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Os 30 anos da última reforma do Goeldi; por Antonio Carlos Lobo Soares


Fotografias do Goeldi entre 1984 e 1988

Em outubro de 2018 completam-se trinta anos da conclusão da última grande reforma do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, financiada pelas companhias Vale do Rio Doce, ALBRAS e ALUNORTE. Entre 1984 e 1988 foram aplicadas 42 mil ORTN’S (Ordens do Tesouro Nacional), hoje equivalentes a 4,5 milhões de reais, na modernização da infraestrutura, fauna e flora dos 5,4 hectares do Parque.
No início da década de 1980, o Parque apresentava sérios problemas de conservação, com seu sistema de drenagem de águas pluviais obstruído por raízes de árvores e por terra carreada pela chuva dos caminhos percorridos pelos visitantes. Os canteiros com as árvores e arbustos do Parque encontravam-se empobrecidos de nutrientes e com pouca variedade de espécies de sub-bosque.
As condições dos animais e seus viveiros eram, sem dúvida, as mais preocupantes. Além deles sofrerem com o estresse devido aos sons dos visitantes e do tráfego rodoviário no entorno do Parque, tanto a estrutura em madeira como as telas dos viveiros estavam precárias (Figura 1), com fugas e mortes constantes de aves e ataques de ratos. Não havia sistema de manejo e contenção dos animais que facilitasse o acesso de tratadores, biólogos e veterinários aos viveiros.
O excesso de animais nos viveiros de jacarés, por exemplo, resultava em agressões mútuas, com exposição de mutilações e feridas, de toda a natureza, aos visitantes (Figura 2). Àquela altura, grande parte da dieta dos animais era constituída de sobras de alimentos doadas por supermercados próximos ao Parque.
A situação da fauna resultava em: índices de mortalidade em cativeiro muito acima da média dos zoológicos nacionais; uma impressão (negativa) de abandono do Parque aos visitantes; e impossibilitava abordar o tema da conservação da natureza e criação de uma consciência ecológica amazônica, como pretendia à altura o Serviço de Educação do Museu implementar.
Com apoio de lideranças políticas locais e nacionais, o Diretor do Museu Dr. José Seixas Lourenço alinhavou a reforma do Parque junto ao presidente do CNPq, professor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, e às Companhias citadas e incumbiu-me de defender o projeto “Consciência Ecológica da Amazônia” na sede da Vale, no Rio de Janeiro, na sala de reuniões do seu presidente Eliezer Batista.
A tensão vivida naquela que foi a minha primeira viagem profissional marcou-me profundamente. Com 24 anos e recém-formado arquiteto pela Universidade Federal do Pará, encarei aquele desafio como uma oportunidade de aprendizado, modernização do Parque e afirmação profissional, visto que eu era apenas bolsista do CNPq a serviço do Museu Goeldi.
O projeto e os recursos foram aprovados e eu voltei do Rio de Janeiro feliz, mas com uma forte gastrite resultante da tensão, responsabilidade e esforço em defender a reforma do Parque, de posse apenas de uma planta baixa de 1×2 metros, coberta com uma folha de papel manteiga, rabiscada de ideias gerais.
Na década de 1980 não havia literatura disponível na língua portuguesa sobre manejo de animais silvestres em cativeiro, muito menos uma legislação que balizasse os critérios de exibição de animais nos zoológicos nacionais. Neste sentido, quatro ações foram fundamentais para o sucesso da reforma do PZB àquela altura:
– a consultoria do paisagista Ney Dutra Ururahy, que estabeleceu os primeiros passos do projeto paisagístico;
– a contribuição do biólogo Carlos Alves Junior, responsável pela elaboração da primeira Instrução Normativa sobre animais silvestres em cativeiro, elaborada pelo IBAMA em parceria com a Sociedade de Zoológicos do Brasil;
– o acolhimento, com bolsa do CNPq, do experiente tratador de zoológicos na Flórida (EUA) Jim Ellis Jr, que dissertava sobre os zoos brasileiros;
– e a minha participação com o arquiteto Alberto Pereira Góes no curso de “Administração e manejo de animais silvestres em cativeiro”, promovido pela Fundação Parque Zoológico de São Paulo.
Uma equipe formada pelo paisagista, o arquiteto e biólogo citados, o veterinário Humberto Soares e o botânico Paulo Cavalcante, definiu o escopo do projeto que tinha como objetivo geral “Reformular o Parque Zoobotânico do Museu Goeldi para transformá-lo em um instrumento de educação e de conscientização ambiental sobre a importância da preservação da Amazônia”. O projeto partia da premissa de que não era possível falar de educação e conscientização ambiental, aos cerca de 300 mil visitantes anuais do Parque, expondo animais mutilados em viveiros “caindo aos pedaços”!
Assim sendo, a principal ação de reforma do Parque concentrou-se na melhoria da sua infraestrutura e das condições dos animais em viveiros. Além de doações de particulares, o Parque recebia como fiel depositário, regularmente e em quantidade, várias espécies de animais silvestres apreendidas pelo IBAMA, que contribuíam, ao mesmo tempo, para a superlotação dos viveiros e renovação da coleção viva em exposição. Esta entrada imprevisível de animais no Parque prejudicava o planejamento e a aquisição de alimentos e medicamentos pelo Museu.
Definiram-se as espécies de mamíferos, aves, repteis e peixes e as quantidades de indivíduos a serem mantidos e/ou introduzidos no Parque, com vistas a alcançar um equilíbrio no plantel que garantisse animais expostos em ambientes adequados, saudáveis, e em condições de se reproduzirem em cativeiro, o principal sentido da existência de um zoológico.
