Policlínica Infantil e residência do Dr. Ferdinando Rapizardi Santos — projetos de Augusto Meira Filho

Dr. Ferdinando Rapizardi Santos defronte de sua Policlínica Infantil

Residência do Dr. Ferdinando publicada em 1941 em revista carioca

Policlínica Infantil do Dr. Ferdinando em 1947 — clichê ilustrativo do jornal do PSD

Na saída de Belém, defronte ao Bosque Rodrigues Alves, entre as travessas Lomas Valentina e Eneias Pinheiro se vê dois prédios desfigurados — considerando-se seus arcabouços originais projetados pelo Escritório Técnico do engenheiro civil Augusto Meira Filho e construído por outro engenheiro civil, Amintas de Lemos, morador do palacete vizinho aos dois lotes onde o Dr. Ferdinando Rapizardi Santos mandou levantar sua casa em 1940 e sua Policlínica Infantil em 1947.
Os dois exemplares da arquitetura praticada por Meira antes e depois da Segunda Guerra foram retirados da vista dos Belenenses — a antiga Policlínica Infantil hoje hospeda o IPAMB e a residência um curso de línguas.
A identificação do lugar contou com a colaboração efetiva do médico Aristoteles Guilliod de Miranda que nos forneceu fotos e jornais de época de seus arquivos.
Com o uso da arqueologia imagética (e virtual) o arqueólogo Fernando Marques, também editor deste site, montou e comprovou o enredo acima escrito e ilustrado.

Se observada a foto antiga da qual não possuímos datação (mas é entre 1939-40 e 1946-47) deduz-se que um chalé típico da antiga Estrada de Bragança foi demolido para dar lugar à Policlínica Infantil Ferdinando Rapizardi Santos que tinha como endereço a Tito Franco n°1032.
(O recorte do aerofotograma é de 1955)

Comparativo com a foto mais recente do Google Street View


Postscriptvm: Augusto Barbosa, também colaborador do Laboratório Virtual da FAU-ITEC-UFPA, chamou-nos atenção para curiosidades aqui não reveladas: na primeira fotografia além do Dr. Ferdinando estão sua esposa Maria Luiza (ao seu lado) e sua cunhada Léa (a primeira da direita) — ambas filhas de Amintas de Lemos, seu sogro.
O chalé citado, segundo soube Guto pela própria Léa em entrevista, pertencera ao francês Charles Henry e foi demolido depois de um incêndio — Léa faleceu no ano passado (2019) aos 99 anos de idade e fora a secretária da Policlínica.
Ferdinando era irmão da pintora Antonieta Santos Feio e tinham um outro irmão chamado Fausto Rapizardi, representante farmacêutico; os três eram sobrinhos do médico Cipriano José dos Santos.

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Delírios na Madrugada — o medo; por Ana Margarida Leal

Professora do curso superior de Música do ICA-UFPA.

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Clipping — Parque da Cidade

Concurso ao projeto Parque da Cidade; por José Júlio Lima*
O projeto para o Parque da Cidade a ser implantado na área do atual Aeroclube do Pará foi objeto de um concurso público lançado em novembro de 2019 sob a organização da FADESP/UFPA e SECULT, as quais organizaram em conjunto um Termo de Referência a partir de material que já vinha sendo discutido por um grupo de técnicos representantes de instituições públicas e de ensino e pesquisa.
Conforme demandado pelo Governado do Estado, o concurso foi dividido em três etapas. Na primeira, o público escolheu de uma lista de equipamentos, três em cada eixo, aqueles que deveriam obrigatoriamente constar dos estudos preliminares. Nesta etapa, houve a participação de 3.000 pessoas.
O resultado por eixo foi o seguinte:
• Eixo Esporte e Lazer: ciclovias, estação de hidratação e quadras esportivas cobertas;
• Eixo Cultura e Economia criativa: espaço gastronômico, espaço coberto para apresentações culturais e teatro;
• Eixo Paisagístico e ambiental: Trilhas, lago e áreas para picnic.
Na segunda etapa correspondente a elaboração de propostas para projetos de arquitetura, urbanismo e paisagismo a partir do site na internet onde se tornou público o Termo de Referência, Edital e documentos técnicos para subsidiar a elaboração das proposições.
Tendo as inscrições finalizadas em 21/03/2020 e a homologação em 03/04/2020. Houve 85 inscrições, das quais 63 foram homologadas após o período de recursos, o quadro abaixo mostra a origem dos inscritos.
Devido a pandemia do Coronavirus o cronograma da terceira etapa do concurso foi redefinido, tendo sido estabelecido que o prazo para envio das propostas será dia 31 de maio de 2010. Quando foram recebidas 23 propostas, cada uma com 5 pranchas com todos os elementos projetuais de arquitetura, paisagismo e urbanismo conforme o formato definido no edital. As propostas foram originadas dos seguintes estados: Pará e São Paulo, cada um com 8 propostas, Rio de Janeiro com 3, Paraná com 2, Rio Grande do Sul e São Paulo com 1 cada.
O júri formado por 5 profissionais com reconhecido saber no campo da arquitetura, urbanismo e paisagismo reuniu-se por teleconferência nos dias 6 a 10 de julho, e concluiu a seleção de dois projetos ganhadores para a próxima etapa e conferiu duas menções honrosas conforme o quadro abaixo.
• Arquiteto Paulo de Castro Ribeiro
• Arquiteta Roberta Menezes Rodrigues
• Arquiteta Claudia Brack Duarte
• Arquiteto Nelson Luis Carvalho de Oliveira
• Arquiteta Maria Izabel da Silveira Lobo Magalhães de Oliveira
Propostas selecionadas para Votação Popular
Proposta “Parque da cidade, onde a cultura se fortalece” dos autores: Nicolas André Mesquita Cerino Carrillo Le Roux; Paula Lemos; Luis Rossi
Proposta “Parque para todos” dos autores Carlos Eduardo Murgel Miller; Marcos Bresser Pereira Epperlein; Thiago Santana Maurelio; Eduardo Saguas Miller; Guilherme Henrique, Machado Faganello e participação do estudante – Vitor Martins.
Foram atribuídas duas menções honrosas:
Proposta dos autores: Dimi Kuroki; Lucas Lemos.
Proposta dos autores: Matheus Vianna Macedo Borges; Estudande Augusto Longarine e a participação do estudante Luiz Felipe da Costa Sakata
A terceira e última etapa do concurso teve início no dia 20 de julho quando por meio do site do concurso e um aplicativo foi disponibilizado para população votar em uma das duas propostas selecionadas pelo Júri. O resultado final divulgado em 17 de agosto de 2020 foi do projeto Parque para todos o ganhador com 1.750 votos e o segundo com 1.611 votos, totalizando 3.361.

*O professor titular José Júlio Lima coordenou o referido concurso público executado pela FADESP — Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa.

