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A “arara” que a cidade maltratou — Parte II; por João Carlos Pereira

Professora Graziela Guimarães Pimentel
Ainda memória e esquecimento de uma pobre mulher
João Carlos Pereira
jcparis1959@gmail.com

Uma vez, perguntaram a Cid Moreira se não ficava nervoso, na hora de apresentar o Jornal Nacional. Consciente do alcance do programa, disse que, se pensasse na quantidade de pessoas que estavam assistindo ao jornal, na hora em que acende a luz vermelha da câmera, não conseguiria abrir a boca. A luz vermelha indica que a atração está no ar e, a partir daquele momento, não há alternativa: ou fala, ou fala. Comigo é assim mesmo. Se eu soubesse aonde as crônicas vão parar, depois que aperto o botão que as projeta para o mundo, não escreveria uma linha. Vou no escuro. Na mão de Deus.
Talvez por haver me afeiçoado demais à figura da professora Graziela, nem percebi o quanto a crônica sobre ela se distanciou de mim. Muita gente reproduziu, replicou, republicou, postou onde quis e bem entendeu, porque elas são livres, com este selo de origem. As crônicas possuem a marca da minha liberdade de expressão. Meio mundo, por assim dizer, me mandou mensagem. Cada uma trazia uma pequena história, um sentimento, um ato de arrependimento pelo mal que fez à pobre Graziela Guimarães Pimentel, a quem cidade aperreou o quanto pode.
No começo, pensei que seria difícil, quase impossível, pintar-lhe o retrato a partir de informações soltas, mas desde de segunda-feira que não param de chegar elementos para me ajudar a completar o esboço e transformá-lo num retrato. No triste retrato de uma mulher que a bem dizer nasceu princesa. “Ela não lavava uma meia. Tinha tudo. Era mulher muito fina, prendada, de família”, definiu Fafá de Belém, que leu a crônica em São Paulo e me entregou uma série de peças importantes do quebra-cabeça, que também posso ver como cacos para um possível vitral.
Para compreender melhor a trajetória de vida de uma jovem estudante, nascida em Curuçá e que na década de 30 já era professora normalista, enfrentando as adversidades de uma cidade agitada pelas ondas da Revolução, Graziela Guimarães, depois Pimentel, tinha uma espécie de liderança entre suas colegas. Falava bem, escrevia bem, possuía vasta cultura e um nariz enorme, que lhe valeu o apelido que a crucificou em vida. Odiava ser chamada de Arara.
Se tivesse a compreensão de que a única forma de evitar que um apelido grude na pele da criatura é ignorá-lo, talvez o tivesse feito. Mas a pobre não conseguiu. Quanto mais reagia, mais se entranhava em seus poros. Que o diga outro pobre de Cristo, português de nascimento, que perambulava pela “Campos Sales”, no tempo da Agência Martins, perto do prédio de “A Província do Pará”. Se ninguém bulisse com ele, ficava quieto. Mas se o chamassem de espanhol, perdia as estribeiras, descia das tamancas, desancava sobre quem lhe maculasse a nacionalidade. “Eu sou português, espanhol é a puta que te pariu, seu filho da puta. Português, português, português”, repetia o coitado do espanhol.
Quando o inferno onde entrou teve começo, ninguém sabe dizer. Bastou a primeira resposta para que a cidade começasse a aperreá-la. O neto, Francisco Canindé, me disse que a avó sofria dos nervos, padecia de uma espécie de depressão, ela e a filha, Severa, que não as impedia de viver, nem se agravava. O problema era bem mais agudo. Estudiosa do espiritismo, teria se atrapalhado com as idéias da doutrina, mas é impossível provar. Haveria espíritos a atormentar-lhe o juízo? Obsessores, zombeteiros, encostos, sofredores, inimigos de outras vidas, gente ruim sem corpo físico? Deus é quem sabe…Que carma, Senhor ….
A Fafá me contou outra história. “Quem enlouqueceu ela foi o Ferrúcio Pimentel, pai do doutor Estudito Pimentel, o Dito, que era um homem maravilhoso”. Para desenhar bem a genealogia, explicou, pacientemente, quem era quem na vida da professora Graziela: “o Ferrúcio era irmão da tia Zita, mulher do tio Pedro, mãe do Armando Moura Palha e da Marizinha. Na realidade, a Arara era tia direta do Armando Moura Palha, o Armandinho.”
Mais feio que o nome Ferrúcio era seu comportamento. “”Ele era um sedutor. Não sei se chegaram a casar. Acho que ele deu uma pegada e, quando a família descobriu que ela não era mais virgem, coloco-a na rua. Foi isso que eu sempre soube, que a minha família sempre soube. Ela enlouqueceu na rua. O tio Pedro era um homem muito importante e o que eu, o que nós sabíamos lá em casa, é que ela enlouqueceu por causa do Ferrúcio, que pegava todo mundo e tinha filho com todo mundo. Quando morreu, tinha um filho de 50 anos e outro de dois. Era um coronelão de Santarém Novo. Se perguntar lá, os velhos todos sabem quem foi ele.”
Ferrúcio Godofredo Pimentel foi Prefeito de Santarém Novo nos anos de 1950/1960 e fiscal do INSS.
Isso estabelece uma linha de parentesco com a cantora? Não. Mas se houvesse, qual seria problema? Para Fafá, nenhum. “Ela não era minha parente direta, mas era do Armando, da Mariazinha e da Maria Augusta. Um dia desses, eu estava rezando, na Igreja, quando a Ararinha veio, com o cabelo pintado de vermelho, vermelho, vermelho, acho que pintaram de açaí, e me disse: ´oi, tu sabes que sou tua prima?´ Para mim está tudo certo. Acho que as pessoas têm o destino dela e o da Arara foi muito triste. Mas numa Belém tradicional, isso era tabu”.