Tendo em vista o ruído de tráfego rodoviário no entorno do Parque e a setorização dos ambientes dos animais, para aproximá-los da veterinária e quarentena, alguns viveiros localizados junto às Avenidas Magalhães Barata e Alcindo Cacela foram realocados próximos da Tv. Nove de Janeiro, onde ônibus e caminhões (acima de 3,5 ton.) são proibidos de circular.
Para minimizar o estresse causado aos animais pelos visitantes, os pontos de observação foram limitados a uma ou duas faces do viveiro, bem como introduzidas cercas de proteção em ferro e tela (Figura 3), distantes 1,2m dos viveiros, para evitar o contato físico com os animais (Figuras 4 e Figura 5). Nas faces dos viveiros sem visitação foram criados canteiros com plantas arbustivas e decorativas (Figura 6).
No Parque havia viveiros ocupados por animais de hábitos noturnos (raposas, macacos-da-noite, juparás, corujas etc.) que passavam o período de visita “escondidos” do público, dormindo, em abrigos de madeira ou em cubículos de alvenaria. Ou seja, eles ocupavam viveiros e geravam custos de manutenção, mas não eram usufruídos pelos visitantes. Os viveiros foram eliminados e os animais transferidos para outros zoos brasileiros!
Outro aspecto considerado na redefinição do plantel de animais a serem expostos no Parque, foi o equilíbrio entre machos e fêmeas por viveiro. Dependendo da espécie, no caso dos macacos prego (Sapajus apella), por exemplo, para cada macho são necessárias seis fêmeas.  Ou seja, se houver mais de um macho no viveiro e esta relação não for respeitada, a briga pelo território entre eles será constante.
Tradicionalmente os viveiros de aves do Parque eram construídos em madeira, recobertos com tela, pintados de verde, sem sistemas de manejo para facilitar a contenção dos animais (Figura 7), com cobertura parcial em chapa de flandres e com a possibilidade de serem circundados pelos visitantes (Figura 8). Os tratadores tinham de entrar no ambiente para trocar a água e os alimentos dos animais.
Na reforma, os viveiros passaram a ser construídos em estruturas tubulares de ferro, cobertas com tela, pintadas de preto e com sistemas de manejo de portas e controle de água acionados externamente (Figura 9). Foram acrescentados, ainda, telas e concreto debaixo do piso de areia dos viveiros de aves para evitar o acesso de ratos. A cor preta deu mais transparência e facilitou a observação das aves nos viveiros (Figura 10).
No centro do Parque existia um quiosque de venda de lanches, rodeado de carrinhos de comidas típicas (Figuras 11 e Figura 12), com pouca higiene, que foi substituído por uma nova construção toda em madeira “Espaço Raízes”, financiada por empresa privada que passou a ter a concessão do espaço. Neste novo espaço, passaram a ser vendidos alimentos e artesanatos amazônicos de muito boa qualidade.
As duas principais galerias de coleta de águas pluviais do Parque, repletas de raízes e terra, foram desobstruídas e tiveram sua vazão ampliada, para atender a nova espacialização dos viveiros de animais (Figura 13). Todos os bueiros e ramais de coleta e circulação de água foram recuperados e passaram a ter um cronograma de limpeza regular. Um trabalho sob a terra cuja importância é difícil de ser avaliada pelo visitante comum.
Um projeto de sinalização das espécies de animais nos viveiros e árvores nos canteiros, desenvolvido por estudantes de arquitetura da UFPA, foi implementado, resgatando informações importantes sobre a ocorrência das espécies, seus nomes científicos e suas principais características.
Alguns caminhos de visitação foram eliminados ou estreitados visando aumentar as áreas dos canteiros e a proteção das raízes expostas das árvores (Figura 14). Tanto os caminhos como os canteiros receberam, respectivamente, aterro compactado para direcionar a circulação de água até os bueiros e terra vegetal para enriquecimento da adubação (Figuras 15 e Figura 16). Muitas excursões foram realizadas nos arredores de Belém para coletar plantas visando diversificar as espécies de sub-bosque do Parque (Figura 17 e Figura 18).
Durante a reforma do Parque o Museu recebeu muitas críticas. A primeira delas, vinda dos visitantes, questionava a redução da quantidade de animais expostos e a segunda, de alguns funcionários, protestava diante da retirada do estacionamento de seus veículos do interior do Parque. Com muita paciência e sucessivas explicações na imprensa, todos vieram a compreender a importância das mudanças implementadas.
Como resultado, a população voltou a ser surpreendida, com manchetes positivas nos jornais, sobre os diversos nascimentos de animais silvestres em cativeiro. Assim, o Museu pôde implementar uma série de atividades educativas voltadas aos visitantes do Parque, não só para sensibilizá-los sobre a importância do bem-estar dos animais em cativeiro, mas, sobretudo, quanto à necessidade de criação de uma consciência ecológica amazônica.
O reconhecimento do trabalho do Museu fortaleceu o primeiro abraço dado pela população paraense ao seu Parque Zoobotânico, diante da ameaça de construção de novos edifícios no seu entorno. Tratava-se de uma campanha que envolveu artistas, funcionários, intelectuais e a população em geral em prol da preservação do Parque, que culminou com um abraço simbólico realizado em 26 de maio de 1989, com grande repercussão nacional.
Com 123 anos completados em agosto de 2018, o Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, o mais antigo zoológico brasileiro, começa a apresentar os mesmos desgastes de trinta anos atrás. Ele necessita de novos investimentos que garantam os seus próximos trinta anos no seio da comunidade paraense.