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A “arara” que a cidade maltratou — Parte IV; por João Carlos Pereira


Professora Graziela – final
Uma aposentadoriazinha e outra parte de sua história
João Carlos Pereira
jcparis1959@gmail.com

Antônio Erlindo Braga era auditor do TCE, quando chegou-lhe às mãos o processo de aposentadoria compulsória da professora Graziela Guimarães Pimentel. Ele analisou com atenção o pedido e o deferiu, lamentando o valor do benefício, depois de uma vida dedicada ao magistério, à época pouco menos de R$ 180,00. Isso mesmo: cento e oitenta reais. O salário mínimo, em 1994, era de exatos cem reais. Hoje, a professora Graziela Guimarães Pimentel não receberia mais do que R$ 1.800,00.
Depois que começou a receber meus textos, enviados pela desembargadora do Trabalho aposentada e querida amiga Odete de Almeida Alves, Antônio Erlindo recuperou as informações e preparou o texto abaixo. É um pouco longo, eu sei, e poderia tê-lo reduzido. Mas, para quê? Quem está com pressa? Trata-se de um documento muito importante para a história da professora que, aos poucos, tentei reconstruir.
Com autorização de Antônio Erlindo, a quem não conheço pessoalmente, mas a respeito do qual só escuto elogios e palavras doces, publico a apresentação e o parecer. Ambos fundamentais para se homenagear a personagem e o ser humano, a quem passei a admirar e a querer bem:


UMA PROFESSORA APELIDADA COM O NOME DE AVE; por Antônio Erlindo Braga

Arara é uma ave de bela plumagem colorida, com longo bico finalizado em forma de curva. Existem muitas espécies de arara. Mas, quando o nome da ave, que embeleza a fauna brasileira, era transformado em apelido à Professora Graziela Guimarães Pimentel lhe causava grande constrangimento, que por mais de meio século suportou o molestar de estudantes, jovens, e muitas vezes até de adultos, que maliciosamente chamaram-na pelo apelido que não suportava ouvi-lo.
Reagia com uma catilinária de palavrões que me recuso grafá-los, por ser de notório conhecimento de toda população de Belém, que a conheceu.
Em que momento lhe imputaram tamanho incômodo e pesado ônus, que suportou com indignação, não encontrei onde teve origem, se em Curuçá, sua terra natal, em sua juventude, se quando iniciou sua carreira de magistério, em 1931, se em Monte Alegre, para onde fora transferida como professora ou se em Santa Maria de Belém do Grão Pará, que por comodidade é chamada simplesmente de Belém, cidade das mangueiras.
Perambulou por muitos anos pelas ruas de Belém, carregando o fardo que muito a inquietava. Deus, contudo, foi muito magnânimo com a professora Graziela Guimarães Pimentel, que lhe proporcionou vida longa, embora, amargurada pela ausência de recursos financeiros, apesar de ter dedicado sua existência ao magistério, a mais importante das profissões, bem como, pelo insuportável e detestável apelido que maldosamente lhe impôs a sociedade, sem perceber quanto lhe causava indignação, ou talvez consciente de que era para feri-la em sua essência, em sua alma. Só Deus sabe quanta maldade lhe causaram os que a molestaram impiedosamente.
Graziela Guimarães Pimentel foi nomeada aos 19 anos de idade para exercer efetivamente o cargo de professor do Grupo Escolar da cidade de Curuçá, por ato de 25 de fevereiro de 1931. Foi transferida do Grupo Escolar da cidade de Curuçá para a Escola Isolada Feminina da cidade de Monte Alegre, por ato de 19 de setembro de 1932. Transferência em plena Revolução de 1930/1934. Não hesito em acreditar que tenha havido perseguição política.
Foi transferida do Grupo Escolar da cidade de Monte Alegre para o Grupo Escolar da Vila do Pinheiro (Distrito de Icoaraci), em Belém, por força de Ato de 22 de janeiro de 1935.
Por ato consubstanciado na Portaria nº 1028, de 14 de julho de 1961, foi mandada servir até ulterior deliberação, na sede da Secretaria de Estado de Educação do Pará, a partir de 1º de maio de 1961.
Por fim, pelo Decreto nº 457, de 10 de dezembro de 1979, foi classificada na categoria funcional de Professor de Ensino de 1º Grau, Código GEP-M-AD1-401, Ref.X.
Graziela Cordovil Guimarães era seu nome de solteira. Era natural de Curuçá – PA. Nasceu em 06 de março de 1912, filha de Cantídio Alves Guimarães e de Etelvina Cordovil Guimarães. Casou-se aos 26 anos de idade na cidade de Curuçá com Ferrúcio Godofredo Pimentel, com 40 anos de idade, nascido em novembro de 1898, na cidade de Maracanã – PA, filho de Cícero Roberto Pimentel e de Maria Rosa Conceição Guimarães. A noiva era professora normalista e o noivo funcionário público.
O casamento realizou-se em Curuçá em 30 de março de 1938, sendo celebrado pelo Juiz Dr. João Pinto de Sousa, tendo como testemunhas Michel Melo Silva, Cantídio Alves Guimarães (Pai da noiva), Francisco Monteiro e Raimundo de Cristo Alves (presumo que era tio do Desembargador Manoel de Cristo Alves Filho).
Passou a assinar-se Graziela Guimarães Pimentel. O casamento foi celebrado pelo regime de comunhão universal.
Da união do casal, nasceu Severa Romana Guimarães, que suportava o apelido diminutivo da mãe, sendo esta mãe de Canindé Guimarães.
Na qualidade de Auditor do Tribunal de Contas do Estado do Pará estava convocado para completar o Plenário do Egrégio Tribunal da Corte de Contas, quando me foi distribuído por sorteio o processo de aposentadoria da Professora Graziela Guimarães Pimentel.
Fui acolhido de grande surpresa ao manusear o processo e constatar que se tratava de uma Professora muito popular que frequentava as ruas de Belém, o Palácio Antônio Lemos e o Palácio Lauro Sodré, carregando o apelido de uma bela ave brasileira: ”Arara”.
Eu a conhecia desde a década de 1960, quando cheguei a Belém do Pará, em 09 de março de 1964.
Reputava que a Professora Graziela Guimarães Pimentel estivesse aposentada, há muitos anos, todavia, em 1995, ainda não estava aposentada, apesar de seus 83 anos de idade. Faleceu em 02 de janeiro de 2002, aos 90 anos de idade, depois de 7 anos de sua tardia aposentadoria.
O Acórdão do Tribunal de Contas do Estado do Pará, de minha autoria, que registrou sua aposentadoria, segue como fac-símile do documento original:

Ampliável à leitura


Postscriptvm do Laboratório Virtual:
O Diário Oficial do Estado do Pará — dito DOEPA — de 08OUT2018 mostra que os conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Pará deferiram o registro da concessão de aposentadoria à Severa Romana Guimarães Pimentel (Ararinha) como dependente de sua mãe: Graziela Guimarães Pimentel (Arara):

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Notemos que a professora Graziela (Arara) Guimarães Pimentel faleceu em janeiro de 2002 e sua filha, Severa Romana (Ararinha) Guimarães Pimentel, só passaria a receber a pensão da mãe a partir do final (outubro) de 2018.

