o São Sebastião e o São Roque claramente visível no sobrevoo de 1955.
O desenho do chalé hospitalar sugere uma vista superior em forma de “U” invertido ou mesmo um quase “H” em hipotéticas projeções à Barão de Mamoré.
Mas entendamos o layout do São Sebastião pelas palavras de Souza Araújo:

[…] Traçou o plano o engenheiro Luiz Maximiano de Miranda Corrêa, dividindo o hospital em 3 corpos, independentes uns dos outros, mas ligados entre si por varandas cobertas que rodeiam toda a edificação. No 1.º corpo estão as salas de recepção, capela, sala e aposentos das irmãs de caridade, pharmacia, gabinete médico e instalações sanitárias privativas das religiosas. Na segunda secção, dividida em duas partes eguaes, separados por um corredor central, existem duas grandes enfermarias de cada lado; diversos quartos para pensionistas, sentinas e banheiros. No terceiro corpo ficam os quartos dos enfermos e outros empregados, sala de refeições, rouparia, almoxaridado, cozinha e despensa. […].

Por tudo que se percebe nas duas imagens do passado, crendo que o “1º corpo” do edifício seja o que está no primeiro plano na foto mais velha e sabendo que os fundos têm 22m; pode-se arriscar que o frontispício dessa ala vá a 1/3, pouco mais de 7 metros e que o “corpo central” não siga tão avante, já que a linha da água do telhado do “3º corpo” aparece, sutilmente, à direita da fotografia, impondo-lhe o limite, obviamente inferior aos 120 metros citados no livro.
Fazendo uma varredura na imagem, em todo o entorno da obra inacabada do Sanatório de Belém, dentro dos limites estabelecidos pela escritura do Domingos  Freire, de 88m x 396m, nada se encontra com a configuração do chalé, muito menos dimensionado com 120 metros de comprimento (que não cabem transversalmente no terreno); percebe-se também, na foto do solo, que o São Sebastião não está entre árvores e que elas não cresceriam a ponto de escondê-lo, mais tarde, em um bosque; daí esta interpretação, que retira o Hospital São Sebastião do “mesmo terreno do Hospital Domingos Freire”, desconsiderando a literalidade do termo, e o coloca no canto.

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Apesar dos meios serem bastante distintos, arriscamos trazer uma “trena” do Google Earth que, com plena certeza, apresentará alto percentual de falhas, como em todas as medições feitas com esse recurso; mesmo assim, 100 metros, nessa superfície, superam as dimensões de toda a ala Oeste do Sanatório de Belém, imagine-se 120m.

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Por esta análise aí estaria localizado o Hospital São Sebastião: no cruzamento da Barão de Mamoré com a Napoleão Laureano.


Postscriptvm (em 22/09/2014):

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A partir de uma nova percepção da área e trabalhando tanto com a mancha da imagem aérea, quanto com as informações do livro de 1922, percebemos que nesta hipótese o Hospital São Sebastião seria ainda menor, tendo cada um dos seus três corpos medidas de aproximadamente 7,6m x 22m, juntados na figura de um quase “H”, provavelmente pela varanda que o circundava; parece existir uma vizinhança na esquina, desalinhada à construção descrita por SOUZA ARAÚJO, que pode ser um anexo do Hospital, uma habitação independente, ou mesmo mais de uma na via transversal.


Postscriptvm (em 23/09/2014):

A hipótese do professor Fabiano Homobono:

dfdr“Este é o ‘pomo da discórdia’: a foto foi tirada da Napoleão Laureano, mas da fachada posterior do Hospital São Sebastião, portanto o terreno ao lado é o ‘quase vazio’ que se vê em 1955.”.
Com esta percepção Fabiano aponta a falha que contamina o raciocínio acima: o Hospital São Sebastião fora fotografado pelos fundos em ângulo com o “terceiro corpo”, daí a “casinha” figurar na fachada (no caso posterior) que não mostra nenhum acesso ao edifício, mas o plantio de árvores demarcando um filete de terreno como limite do hospital  – essas mesmas árvores podem ser as que já se mostram grandes na foto aérea de 1955.
Homobono não discorda das últimas hipóteses de medição: dos “corpos” terem, cada um: 7,33m x 22m, dispostos em um “U”, quase “H”, ou vice-versa; contudo, acredita que em vez do metro se tenha utilizado a antiga unidade de medida: o , que equivale a 12 polegadas: 33cm.
Considerando e não metro, o “… comprimento 120 metros (pés)… ” de SOUZA ARAÚJO passa a fazer sentido: pois o primeiro e terceiro corpos de 7,33m (as quebras agora interessam) cada se somariam aos 22m do central; ou seja: 7,33 + 22 + 7,33 =  36,66m divididos por 0,33m () = 111,09m.
A diferença de quase 9 metros diante dos precários, mas democraticamente disponíveis meios de aferição, é muito bem tolerada.


Postscriptvm (27/09/2014):

A informação contida no livro de SOUZA ARAÚJO (1922) replica o que escreveu Arthur Vianna em 1906:

Arthur Vianna
Fonte: Arthur Vianna em “As Epidemias no Pará”- UFPA, 2a Ed. 1975 [1906].

Material enviado pelo pesquisador José Maria de Castro Abreu Júnior.