Filha de uma família tradicional em Curuçá, a professora Graziela chegou a dirigir uma escola no município. O neto, Canindé, a respeito de quem muita gente me perguntou o paradeiro, superou todos os problemas da infância e conta, sem nenhuma mágoa, do orgulho que tinha da avó, a quem trata, sem neuras, de Arara. Autor de três livros sobre sua cidade, foi Secretário Municipal de Administração e cuida da mãe, Severa Romana Guimarães, diagnosticada com esquizofrenia, que mora numa casa ao lado da sua.
Eu gostaria de ter lido uma redação preparada por um rapaz, aluno do curso Clássico, do Paes de Carvalho, trabalho passado pelo professor Acy de Jesus Barros Pereira. Ele pedira aos alunos que descrevessem um tipo interessante da cidade. O aluno, chamado Ronaldo Valle, hoje desembargador do Tribunal de Justiça, preparou um perfil da professora Graziela. As informações, nem ele mais recorda. Mas o que ficou na memória foi a lista de palavrões que desfiava, quando se sentia ameaçada e agredida.
Leonam Cruz Jr., também desembargador, lembra dela, caminhando pela avenida Presidente Vargas, e de seu irmão, o cantor e compositor Bosco Guimarães, um sambista que chegou a vencer festivais no Rio de Janeiro. Georgenor Franco Filho, o terceiro desembargador a entrar na conversa, me contou que sempre via a família, mais o folclórico guarda-chuva, perambulando pelos corredores do Palácio “Lauro Sodré”. Sem ter o que fazer, a professora aposentada precocemente, gostava de ver autoridades.
Marília Guzzo ainda era estudante, recém-chegada de Manaus, quando se tomou de pavor pela senhora de nariz adunco, que andava pelas ruas se defendendo das ofensas. “Eu achava que ela sofria de autismo, um termo inexistente na época”. Ana Carolina Proença, moradora das imediações da Praça da República, era filha e neta dos proprietários da PRC-5 Rádio Clube do Pará, lembrou que um funcionário da emissora, chamado Otávio, negro retinto, tão preto, tão preto, ganhou o apelido de “Petróleo” e assim se apresentava. O danado não podia ver a pobre arara, que se danava a berrar o apelido. A vingança batia na alma. Assim que o identificava, começava a cantar: “preto não entra na América… preto não entra na América”. Dois segregados, um pela cor, outra pela deformidade, mangavam do que tinham de mais seu.
Ao tempo em que era titular do Cartório Chermont, Zeno Veloso a recebia em seu escritório, onde ia descansar o corpo e alma. “Hoje eu fui tão maltratada, dr. Zeno”, queixava-se. Lá beneficiava-se do refrigério do ar-condicionado e do carinho com que era recebida. Ela, Severa e Canindé. Tomavam um cafezinho, bebiam um copo d´água e partiam. A malvadeza da rua a aguardava atrás dos postes, escondida pelas portas entreabertas, ou covardemente por gente que berrava “arara…” e corria. Essas pessoas bem mereciam o “bando de filhos da puta” com que tentava ofendê-las.
Entre os tantos moleques que azucrinavam a passagem da professora estava um que, apesar de haver chegado à terceira idade e virado avô babão dos netos, que fazem dele gato-e-sapato, não perdeu o jeito menino de ser. Denis Cavalcante, hoje, se arrepende de haver berrado, tantas vezes, o apelido da senhora. Naquele tempo, maltratar as pessoas era motivo de riso. Hoje, dá cadeia.
Tantas outras pessoas me mandaram depoimentos, fizeram “mea culpa” e narraram histórias da Arara. Haroldo Baleixe, artista, professor e gente boa, republicou a crônica na página da Faculdade de Arquitetura e a primeira reação de Flávio Nassar. Ele disse que a senhora cuja foto ilustrava a capa da crônica não era a da professora Graziela e sim de outra criatura, muito parecida, apelidada de Marta Rocha, ou Genipapo. Se é, não sei. Mas fica o registro.
Baleixe também enviou a informação publicada pelo meu querido Luiz Paulo Freitas, o inesquecível Paulo Zing, sobre quem ainda vou escrever, em 15 de outubro de 1989, no “Liberal”, dando conta de que a Ararinha desfilava no arraial de Nazaré, anunciando sua candidatura à Assembleia Legislativa, pelo PDC. A madrinha e maior cabo-eleitoral era a mãe, que trazia a experiência de campanha para vereadora, na eleição anterior. Ambas encontraram o mesmo obstáculo: não tiveram votos. Fosse agora, quando o eleitor leva tudo a pagode e elege tipos como os que vemos no Legislativo e no Executivo, uns inofensivos, outros, perigosíssimos, teriam tido grande votação.
Voltei a tratar da figura da professora Graziela, não apenas porque me inspirou enorme ternura, como porque Belém precisa reviver a memória de sua gente esquecida. Além de cruel, como disse na crônica anterior, a cidade possui memória curta e ainda padece de um profundo desinteresse por aqueles que, de alguma forma, ajudaram a formar a alma de uma terra cheia de gente interessante, cuja imagem começa a desaparecer, como se tivesse sido impressa com tinta de caixa eletrônico de banco que, com o tempo, some completamente, deixando apenas, sobre o papel amarelado, lembrança do nada e de coisa nenhuma.
Graziela Guimarães Pimentel nasceu no dia 3 de março de 1912 e morreu no dia 02 de janeiro de 2002, de falência múltipla dos órgãos. Naquela altura, havia carregado nos braços dois bisnetos.
Pobre Belém…tão Belém, como suspiraria o comendador Sobral, um sábio, o único dicionarista da Amazônia, que precisa ser lembrado e reverenciado, na grandeza de seus 80 anos. Ainda há tempo.