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Ampliável

 

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A “arara” que a cidade maltratou — Parte III; por João Carlos Pereira

Professora Graziela, segundo Elza Lima
A história humanizada de uma mulher que apenas queria amar
João Carlos Pereira
jcparis1959@gmail.com

Quando comecei a escrever sobre a professora Graziela, meu interesse era apenas a Arara. No máximo, aquela mulher a quem todos chamavam de louca. Havia um ser humano e uma personagem. Eu buscava a personagem. Depois do primeiro texto, o sentido da busca mudou. Por trás da caricatura existia uma criatura tão interessante, que a Arara perdeu a relevância. Na verdade, aos poucos foi desaparecendo de meus olhos e me tomei de tanta ternura pela pobre mulher, que comecei a procurar seu coração.
Aos poucos, iniciei a construção de um vitral humanizado. Fafá de Belém, numa longa conversa, me forneceu os primeiros e alguns dos mais importantes esboços. Outras pessoas também me auxiliaram. Na hora em que o neto da Professora surgiu, mais contornos se formaram. Mas foi com Elza Lima que a rosácea se abriu, permitiu a passagem de luz policromada e eu me descobri totalmente à vontade diante de alguém com quem conversei algumas vezes, mas cujo sofrimento acompanhava distância, desde a primeira vez que a vi, em Nazaré, e minha mãe me disse: “aquela é a Arara, ela é professora e o povo mexe com ela”. Não era a Jenipapo, também chamada de Martha Rocha, para criar um contraponto entre sua feiúra e a beleza de nossa eterna Miss. Tratava-se da professora Graziela.
Elza Lima é uma das pessoas mais meigas e de coração mais doce que conheço. Ela possui o jeito apressado de quem está sempre com um trabalho para realizar e por onde passa deixa um rastro de patchouli. Eu imaginava que, como eu, se banhasse de colônia feita à base da raiz, mas não. De há muito, ou desde sempre, hábito da avó, com quem foi criada, perfumava o guarda-roupa com saquinhos recheados da essência. Uma senhora prepara os sachês e os entrega na porta. O perfume envolve as roupas e a acaricia, penetrando seus poros para grudar na pele e completar a alquimia cheirosa da Amazônia tão amada. Ano passado, enquanto esperávamos a chegada da romaria fluvial, na Estação das Docas, ela olhou para a baía imensa e disse: eu não posso viver sem isso. Eu viajo, mas sempre volto e volto o mais depressa que posso para Belém”.
Com filhas pequenas, percebeu que o tempo-referência-de-lembranças, que é a infância, se perdia muito depressa. Por isso começou a fotografá-las. Era uma época em que as imagens também pareciam raridade. Filme caro, equipamento caro, revelação cara. Tudo caro. Mas era o preço que se dispôs a pagar para deter a escalada dos anos, pelo menos nas retinas artificiais feitas de papel.
Em 1986, Elza já estava ligada ao grupo Fotoativa, de Miguel Chikaoka e participava da segunda versão do projeto “24 horas de Belém”, um desafio de sair pela cidade e captar imagens que, por si, apresentassem a face humanizada da capital. Era um momento de pura experimentação e muito representativo. Seu olhar, como um farol, já sabia para que direção achar o brilho. O mágico Chamon foi sua primeira personagem e dele se lembra com grande emoção. “À vezes, ele mesmo comprava ingressos de seus shows e dava para as crianças. E vez de esperar que o público fosse até ele, ele ia até o público”, lembra. Chamon era um homem pobre, que amava sua arte.
Depois dele surgiu diante de suas lentes Graziela Guimarães Pimentel. As imagens captadas para o 24 horas de Belém, que renderam uma exposição no Museu de Arte na UFPa., abriram espaço para outros dias, muitos dias, de novas fotografias. O que Elza viu era o que a cidade conseguia perceber: uma senhora alterada, constantemente desancando sobre a única filha. Essa mulher deixamos para trás, cada um a seu tempo, Elza e eu.
A Arara-personagem entregamos ao consumo vampiresco de uma cidade que, às vezes, assemelha-se aos seres alados, aparentados do capeta, que saciam a sede com o sangue alheio, não possuem imagem refletida no espelho e são, estranhamente, desprovidos da alma imortal. Satanás a confiscou e eles ganham a eternidade dos mortos-vivos, sem direito à luz e à vida. Belém, em certos momentos, alimenta-se do sangue das criaturas mais infelizes e ainda ri delas.
A Arara das ruas foi fotografada com esmero e arte por Elza Lima. Os negativos e as cópias estão preservados, para jamais serem mostrados. Felizmente escaparam do mau-destino que levou-lhe uma autobiografia completa, escrita a mão, num caderno. Num dos muitos cadernos que, no vai-vem da vida, sumiram. “Eu nunca vou mostrar estas fotos. Para quê? Para confirmar o que todos testemunharam?” A fotógrafa se refere aos constantes desencontros entre mãe e filha. Ao que ninguém atentou foi o olhar, o doce olhar de Francisco Canindé, o neto, para a avó. O menino que a tudo testemunhou e muito sofreu foi a luz dos olhos da professora, seu bálsamo, o torrão de açúcar que adoçava uma rotina de humilhações.
Nos dias em que esteve mais perto da professora, Elza fez uma longa entrevista, não escrita, mas memorizada e nunca esquecida. A primeira impressão foi a de que falava muito bem. A segunda é que sempre foi professora, a vida toda, nunca teve outra profissão e que veio para Belém, para a antiga Vila do Pinheiro, mais especificamente, hoje Icoaraci, motivada por perseguição política. Tivesse continuado em Curuçá, provavelmente jamais teria experimentado os desgostos provocados pela anatomia de seu nariz.
A memória da professora era uma coisa prodigiosa. Em 1986, data das fotos, ainda lembrava do texto que escreveu e declamou, saudando a presença de Magalhães Barata, na “Escola Normal”. Meio século havia se passado e ela recordava de todas as linhas. Apaixonada por poesia, embalou a infância de Canindé com versos. Habituado ao clima poético da casa, tão diferente daquilo que ouvia na rua, pedia: “vovó, diga para ela aquele poema”. Eram muitas as solicitações e a Professora desfiava um poema atrás da outro. Elza ficava encantada.
Vivendo um cenário feliz, cumpriu o destino das moças do seu tempo e casou. No meio da relação, um novo amor surgiu em sua vida. A Professora, dignamente, não quis ser amante e separou-se. A família, conservadora, gente muito conhecida em Curuçá, não aceitou a “desonra” e jogou-a na rua. A explicação, agora com mais detalhes, coincide 100% com o que me disse a Fafá de Belém. “Ela criou a filha sozinha, e tudo que fez foi para garantir que a família sobrevivesse”. Severa Romana era uma marginalizada e Canindé, um reizinho. A maneira como se olhavam revelava a grande paixão que havia entre os dois.
A foto que usei na capa da primeira crônica foi produzida por Elza Lima, na antiga sede da Câmara Municipal de Belém. Candidata a vereadora, ficou com a primeira suplência do Partido Democrata Cristã, que elegeu Guaraci Silveira. É uma espécie de foto oficial. É Graziela Guimarães Pimentel despida da fantasia com que foi vestida. É a mulher refinada, que da vida queria apenas um amor.