Postscriptvm (02/12/2015):

O Equivoco do BF:
Tudo o que se especulou nesta postagem caiu por terra por um desenho: a planta de localização das construções naquela “… grande propriedade do Estado…”, como escreveu Souza Araújo em A Profilaxia Rural no Estado do Pará:

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A vista superior do terreno (e a marcação de suas edificações no plano) foi obtida nos arquivos do Hospital Universitário João de Barros Barreto pelo médico e pesquisador Aristóteles Guilliod de Miranda; nela marcamos em vermelho, da esquerda à direita:  o Necrotério,  o Pavilhão São Roque e a Enfermaria São Sebastião (mais o Grêmio) como referências.
Infelizmente a imagem não possui ortogonalidade suficiente a uma superposição confiável nas aerofotografias de 1955, nem nas imagens de satélite disponíveis no Google Earth; contudo, eis um ensaio:

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As imagens são ampliáveis por clique.

Desse modo é possível admitir que a distância entre o Domingos Freire e o São Sebastião seja de 130 metros como disse Souza Araújo, contudo, a conformação da planta e da aerofoto de 1955 não revelam a existência do “… hospital em 3 corpos, independentes uns dos outros, mas ligados entre si por varandas cobertas que rodeiam toda a edificação…”.
Como as informação escritas são de 1922 e as imagéticas posteriores é provável que o chalé de madeira que hospedava o São Sebastião tenha transmutado suas configurações ao longo do tempo.
O que as imagens confirmam é que a maior parte desses escombros estão sob o Conjunto Residencial Governador Alacid da Silva Nunes – ficando o Barros Barreto fora do antigo complexo, ironicamente, de isolamento.
A postagem permanece dependendo de novas informações para um fechamento coerente sobre os 120 metros do São Sebastião.

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8 respostas para Hospital São Sebastião – 120 metros?

  1. celia coelho bassalo disse:

    Mais um material importante para guardar nossa memória. Parabéns, Baleixe pelo trabalho.

  2. Aristoteles Guilliod de Miranda disse:

    Baleixe, tá tudo certo. Mas porque “hospitão”? É pra rimar com “sebastião”?! Então, tão! hehehehe

    • fauitec disse:

      Obrigado Ari, já foi corrigido.
      Foi muito difícil encontrar, já que estava no título do post.
      Possivelmente ato falho (freudian slip), por achar 120m muito: hospitalzão: hospitão.
      Que explicação fajuta esta; de fato: o marginal BF carece de um revisor de redação e ortografia.
      HB.

  3. Paulo Andrade disse:

    HB, VERDADEIRO GARIMPEIRO DA PERDIDA ARQUITETURA DE BELÉM. SE QUISERES EXTRAPOLAR PARA ALÉM DOS ESPAÇOS DA UFPA, HÁ UM PRÉDIO BELÍSSIMO NA BR-316, DA HOJE EMATER. MAS NÃO É O PRÉDIO DA FRENTE (TAMBÉM ANTIGO) E SIM O QUE SE ENCONTRA ATRÁS, EM FACHADA CURVILÍNEA DE ALVENARIA COM SUSTENTAÇÃO DA COBERTURA EM FERRO. ESSE LINDO PRÉDIO MEIO QUE PERDIDO DA VISÃO DA BR, ERA, PARECE, UM ENTREPOSTO DA FERROVIA BELÉM-BRAGANÇA SENDO UM TERMINAL ONDE A MARIA FUMAÇA CHEGAVA E DAVA A VOLTA! TODO O SISTEMA FÉRREO PARA O RETORNO DA LOCOMOTIVA ATÉ POUCO TEMPO ESTAVA LÁ INCÓLUME. NÃO GOSTARIAS DE DAR UMA OLHADELA GOOGLENIANA? PARABÉNS PELO TRABALHO SALVADOR DA MEMÓRIA SEMPRE NEGLIGENCIADA.

  4. Aristoteles Miranda disse:

    então a hipótese que levantei não era de todo descartável. Parabéns pela tua persistência e insistência em encontrar a solução para o “enigma”.
    Abs

    • fauitec disse:

      Ari:
      A tua hipótese estava corretíssima: de ser outra a unidade de medida, que não o metro; mas foi o Fabiano quem deu a topada.
      HB.

  5. Rose Norat disse:

    Muito bom Haroldo e colaboradores como bem disse Paulo “garimpeiros” de imagens e histórias. Esse assunto sempre me despertou a curiosidade. Tem sido ótimo acompanhar as idas e vindas dessa história recente quase que “excluída” da memória coletiva, talvez até um reflexo da moralidade e dos bons costumes em varrer para baixo dos tapetes as “manchas e feridas” que muitos segmentos da sociedade ainda insistem em ignorar.

  6. Depois de ler tudo isso me veio a duvida que as medidas do terreno da Felix Rocque, que afunilou essa travessa na beira do rio, fossem em ‘pés”, em vez de “metro”???? Vou até olhar novamente os documentos para ver se está clara essa unidade de medida…
    Mesmo com os treze embargos, eles construiram o que quiseram, agora devidamente autorizados por todos os orgãos que deveriam defender não somente noss orla, mas nossa memoria historica também.
    A altura da construção, autorizada onde não havia nada, tirou a visão do céu e aumentou a impressão de afunilamento.
    http://civviva-cidadevelha-cidadeviva.blogspot.com.br/2015/04/fotos-eloquentes-da-trav-felix-rocque.html
    Lutar para obter determinados resultados, dá dó. É como se todos tivessemos o nariz furado ao contrário….e olhar determinadas pessoas, da até nojo. É como se fossem vários “cunha” espalhados por ai.

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