PostScriptvm:
Sobre as fotos publicadas o professor João Carlos esclareceu que a primeira (acima) é a professor Graziela com seu neto, Francisco Canindé, ainda criança;
A segunda foto mostra a filha da professora, Severa (ou “Ararinha”); e
A terceira: novamente ela junto ao neto adulto (o “Periquito”).
As fotos foram gentilmente cedidas por Francisco ao João.

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A “arara” que a cidade maltratou; por João Carlos Pereira

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Professora Graziela Pimentel
A história de um apelido infeliz e de um “bullying” coletivo
João Carlos Pereira
jcparis1959@gmail.com

A primeira vez que a vi foi num final de tarde, em 1968, ou, talvez, 1969. Eu era um menino e voltava da Capela de Nossa Senhora de Lourdes, depois de aliviar minha alma, até então coberta de lodosos pecados, para que pudesse fazer a Primeira Comunhão, no dia seguinte. Nem sei que mentiras inventei ao padre-confessor, a fim que pudesse me considerar puro. Acho que mais menti do que confessei. Ou melhor, confessei mentiras. Passei e repassei os 10 mandamentos da lei de Deus e não achei motivo de tropeços em minha pouca caminhada. Mesmo assim, tinha de me confessar. O quê, não sei.
Eu retornava para casa, a pé, acompanhado de minha mãe. Vinha duro, rijo, nem olhava para o lado, apavorado com a possibilidade de pecar e, assim, inviabilizar minha Comunhão inicial, o que me levaria ao inferno. Desejava ter saído do confessionário dentro de uma ambulância e largado em casa, onde estaria protegido de todos os males, amém. Como não foi possível, o jeito era enfrentar os quarteirões que separavam a Capela de nossa casa. Fugir da vida nunca resolveu problema de ninguém. Na esquina de Nazaré com a Generalíssimo, ela apareceu. Do nada. De repente.
Naquele cruzamento encontravam-se alunos de várias escolas, rapazes e moças para os quais a vida era feita de risos, deboches e alguma crueldade. No instante em que a professora Graziela surgiu, arrastando seus sapatos, começou a algazarra: “arara!” “arara!”, “arara!”.
Os berros vinham de todos os lados. Os demônios se escondiam atrás das árvores ou dos postes e se danavam a chamá-la pelo infeliz apelido, nascido da semelhança de seu nariz com o bico de uma arara. A professora Graziela se transformou na arara do desafeto coletivo. Defendia-se da ofensa, usando as únicas formas a seu alcance: dava sombrinhadas, atirava as pedras que conseguia recolher da calçada ou desfiando uma interminável série de palavrões, dos mais cabeludos aos mais simples. Começava com bando de filhos da puta e terminava com xingamento mais brandos, tipo burros, analfabetos, malditos.
Exasperada, movia-se como se fosse a própria metralhadora giratória. Tinha de devolver as agressões a cada um dos agressores. A cena não era de longa duração, mas o suficiente para enlamear uma alminha pura, decente como a minha, na qual Jesus viria habitar em menos de 24 horas. Minha mãe dizia: “tá vendo? Isso não se faz. E tu vais fazer Primeira Comunhão”. Era a educação pelo medo, aliada ao catecismo da culpa. Deu no que deu. Eu não sabia o que era que não se fazia: se perturbar uma pobre mulher, ou o retorno que a afronta merecia. Desconfio que as duas coisas. Enquanto caminhávamos, a mamãe repetia: “não olha, não olha”. Os filhos da puta se multiplicavam como eco nos meus ouvidos purificados. A pobre mulher não tinha um minuto de sossego. Nem eu.