P.S. Na próxima sexta-feira, prometo publicar um texto de Antônio Erlindo Braga, auditor aposentado do TCE, responsável pela análise do processo de aposentadoria da professora Graziela. É um documento riquíssimo, que deve ser preservado para a história, tamanha é quantidade de informações que contém. Poderia tê-las aproveitado aqui, mas desejo dar a Antônio Erlindo Braga o que a Antônio Erlindo Braga pertence.

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Clipping — TV RECORD entrevista o professor Márcio Barata

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A “arara” que a cidade maltratou — Parte II; por João Carlos Pereira

Professora Graziela Guimarães Pimentel
Ainda memória e esquecimento de uma pobre mulher
João Carlos Pereira
jcparis1959@gmail.com

Uma vez, perguntaram a Cid Moreira se não ficava nervoso, na hora de apresentar o Jornal Nacional. Consciente do alcance do programa, disse que, se pensasse na quantidade de pessoas que estavam assistindo ao jornal, na hora em que acende a luz vermelha da câmera, não conseguiria abrir a boca. A luz vermelha indica que a atração está no ar e, a partir daquele momento, não há alternativa: ou fala, ou fala. Comigo é assim mesmo. Se eu soubesse aonde as crônicas vão parar, depois que aperto o botão que as projeta para o mundo, não escreveria uma linha. Vou no escuro. Na mão de Deus.
Talvez por haver me afeiçoado demais à figura da professora Graziela, nem percebi o quanto a crônica sobre ela se distanciou de mim. Muita gente reproduziu, replicou, republicou, postou onde quis e bem entendeu, porque elas são livres, com este selo de origem. As crônicas possuem a marca da minha liberdade de expressão. Meio mundo, por assim dizer, me mandou mensagem. Cada uma trazia uma pequena história, um sentimento, um ato de arrependimento pelo mal que fez à pobre Graziela Guimarães Pimentel, a quem cidade aperreou o quanto pode.
No começo, pensei que seria difícil, quase impossível, pintar-lhe o retrato a partir de informações soltas, mas desde de segunda-feira que não param de chegar elementos para me ajudar a completar o esboço e transformá-lo num retrato. No triste retrato de uma mulher que a bem dizer nasceu princesa. “Ela não lavava uma meia. Tinha tudo. Era mulher muito fina, prendada, de família”, definiu Fafá de Belém, que leu a crônica em São Paulo e me entregou uma série de peças importantes do quebra-cabeça, que também posso ver como cacos para um possível vitral.
Para compreender melhor a trajetória de vida de uma jovem estudante, nascida em Curuçá e que na década de 30 já era professora normalista, enfrentando as adversidades de uma cidade agitada pelas ondas da Revolução, Graziela Guimarães, depois Pimentel, tinha uma espécie de liderança entre suas colegas. Falava bem, escrevia bem, possuía vasta cultura e um nariz enorme, que lhe valeu o apelido que a crucificou em vida. Odiava ser chamada de Arara.
Se tivesse a compreensão de que a única forma de evitar que um apelido grude na pele da criatura é ignorá-lo, talvez o tivesse feito. Mas a pobre não conseguiu. Quanto mais reagia, mais se entranhava em seus poros. Que o diga outro pobre de Cristo, português de nascimento, que perambulava pela “Campos Sales”, no tempo da Agência Martins, perto do prédio de “A Província do Pará”. Se ninguém bulisse com ele, ficava quieto. Mas se o chamassem de espanhol, perdia as estribeiras, descia das tamancas, desancava sobre quem lhe maculasse a nacionalidade. “Eu sou português, espanhol é a puta que te pariu, seu filho da puta. Português, português, português”, repetia o coitado do espanhol.
Quando o inferno onde entrou teve começo, ninguém sabe dizer. Bastou a primeira resposta para que a cidade começasse a aperreá-la. O neto, Francisco Canindé, me disse que a avó sofria dos nervos, padecia de uma espécie de depressão, ela e a filha, Severa, que não as impedia de viver, nem se agravava. O problema era bem mais agudo. Estudiosa do espiritismo, teria se atrapalhado com as idéias da doutrina, mas é impossível provar. Haveria espíritos a atormentar-lhe o juízo? Obsessores, zombeteiros, encostos, sofredores, inimigos de outras vidas, gente ruim sem corpo físico? Deus é quem sabe…Que carma, Senhor ….
A Fafá me contou outra história. “Quem enlouqueceu ela foi o Ferrúcio Pimentel, pai do doutor Estudito Pimentel, o Dito, que era um homem maravilhoso”. Para desenhar bem a genealogia, explicou, pacientemente, quem era quem na vida da professora Graziela: “o Ferrúcio era irmão da tia Zita, mulher do tio Pedro, mãe do Armando Moura Palha e da Marizinha. Na realidade, a Arara era tia direta do Armando Moura Palha, o Armandinho.”
Mais feio que o nome Ferrúcio era seu comportamento. “”Ele era um sedutor. Não sei se chegaram a casar. Acho que ele deu uma pegada e, quando a família descobriu que ela não era mais virgem, coloco-a na rua. Foi isso que eu sempre soube, que a minha família sempre soube. Ela enlouqueceu na rua. O tio Pedro era um homem muito importante e o que eu, o que nós sabíamos lá em casa, é que ela enlouqueceu por causa do Ferrúcio, que pegava todo mundo e tinha filho com todo mundo. Quando morreu, tinha um filho de 50 anos e outro de dois. Era um coronelão de Santarém Novo. Se perguntar lá, os velhos todos sabem quem foi ele.”
Ferrúcio Godofredo Pimentel foi Prefeito de Santarém Novo nos anos de 1950/1960 e fiscal do INSS.
Isso estabelece uma linha de parentesco com a cantora? Não. Mas se houvesse, qual seria problema? Para Fafá, nenhum. “Ela não era minha parente direta, mas era do Armando, da Mariazinha e da Maria Augusta. Um dia desses, eu estava rezando, na Igreja, quando a Ararinha veio, com o cabelo pintado de vermelho, vermelho, vermelho, acho que pintaram de açaí, e me disse: ´oi, tu sabes que sou tua prima?´ Para mim está tudo certo. Acho que as pessoas têm o destino dela e o da Arara foi muito triste. Mas numa Belém tradicional, isso era tabu”.