Antonio Carlos Lobo Soares
Tecnologista Sênior do Museu Paraense Emílio Goeldi.

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1940 — o “novo” Goeldi de Waterloo da Silveira Landim

Audiovisual em 2ª edição

Em Museu Paraense Emílio Goeldi; por Waterloo da Silveira Landim (2) do mesmo modo que traçamos um esboço biográfico do capitão-engenheiro-arquiteto Landim trouxemos à luz desenhos publicados em clichês da revista Vida Doméstica (RJ) de janeiro de 1938.
Das seis perspectivas contidas no magazine carioca quatro nos eram inéditas e contribuíram à virtualização de um novo prédio para o Museu Paraense Emílio Goeldi em projeto apresentado ao presidente-ditador Getúlio Vargas no início do Estado Novo — 1937-45.
A pretensa edificação, acredita-se, fora concebida entre os anos de 1936 e 1937 quando o capitão do Exército Brasileiro recém-formado engenheiro-arquiteto na Bellas Artes da Universidade do Rio de Janeiro, (manauara) Waterloo da Silveira Landim, servia no 26° Batalhão de Caçadores do Pará, sediado em Belém, vindo transferido da Capital Federal para onde retornou em julho de 1937.
Em novembro (de 1937) o advogado e cientista Carlos Estevão de Oliveira, diretor do Goeldi à época,  já passara dois meses no Rio com o propósito de solicitar o apoio do Governo Federal em favor do emprehendimento.
Em 10 de novembro de 1937 foi instaurada a Terceira República Brasileira por Getúlio Dornelles Vargas, um regime de exceção conhecido por Estado Novo que só finaria em 1945 com o cessar-fogo da Segunda Guerra Mundial; de 1933 até 1942 Filinto Strubing Müller era o chefe de polícia do Distrito Federal e simpatizante do Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP, Partido Nazista) e da Geheime Staatspolizei (Gestapo, Polícia Secreta do Estado) — enquanto Estevão cumpria sua missão de angariar recursos à construção do “Novo” Goeldi na capital brasileira, Müller estava em viagem oficial à Alemanha encontrando-se com o chefe da Gestapo: Heinrich Himmler.
Tanto Filinto Müler quanto Waterloo Landim frequentaram a Escola Militar do Realengo no Rio de Janeiro; apesar de Müller ser mais velho que Landim presumivelmente uns oito anos, ambos possuíam a mesma patente (de capitão) em 1937.
O audiovisual é uma ficção, certamente uma ficção científica por assentar-se, em parte, na História; como no caso dos tanques destinados à reprodução de pirarucus, um programa de Carlos Estevão que ganhou destaque na imprensa nacional, transmutados em piscina única retangular por Waterloo.
O Palmarium, que no Goeldi real arrodeava os criadouros desses peixes amazônicos assemelhados n’alguns aspectos ao bacalhau, também foi contemplado ocupando os canteiros laterais da piscina que ao centro, em ilhota artificial, é adornada por mitológica sereia, em alusão ao Jardim Mythologico — quinta (chácara) original que abrangera o terreno onde seria construído o edifício projectado por Landim e que ainda hoje guarda a Rocinha e o Parque Zoobotânico.
O programa utilizado à modelagem do prédio nunca erigido foi o SketchUp e à ambientação de imagens e vídeos o Lumion 3d que lamentavelmente não possui exemplares da fauna e flora regionais.
As demais informações da produção estão contidas no audiovisual piloto (acima) passível de modificações em consequência de falhas interpretativas ou novidades advindas de pesquisas.

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Resultado da enquete e marca vencedora CÍRIO 2018 FAU


A estampa vencedora para o Círio 2018 da FAU-UFPA obteve 290 votos: 28% do total de 1.o32.

Autoria: Sara Evelyn Valentim Monteiro.

Mais sobre o assunto em: Enquete de escolha da marca Círio 2018.

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