Por muitos anos não a vi, até que reencontrei-a na rua, acompanhada da filha e do neto. Estava bem mais velha. A filha, Severa, trazia os cabelos tingidos de um loiro desbotado, cobria o rosto para mostrar vergonha pelo destempero materno, enquanto corria atrás do menino que as acompanhava. Tratava-se Francisco Canindé, uma criança muito branca, de pernas compridas, cabelinho liso, cara sempre assustada, que entrava no ônibus, botava a cabeça pra fora, batia na carroceria externa e desfiava outra série de filhos da puta, fazendo nome no dedo. Que sina, meu Deus!
Em muitas e muitas ocasiões encontrei a professora Graziela e sua família perambulando pelas ruas e pela Praça da República. Ela estava cada vez mais corcunda, mas nunca a vi desarrumada. A filha, a quem chamavam de ararinha, pintava o rosto de forma exagerada e o menino,apelidado de periquito, já parecia um rapaz. Se a provocassem, desancava sobre a filha. “Severa, puta, vem cá…puta,puta,puta”. Havendo plateia, acusava a pobre de prostituta e contava que se deitava com os homens por dinheiro. Era um disco arranhado: “puta,puta,puta,puta….” A pobre se encolhia de vergonha.
Sempre tive muita curiosidade de saber mais sobre a família que padeceu nas mãos desta terra um tanto desalmada. Penso que nunca foi entrevistada ou que ninguém jamais cuidou de desenhar-lhe o retrato, ainda que fosse um breve esboço, como este que agora preparo, com a ajuda de pessoas que conviveram com ela.
Sebastião Godinho me ofereceu a foto que ilustra a capa da crônica. Bernardino Santos me contou que esteve muito próximo a ela e sempre a tratou com respeito. Chamava-na de professora. “Bom dia, professora, boa tarde, professora”. Por conta dessa deferência, soube que a professora Graziela Pimentel o considerava o homem mais bonito, elegante e educado de Belém. Não podia ser diferente. Ela frequentava a casa de uma tia do jornalista e foi lá que se conheceram. Quando começou a trabalhar na Prefeitura, Bernardino a via perambulando pelos espaços internos e gabinetes do Palácio Azul, o “Antônio Lemos”. Aposentada precocemente, tinha todo o tempo do mundo para tentar visitar as autoridades. Ou mesmo nada a fazer.
No Palácio, colecionava antipatias e brigas. Havia um capitão (ou seria coronel) dos Bombeiros, que implicava com sua presença. A implicância era recíproca. Se alguém se escondia atrás de uma porta e gritava o apelido, coitado de quem passasse naquela hora. Escutava os impropérios, sem nada ter feito.
Uma vez, arrumou desavença com uma senhora que trabalhava lá. Toda vez que a via, choviam palavrões. Não sei de onde tirou a ideia de que a mulher era amante de D. Ângelo Rivato, o bispo do Marajó. Mal a criatura riscava na porta do Palácio, fazia a mesma denúncia. Chateada, a servidora fugia da professora, saindo pela porta do fundo. Quando os taxistas descobriram, avisaram-lhe que a fulana, a suposta amante do Bispo, evadia-se por outro caminho. Esperta, deixava a filha numa entrada e ia para a outra. Os taxistas, mancomunados com os guardas, queriam mesmo era ver o circo pegar fogo. A servidora perguntava se a “arara” estava por ali e todos diziam quem não, apenas a filha havia ido dar “expediente”. Era mentira. A professora a aguardava de sombrinha em punho e, assim que colocava a cara na rua, era lembrada, publicamente, de seu “caso amoroso” com D. Ângelo. Esse inferno durou muito tempo.
De Edson Salame escutei outra parte da história. Tratava-se de uma senhora distinta, casada com um médico, o Dr. Pimentel. Era impossível continuar vivendo com uma criatura que perdeu a razão e precisou ser aposentada por invalidez. Cada um foi para o seu lado. Ele constituiu outra família e ela ficou nas ruas. Não na rua da amargura, porque recebia aposentadoria integral e, pelo visto, não era pouca coisa. Andava sempre muito arrumada, penteada, com colares e bolsas combinando. Morava num hotelzinho e comia nos restaurantes populares da área do comércio. O resto do dia passava entre o Palácio do Governo, o Tribunal de Justiça e a Prefeitura. Fazendo o quê? Coisa nenhuma.