Filha de uma família tradicional em Curuçá, a professora Graziela chegou a dirigir uma escola no município. O neto, Canindé, a respeito de quem muita gente me perguntou o paradeiro, superou todos os problemas da infância e conta, sem nenhuma mágoa, do orgulho que tinha da avó, a quem trata, sem neuras, de Arara. Autor de três livros sobre sua cidade, foi Secretário Municipal de Administração e cuida da mãe, Severa Romana Guimarães, diagnosticada com esquizofrenia, que mora numa casa ao lado da sua.
Eu gostaria de ter lido uma redação preparada por um rapaz, aluno do curso Clássico, do Paes de Carvalho, trabalho passado pelo professor Acy de Jesus Barros Pereira. Ele pedira aos alunos que descrevessem um tipo interessante da cidade. O aluno, chamado Ronaldo Valle, hoje desembargador do Tribunal de Justiça, preparou um perfil da professora Graziela. As informações, nem ele mais recorda. Mas o que ficou na memória foi a lista de palavrões que desfiava, quando se sentia ameaçada e agredida.
Leonam Cruz Jr., também desembargador, lembra dela, caminhando pela avenida Presidente Vargas, e de seu irmão, o cantor e compositor Bosco Guimarães, um sambista que chegou a vencer festivais no Rio de Janeiro. Georgenor Franco Filho, o terceiro desembargador a entrar na conversa, me contou que sempre via a família, mais o folclórico guarda-chuva, perambulando pelos corredores do Palácio “Lauro Sodré”. Sem ter o que fazer, a professora aposentada precocemente, gostava de ver autoridades.
Marília Guzzo ainda era estudante, recém-chegada de Manaus, quando se tomou de pavor pela senhora de nariz adunco, que andava pelas ruas se defendendo das ofensas. “Eu achava que ela sofria de autismo, um termo inexistente na época”. Ana Carolina Proença, moradora das imediações da Praça da República, era filha e neta dos proprietários da PRC-5 Rádio Clube do Pará, lembrou que um funcionário da emissora, chamado Otávio, negro retinto, tão preto, tão preto, ganhou o apelido de “Petróleo” e assim se apresentava. O danado não podia ver a pobre arara, que se danava a berrar o apelido. A vingança batia na alma. Assim que o identificava, começava a cantar: “preto não entra na América… preto não entra na América”. Dois segregados, um pela cor, outra pela deformidade, mangavam do que tinham de mais seu.
Ao tempo em que era titular do Cartório Chermont, Zeno Veloso a recebia em seu escritório, onde ia descansar o corpo e alma. “Hoje eu fui tão maltratada, dr. Zeno”, queixava-se. Lá beneficiava-se do refrigério do ar-condicionado e do carinho com que era recebida. Ela, Severa e Canindé. Tomavam um cafezinho, bebiam um copo d´água e partiam. A malvadeza da rua a aguardava atrás dos postes, escondida pelas portas entreabertas, ou covardemente por gente que berrava “arara…” e corria. Essas pessoas bem mereciam o “bando de filhos da puta” com que tentava ofendê-las.
Entre os tantos moleques que azucrinavam a passagem da professora estava um que, apesar de haver chegado à terceira idade e virado avô babão dos netos, que fazem dele gato-e-sapato, não perdeu o jeito menino de ser. Denis Cavalcante, hoje, se arrepende de haver berrado, tantas vezes, o apelido da senhora. Naquele tempo, maltratar as pessoas era motivo de riso. Hoje, dá cadeia.
Tantas outras pessoas me mandaram depoimentos, fizeram “mea culpa” e narraram histórias da Arara. Haroldo Baleixe, artista, professor e gente boa, republicou a crônica na página da Faculdade de Arquitetura e a primeira reação de Flávio Nassar. Ele disse que a senhora cuja foto ilustrava a capa da crônica não era a da professora Graziela e sim de outra criatura, muito parecida, apelidada de Marta Rocha, ou Genipapo. Se é, não sei. Mas fica o registro.
Baleixe também enviou a informação publicada pelo meu querido Luiz Paulo Freitas, o inesquecível Paulo Zing, sobre quem ainda vou escrever, em 15 de outubro de 1989, no “Liberal”, dando conta de que a Ararinha desfilava no arraial de Nazaré, anunciando sua candidatura à Assembleia Legislativa, pelo PDC. A madrinha e maior cabo-eleitoral era a mãe, que trazia a experiência de campanha para vereadora, na eleição anterior. Ambas encontraram o mesmo obstáculo: não tiveram votos. Fosse agora, quando o eleitor leva tudo a pagode e elege tipos como os que vemos no Legislativo e no Executivo, uns inofensivos, outros, perigosíssimos, teriam tido grande votação.
Voltei a tratar da figura da professora Graziela, não apenas porque me inspirou enorme ternura, como porque Belém precisa reviver a memória de sua gente esquecida. Além de cruel, como disse na crônica anterior, a cidade possui memória curta e ainda padece de um profundo desinteresse por aqueles que, de alguma forma, ajudaram a formar a alma de uma terra cheia de gente interessante, cuja imagem começa a desaparecer, como se tivesse sido impressa com tinta de caixa eletrônico de banco que, com o tempo, some completamente, deixando apenas, sobre o papel amarelado, lembrança do nada e de coisa nenhuma.
Graziela Guimarães Pimentel nasceu no dia 3 de março de 1912 e morreu no dia 02 de janeiro de 2002, de falência múltipla dos órgãos. Naquela altura, havia carregado nos braços dois bisnetos.
Pobre Belém…tão Belém, como suspiraria o comendador Sobral, um sábio, o único dicionarista da Amazônia, que precisa ser lembrado e reverenciado, na grandeza de seus 80 anos. Ainda há tempo.


PostScriptvm:
Sobre as fotos publicadas o professor João Carlos esclareceu que a primeira (acima) é a professor Graziela com seu neto, Francisco Canindé, ainda criança;
A segunda foto mostra a filha da professora, Severa (ou “Ararinha”); e
A terceira: novamente ela junto ao neto adulto (o “Periquito”).
As fotos foram gentilmente cedidas por Francisco ao João.