Cansada de tanto ser chamada de “arara”, pediu uma audiência ao governador Jarbas Passarinho. O objetivo era conseguir dele um decreto, que proibisse as pessoas de berrar seu apelido. O distintíssimo e bem-humorado JP a recebeu carinhosamente em seu gabinete e ouvi a súplica. Sem conseguir convencê-la de que o decreto seria inútil, procurou consolá-la. “Minha professora Graziela, a senhora sabe que o povo todo me chama de Passarinho, não sabe? Eu não ligo a mínima. Faça como eu, não ligue. Afinal, a senhora é arara e arara é mais que passarinho. Não se aborreça com isso”. Não sabe a reação da pobre criatura a quem a ninguém respeitava a falta de saúde mental.
De Linomar Bahia só ouvi coisas bonitas a seu respeito. “Era uma mulher elegante, fina, culta, falava e escrevia muito bem”, descreveu o jornalista. “A letra da professora Graziela era tão bonita, que parecia a de um calígrafo. Sua cultura geral era ampla, tanto que ensinava português, matemática, história, geografia e ciências”. O que a tirou do eixo, ignora-se. Igualmente desconhece-se o que alterou a vida da filha, que foi casada com um oficial da Marinha. “Ela era uma mulher corretíssima, educada”, definiu Bahia. Como ficou daquele jeito, só Deus poderá dizer. A doença consumiu sua paz e abafou seus talentos, inclusive o de pianista.
Cada vez mais curvada, com o nariz parecendo bem maior, andava com o contra-cheque na bolsa e, se alguém viesse puxar conversa, exibia o documento. Eu mesmo o tive em mãos. Nunca a encontrei desleixada ou suja. Pelo contrário. Sempre arrumada, saia, blusa para dentro, roupa de boa qualidade. Quando começou a receber a pensão do ex-marido, a vida melhorou. Abandonou a comidinha caseira e barata dos restaurantes do comércio e passou a fazer as refeições no antigo hotel Hilton, onde possuía mesa cativa e pagava as contas de forma correta. “Ela, a filha e o neto chegavam e iam para uma mesa bem no fundo. Ninguém mexia com eles. Lá conseguiam ter sossego e respeito”, lembra o Bernardino, que, nessa época, frequentava o Clube do Açaí, uma agremiação de jornalistas e pessoas de projeção social, comandada pela professora Elanir Gomes da Silva, a Lana.
A professora Graziela já morreu. Quando? Não imagino. A filha, Severa, ainda vejo de quando em quando, na missa da Basílica. Ela piscas os olhos, beijas as pontas dos dedos e faz um adeusinho sapeca, me olhando por cima do ombro. Acho que faz isso com todo mundo que lhe dá trela. O cabelo está mais desbotado do que no passado. Nunca assiste à missa por inteiro. Fala sozinha, conversa com Nossa Senhora, se ajoelha e parte. Quanto ao neto, uma vez me escreveu um e-mail lindo, agradecendo a forma generosa como tratei sua avó. Ocupava, à época, o cargo de secretário de Cultura de um município do interior e se tornara escritor, com obra premiada e tudo. Gostaria de ter contato novamente com ele.
Belém foi muito má para com essa pobre senhora que, a rigor, nunca fez mal a ninguém. Descontando as implicâncias, que surgiam apenas contra que a agredia, e o fato de haver revelado (ou inventado) que a mulher era amante de D. Ângelo, nada se tem a dizer contra ela. Na verdade, se há alguma coisa a ser dita é uma palavra de perdão, pelo tanto que se fez contra uma criaturinha, cujo único defeito era o tamanho do nariz. Hoje, uma plástica resolveria o problema. Mas cirurgia alguma removeria de sua alma as cicatrizes que a “brincadeira” idiota colocou-lhe na alma.
Desculpe, professora Graziela. Esta cidade, quando quer, sabe ser cruel.


Leia a continuação: A “arara” que a cidade maltratou — Parte II; por João Carlos Pereira.

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Círio 2020 — marca e selo comemorativos

Calouros vestem, do jeito virtual, as futuras camisetas do Círio 2020

No dia 30 de maio passado o Laboratório Virtual completou 10 anos de atividades — nasceu em 2010 com o projeto piloto Blog da FAU e em 2012 obteve o primeiro prêmio como Prática Inovadora em Gestão Universitária da Universidade Federal do Pará.
Nada a comemorar diante da calamitosa situação do país; seja pela pandemia, seja pelos incertos rumos da substantiva Educação Pública Brasileira.
O 17 de março de 2020 foi o primeiro e último encontro com as turmas completas na disciplina Representação e Expressão I da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo; após isto, apenas comunicações remotas por aplicativos restritas às chefias de turma: Emylle Keiko (manhã) e Hugo Farias (tarde) que se mantêm empenhados, desde então, em zelar pelo equilíbrio daqueles que entraram na FAU-UFPA e em momento sequente foram impedidos, por causas exógenas, de frequentá-la como sonhado.
De praxe, no encontro do mencionado dia 17, aplicou-se um teste de sondagem (hoje como de diagnóstico) — mecanismo preliminar à condução didática da disciplina —; entretanto, tal exercício não foi pensado como aberto (livre), limitou-se à observação de duas formas: uma geométrica e outra orgânica em experimentos gráficos compositivos; ninguém imaginaria, àquela altura dos acontecimentos, o distante Círio de Nazaré (este como manifestação cultural repleta de significâncias: oceânico em possibilidades).
Foi desse conjunto gráfico — vindo da única atividade oficial (ou institucional) cabível perante as circunstâncias que causaram o confinamento compulsório em Belém do Pará — que se pinçou a marca aqui publicada que poderá ser serigrafada em camisetas* e figurará como selo do Círio 2020 no topo deste site durante a Quadra Nazarena.
O autor, calouro da turma da manhã, é Vitor Pereira Lima, oriundo da Escola Técnica Estadual Magalhães Barata, com 19 anos.


Memorial gráfico: o desenho feito com caneta bic por Vitor transmutado em marca e selo comemorativos do 10° CÍRIO FAU-ITEC-UFPALaboratório Virtual

*Para confecção de camisetas basta acessar este pdf com a arte concedida ao domínio público — o formato A4 é o padrão da “queima” da tela serigráfica.