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A “arara” que a cidade maltratou; por João Carlos Pereira

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Professora Graziela Pimentel
A história de um apelido infeliz e de um “bullying” coletivo
João Carlos Pereira
jcparis1959@gmail.com

A primeira vez que a vi foi num final de tarde, em 1968, ou, talvez, 1969. Eu era um menino e voltava da Capela de Nossa Senhora de Lourdes, depois de aliviar minha alma, até então coberta de lodosos pecados, para que pudesse fazer a Primeira Comunhão, no dia seguinte. Nem sei que mentiras inventei ao padre-confessor, a fim que pudesse me considerar puro. Acho que mais menti do que confessei. Ou melhor, confessei mentiras. Passei e repassei os 10 mandamentos da lei de Deus e não achei motivo de tropeços em minha pouca caminhada. Mesmo assim, tinha de me confessar. O quê, não sei.
Eu retornava para casa, a pé, acompanhado de minha mãe. Vinha duro, rijo, nem olhava para o lado, apavorado com a possibilidade de pecar e, assim, inviabilizar minha Comunhão inicial, o que me levaria ao inferno. Desejava ter saído do confessionário dentro de uma ambulância e largado em casa, onde estaria protegido de todos os males, amém. Como não foi possível, o jeito era enfrentar os quarteirões que separavam a Capela de nossa casa. Fugir da vida nunca resolveu problema de ninguém. Na esquina de Nazaré com a Generalíssimo, ela apareceu. Do nada. De repente.
Naquele cruzamento encontravam-se alunos de várias escolas, rapazes e moças para os quais a vida era feita de risos, deboches e alguma crueldade. No instante em que a professora Graziela surgiu, arrastando seus sapatos, começou a algazarra: “arara!” “arara!”, “arara!”.
Os berros vinham de todos os lados. Os demônios se escondiam atrás das árvores ou dos postes e se danavam a chamá-la pelo infeliz apelido, nascido da semelhança de seu nariz com o bico de uma arara. A professora Graziela se transformou na arara do desafeto coletivo. Defendia-se da ofensa, usando as únicas formas a seu alcance: dava sombrinhadas, atirava as pedras que conseguia recolher da calçada ou desfiando uma interminável série de palavrões, dos mais cabeludos aos mais simples. Começava com bando de filhos da puta e terminava com xingamento mais brandos, tipo burros, analfabetos, malditos.
Exasperada, movia-se como se fosse a própria metralhadora giratória. Tinha de devolver as agressões a cada um dos agressores. A cena não era de longa duração, mas o suficiente para enlamear uma alminha pura, decente como a minha, na qual Jesus viria habitar em menos de 24 horas. Minha mãe dizia: “tá vendo? Isso não se faz. E tu vais fazer Primeira Comunhão”. Era a educação pelo medo, aliada ao catecismo da culpa. Deu no que deu. Eu não sabia o que era que não se fazia: se perturbar uma pobre mulher, ou o retorno que a afronta merecia. Desconfio que as duas coisas. Enquanto caminhávamos, a mamãe repetia: “não olha, não olha”. Os filhos da puta se multiplicavam como eco nos meus ouvidos purificados. A pobre mulher não tinha um minuto de sossego. Nem eu.
Por muitos anos não a vi, até que reencontrei-a na rua, acompanhada da filha e do neto. Estava bem mais velha. A filha, Severa, trazia os cabelos tingidos de um loiro desbotado, cobria o rosto para mostrar vergonha pelo destempero materno, enquanto corria atrás do menino que as acompanhava. Tratava-se Francisco Canindé, uma criança muito branca, de pernas compridas, cabelinho liso, cara sempre assustada, que entrava no ônibus, botava a cabeça pra fora, batia na carroceria externa e desfiava outra série de filhos da puta, fazendo nome no dedo. Que sina, meu Deus!
Em muitas e muitas ocasiões encontrei a professora Graziela e sua família perambulando pelas ruas e pela Praça da República. Ela estava cada vez mais corcunda, mas nunca a vi desarrumada. A filha, a quem chamavam de ararinha, pintava o rosto de forma exagerada e o menino,apelidado de periquito, já parecia um rapaz. Se a provocassem, desancava sobre a filha. “Severa, puta, vem cá…puta,puta,puta”. Havendo plateia, acusava a pobre de prostituta e contava que se deitava com os homens por dinheiro. Era um disco arranhado: “puta,puta,puta,puta….” A pobre se encolhia de vergonha.
Sempre tive muita curiosidade de saber mais sobre a família que padeceu nas mãos desta terra um tanto desalmada. Penso que nunca foi entrevistada ou que ninguém jamais cuidou de desenhar-lhe o retrato, ainda que fosse um breve esboço, como este que agora preparo, com a ajuda de pessoas que conviveram com ela.
Sebastião Godinho me ofereceu a foto que ilustra a capa da crônica. Bernardino Santos me contou que esteve muito próximo a ela e sempre a tratou com respeito. Chamava-na de professora. “Bom dia, professora, boa tarde, professora”. Por conta dessa deferência, soube que a professora Graziela Pimentel o considerava o homem mais bonito, elegante e educado de Belém. Não podia ser diferente. Ela frequentava a casa de uma tia do jornalista e foi lá que se conheceram. Quando começou a trabalhar na Prefeitura, Bernardino a via perambulando pelos espaços internos e gabinetes do Palácio Azul, o “Antônio Lemos”. Aposentada precocemente, tinha todo o tempo do mundo para tentar visitar as autoridades. Ou mesmo nada a fazer.
No Palácio, colecionava antipatias e brigas. Havia um capitão (ou seria coronel) dos Bombeiros, que implicava com sua presença. A implicância era recíproca. Se alguém se escondia atrás de uma porta e gritava o apelido, coitado de quem passasse naquela hora. Escutava os impropérios, sem nada ter feito.
Uma vez, arrumou desavença com uma senhora que trabalhava lá. Toda vez que a via, choviam palavrões. Não sei de onde tirou a ideia de que a mulher era amante de D. Ângelo Rivato, o bispo do Marajó. Mal a criatura riscava na porta do Palácio, fazia a mesma denúncia. Chateada, a servidora fugia da professora, saindo pela porta do fundo. Quando os taxistas descobriram, avisaram-lhe que a fulana, a suposta amante do Bispo, evadia-se por outro caminho. Esperta, deixava a filha numa entrada e ia para a outra. Os taxistas, mancomunados com os guardas, queriam mesmo era ver o circo pegar fogo. A servidora perguntava se a “arara” estava por ali e todos diziam quem não, apenas a filha havia ido dar “expediente”. Era mentira. A professora a aguardava de sombrinha em punho e, assim que colocava a cara na rua, era lembrada, publicamente, de seu “caso amoroso” com D. Ângelo. Esse inferno durou muito tempo.
De Edson Salame escutei outra parte da história. Tratava-se de uma senhora distinta, casada com um médico, o Dr. Pimentel. Era impossível continuar vivendo com uma criatura que perdeu a razão e precisou ser aposentada por invalidez. Cada um foi para o seu lado. Ele constituiu outra família e ela ficou nas ruas. Não na rua da amargura, porque recebia aposentadoria integral e, pelo visto, não era pouca coisa. Andava sempre muito arrumada, penteada, com colares e bolsas combinando. Morava num hotelzinho e comia nos restaurantes populares da área do comércio. O resto do dia passava entre o Palácio do Governo, o Tribunal de Justiça e a Prefeitura. Fazendo o quê? Coisa nenhuma.
Cansada de tanto ser chamada de “arara”, pediu uma audiência ao governador Jarbas Passarinho. O objetivo era conseguir dele um decreto, que proibisse as pessoas de berrar seu apelido. O distintíssimo e bem-humorado JP a recebeu carinhosamente em seu gabinete e ouvi a súplica. Sem conseguir convencê-la de que o decreto seria inútil, procurou consolá-la. “Minha professora Graziela, a senhora sabe que o povo todo me chama de Passarinho, não sabe? Eu não ligo a mínima. Faça como eu, não ligue. Afinal, a senhora é arara e arara é mais que passarinho. Não se aborreça com isso”. Não sabe a reação da pobre criatura a quem a ninguém respeitava a falta de saúde mental.
De Linomar Bahia só ouvi coisas bonitas a seu respeito. “Era uma mulher elegante, fina, culta, falava e escrevia muito bem”, descreveu o jornalista. “A letra da professora Graziela era tão bonita, que parecia a de um calígrafo. Sua cultura geral era ampla, tanto que ensinava português, matemática, história, geografia e ciências”. O que a tirou do eixo, ignora-se. Igualmente desconhece-se o que alterou a vida da filha, que foi casada com um oficial da Marinha. “Ela era uma mulher corretíssima, educada”, definiu Bahia. Como ficou daquele jeito, só Deus poderá dizer. A doença consumiu sua paz e abafou seus talentos, inclusive o de pianista.
Cada vez mais curvada, com o nariz parecendo bem maior, andava com o contra-cheque na bolsa e, se alguém viesse puxar conversa, exibia o documento. Eu mesmo o tive em mãos. Nunca a encontrei desleixada ou suja. Pelo contrário. Sempre arrumada, saia, blusa para dentro, roupa de boa qualidade. Quando começou a receber a pensão do ex-marido, a vida melhorou. Abandonou a comidinha caseira e barata dos restaurantes do comércio e passou a fazer as refeições no antigo hotel Hilton, onde possuía mesa cativa e pagava as contas de forma correta. “Ela, a filha e o neto chegavam e iam para uma mesa bem no fundo. Ninguém mexia com eles. Lá conseguiam ter sossego e respeito”, lembra o Bernardino, que, nessa época, frequentava o Clube do Açaí, uma agremiação de jornalistas e pessoas de projeção social, comandada pela professora Elanir Gomes da Silva, a Lana.
A professora Graziela já morreu. Quando? Não imagino. A filha, Severa, ainda vejo de quando em quando, na missa da Basílica. Ela piscas os olhos, beijas as pontas dos dedos e faz um adeusinho sapeca, me olhando por cima do ombro. Acho que faz isso com todo mundo que lhe dá trela. O cabelo está mais desbotado do que no passado. Nunca assiste à missa por inteiro. Fala sozinha, conversa com Nossa Senhora, se ajoelha e parte. Quanto ao neto, uma vez me escreveu um e-mail lindo, agradecendo a forma generosa como tratei sua avó. Ocupava, à época, o cargo de secretário de Cultura de um município do interior e se tornara escritor, com obra premiada e tudo. Gostaria de ter contato novamente com ele.
Belém foi muito má para com essa pobre senhora que, a rigor, nunca fez mal a ninguém. Descontando as implicâncias, que surgiam apenas contra que a agredia, e o fato de haver revelado (ou inventado) que a mulher era amante de D. Ângelo, nada se tem a dizer contra ela. Na verdade, se há alguma coisa a ser dita é uma palavra de perdão, pelo tanto que se fez contra uma criaturinha, cujo único defeito era o tamanho do nariz. Hoje, uma plástica resolveria o problema. Mas cirurgia alguma removeria de sua alma as cicatrizes que a “brincadeira” idiota colocou-lhe na alma.
Desculpe, professora Graziela. Esta cidade, quando quer, sabe ser cruel.


Leia a continuação: A “arara” que a cidade maltratou — Parte II; por João Carlos Pereira.

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Ensaio — Perspectiva confinada

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Clipping — RBA TV/Barra Pesada entrevista o professor Márcio Barata

Saiba mais sobre o projeto clicando na marca do Laboratório de Tecnologia das Construções ou neste link.

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Clipping — SBT TV entrevista o professor Márcio Barata

Marca do Laboratório de Tecnologia das Construções do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará criada pelo aluno do PPGAU Givani Zamian.

Saiba mais sobre o projeto clicando na marca do Laboratório de Tecnologia das Construções ou neste link.

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Círio 2020 — marca e selo comemorativos

Calouros vestem, do jeito virtual, as futuras camisetas do Círio 2020

No dia 30 de maio passado o Laboratório Virtual completou 10 anos de atividades — nasceu em 2010 com o projeto piloto Blog da FAU e em 2012 obteve o primeiro prêmio como Prática Inovadora em Gestão Universitária da Universidade Federal do Pará.
Nada a comemorar diante da calamitosa situação do país; seja pela pandemia, seja pelos incertos rumos da substantiva Educação Pública Brasileira.
O 17 de março de 2020 foi o primeiro e último encontro com as turmas completas na disciplina Representação e Expressão I da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo; após isto, apenas comunicações remotas por aplicativos restritas às chefias de turma: Emylle Keiko (manhã) e Hugo Farias (tarde) que se mantêm empenhados, desde então, em zelar pelo equilíbrio daqueles que entraram na FAU-UFPA e em momento sequente foram impedidos, por causas exógenas, de frequentá-la como sonhado.
De praxe, no encontro do mencionado dia 17, aplicou-se um teste de sondagem (hoje como de diagnóstico) — mecanismo preliminar à condução didática da disciplina —; entretanto, tal exercício não foi pensado como aberto (livre), limitou-se à observação de duas formas: uma geométrica e outra orgânica em experimentos gráficos compositivos; ninguém imaginaria, àquela altura dos acontecimentos, o distante Círio de Nazaré (este como manifestação cultural repleta de significâncias: oceânico em possibilidades).
Foi desse conjunto gráfico — vindo da única atividade oficial (ou institucional) cabível perante as circunstâncias que causaram o confinamento compulsório em Belém do Pará — que se pinçou a marca aqui publicada que poderá ser serigrafada em camisetas* e figurará como selo do Círio 2020 no topo deste site durante a Quadra Nazarena.
O autor, calouro da turma da manhã, é Vitor Pereira Lima, oriundo da Escola Técnica Estadual Magalhães Barata, com 19 anos.


Memorial gráfico: o desenho feito com caneta bic por Vitor transmutado em marca e selo comemorativos do 10° CÍRIO FAU-ITEC-UFPALaboratório Virtual

*Para confecção de camisetas basta acessar este pdf com a arte concedida ao domínio público — o formato A4 é o padrão da “queima” da tela serigráfica.

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Eleição para Reitor da UFPA — VOTE!

Acesse a urna virtual da UFPA pela imagem/link

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Hoje: missa de um mês do falecimento da Tia Lourdes

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Às 5 horas da manhã do dia 29 de maio passado faleceu, vitimada pela COVID-19, a senhora Maria de Lourdes Queiroz Holanda, carinhosamente apelidada Tia Lourdes, em consequência de um bloco de carnaval que criou em Salinópolis, o Bloco da Tia Lourdes, famoso nos anos 1980.
A notícia de sua morte nos foi dada por seu sobrinho, Renato Holanda, filho do proprietário do Posto Atlantic do Ver-o-peso, que Tia Lourdes tocou, já como única dona, até sua demolição na gestão de Ajax de Oliveira — afunilamos a datação entre 1976/77.
Tia Lourdes colaborou na matéria O Ver-o-peso de Dona Lourdes Holanda dando entrevista a este Laboratório Virtual.

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Assembléia Paraense — Praça da República números 21, 15, 16, 17 e 18

Sequência temporal ampliável à melhor visualização

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Comparativo de imagens aéreas de 1963 ou 65 com atuais – edificações remanescente (ampliável)

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Delimitação dos lotes atualmente à comparação com as construções antigas

O antigo Café Chic (Renata Tecidos) foi um divisor d’águas entre os prédios ocupados pelo clube Assembléia Paraense ao longo de sua história na Praça da República: à esquerda do Chic, sob a numeração 21 a AP surgiu em 1916 (edifício Gualo) — como nova razão social da Associação do Commercio a Retalho do Pará, mas no mesmo ano mudou-se para o alugado número 15 (prédio da Caixa Econômica Federal) até adquirir sua sede própria em 1921, edificações geminadas de números 16 e 17, que passou por duas reformas significativas: a de 1924-25 assinada por José Sidrim e a de 1928-29 proposta em concorrência por João Augusto MacDowell — quando MacDowell praticamente¹ demoliu o imóvel a AP ocupou, provisoriamente, o número 18, que no início dos anos 1960, somar-se-ia ao 16 e 17 ao soerguimento do edifício Assembléia Paraense.
Ainda não alcançamos a data de aquisição do n°18 pela Assembléia Paraense, mas a assimetria (das fachadas) comum às reformas tanto de Sidrim quanto de MacDowell demonstra que o interesse pelo imóvel era antigo; possivelmente essa nova propriedade tenha chegado tarde demais à ampliação imaginada por ambos.

A Avenida da República, ou simplesmente Praça da República, era a delimitação da via paralela à praça que iniciava na perpendicular Avenida Liberdade (hoje Oswaldo Cruz) em direção ao jornal A Província do Pará; sua numeração era crescente nesse sentido e direta (par e impar) — tal avenida dava continuidade à 15 de Agosto que obedecia outra lógica: margem par e margem impar (atualmente tudo é nominado Presidente Vargas).
Trabalhamos com a numeração primitiva para evitar confusão na identificação dos lotes.

¹O praticamente vem do quase, jamais por uma demolição plena à casa em que Oswaldo Cruz se hospedou junto com sua equipe médica de profilaxia à febre amarela entre 1910 e 11; ao contrário, houve aproveitamento de paredes estruturais e o mais possível em ambas; Sidrim pensou em uma assimetria à nova fachada criada entre 1924 e 25, o que seria de certo modo imitado (e limitado) na construção de MacDowell que acresceu o pavimento superior e ampliou o porão com escavações significativas entre 1928 e 29 — se novo fosse o prédio 16-17, isto não teria sentido porque ele surgiria do chão, sobre suas próprias fundações; especulemos que a intenção de Sidrim, visivelmente corroborada pela ampliação de MacDowell, tivesse um objetivo claro: duplicar a 3ª sede ao n°18, dando-lhe uma simetria planejada no passado.


Saiba mais sobre o assunto em: A primeira sede própria do clube Assembléia ParaenseAssociação do Commercio a Retalho do Pará — origem da Assembléa Paraense.


Colaboradores: Fernando Marques (Laboratório Virtual) e Igor Pacheco (Fragmentos de Belém).

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Não é pelo compasso da bailarina de Degas que cidades e abrigos dançam

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Refazendo a viagem de Spix e Martius pela Amazônia

Fonte: Canal Instituto Martius-Staden e Jornal da USP.

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Associação do Commercio a Retalho do Pará — origem da Assembléa Paraense

Acima se vê o desenho da fachada do prédio n°21 situado na Praça da República (ou Avenida da República);  tal imóvel tinha como locatária a Associação do Commercio a Retalho do Pará, fundada em 05 de janeiro de 1911; após assembléia geral dos sócios realizada em 05 de junho de 1916, nesta mesma edificação, a Associação se transforma no club Assembléa Paraense, que nela permanece até sua transferência para o também alugado n°15  do mesmo logradouro (hoje edifício da Caixa Econômica), inaugurando sua nova sede em 08 de outubro de 1916 às festividades do Círio de Nossa Senhora de Nazaré — ou seja: a recém nascida AP teve este endereço por quatro meses e três dias no máximo.
Ao final dos anos 1950 (datação por confirmar) o prédio foi demolido e no lote erigiu-se o edifício Gualo.

Título2

Recorte de documentário da RTP de 1957 — uma das referências à elaboração do desenho arquitetônico

Esta publicação dá sequência à matéria A primeira sede própria do clube Assembléia Paraense na qual cruzamos informações contidas no Relatório da gestão de 1928-29 com notas públicas de jornais de época; a análise permite afirmar que esta diretoria mudou o entendimento da anterior estabelecendo nova data à fundação do clube:

Relatório 1929

O que fez a gestão de 1928-29? Passou a considerar a fundação da Assembléa Paraense quase seis meses antes, data da assembleia geral que instituiu a Comissão incumbida da elaboração de novos estatutos à Associação do Commercio a Retalho do Pará; bem como propôs novo nome para ela — segundo o relatório de 1929 disputaram dois: o de Club Universal e o de Assembléa Paraense, ambas nomenclaturas de clubes antigos e extintos.
Todavia a cidade de Belém do Pará, por intermédio da imprensa local, tomou conhecimento do surgimento da Assembléa Paraense no dia 05 de junho de 1916, momento em que as proposições da aludida Comissão foram à votação na assembleia geral daquele dia — corroborando com a assertiva apontada pelos reformadores de 1925 e 1927 —; do mesmo modo ficou público, também por jornais, que a AP inaugurou sua sede, de direito a primeira já que o contrato de aluguel por 5 anos do imóvel n°15 no Largo da República estaria em seu novo nome, no dia do Círio de Nazaré (08OUT) de 1916 e não no dia 31 de dezembro de 1916 com ceia e réveillon.


Referências:
Relatório 1929: origens.
Fotografias usadas à reconstituição da fachada e placa da ACRP.
Benjamin Lamarão 1° secretário na transição ACRP/AP


Colaboradores: Fernando Marques (Laboratório Virtual) e Igor Pacheco (Fragmentos de Belém).

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Divulgação/convite à FAU

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