Matéria televisiva publicada no Jornal Hoje de sábado, dia 18ABR2026.
“… Mas a inspiração veio do Modernismo; no Brasil, um dos artistas mais importantes da Arquitetura Modernista, foi o paulista Burle Marx, o paisagista também usava azulejos para produzir mosaicos.
Na época, em Belém, não existia fábrica de azulejos, tudo vinha de fora do Estado, de caminhão; mas, na estrada, muito material quebrava; para não ficar no prejuízo, as lojas vendiam os cacos coloridos, a kilo, mais baratos; a criatividade dos compradores deu origem a essa arquitetura tipicamente paraense e o estilo conquistou, principalmente, quem não tinha dinheiro pra contratar engenheiros, e arquitetos.” (Jalília Messias)
O texto acima é a transcrição da fala da telejornalista Jalília Messias com repercussão nacional pelo canal aberto da Tv. Globo.
Em primeiro lugar não entendemos o porquê da referência direta a Roberto Burle Marx: o mosaico é uma técnica milenar (3.000 antes de Christo); portanto, há muito, de domínio público a todos os povos.
Seria pela mudança das ondas em Copacabana feita por ele (Burle Marx) nos anos 1970, tornando o calçadão da praia carioca o “maior exemplo de obra de arte aplicada existente no mundo” (mais de 4km de abstração portuguesa girada em 90°)? sabe Deus.
Por que Jamília não citou Athos Bulcão, ou outro, dentre tantos artistas contumazes fazedores de painéis para prédios?
Outro fato esquisito é atrelar o uso de cacos de azulejo à Belém-Brasília, como se Belém não se comunicasse por navio e avião com as outras regiões do país ou continentes – e azulejo (europeu) tem por aqui faz tempo, né?
Estilo também parece um termo inadequado diante do que disse a professora Cybelle Miranda: “Daí terem dado esse apelido né, de Raio-que-o-parta; uma coisa cafona, kitsch, né: algo que não merecia ser considerado inclusive como arquitetura”.
Espécie de estilo é como o professor Aldrin Moura de Figueiredo enquadra tal prática: … uma leitura popular do moderno. O “Raio que o parta” é uma expressão de modernidade dos anos 1940 e 1950, vinda da engenharia e da arquitetura, lida pelos mestres de obra paraenses de classes baixa e média e transformada numa espécie de estilo incorporado pela população.
Seria possível sintetizar os doutos no assunto dizendo que é A ARQUITETURA BREGA DO PARÁ?
E como arquitetura de enfeitar e impermeabilizar fachadas, tem sua história baseada nos experimentos modernistas em mosaico de cacos de azulejos praticados pelo artista plástico e engenheiro civil paraense Ruy Augusto de Bastos Meira.
Ruy Meira, de família com posses e poder, tinha sua antena voltada às vanguardas do mundo: bebia em Paul Klee e Kandinsky (professores da Bauhaus que trabalhavam com gestalt) para praticar (ou manufaturar) o seu ABSTRACIONISMO.
Ruy Meira criava suas composições combinando figuras orgânicas com geométricas, uma das quais o triângulo (regular ou irregular), que poderia tanto se parecer com um milenar origâmi, quanto com uma cadeira Zig-Zag criada por Gerrit Rietveld em 1934; ou: com banal estilização de raio ilustrada no peito do Capitão Marvel no início dos 1940 – cabe ao intelecto o nível dessas associações.
Em outras palavras: o abstracionismo (no qual você vê o que você reconhece) de Ruy figurativou o hoje nacionalmente famoso Raio-que-o-parta (A Arquitetura Brega do Pará) à revelia de seu autor.
Ruy Meira não é o Raio-que-o-parta; contudo, o Raio-que-o-parta é Ruy Meira: afinal: enxergaram em suas especulações triangulares os raios que careciam ver e ter no frontispício dos lares).

Ruy Meira em seu ateliê e fotos de sua casa modernista no Mosqueiro (construção de 1952) cravejada de azulejos em cacos: nenhum raio.

O rigor técnico de Ruy em mosaico de cacos de 1953 montado na casa planejada e construída pela também engenheira civil Angelita Silva, proprietária do imóvel herdado por Sílvia e Benedito Nunes: nenhum raio.
Fotografia de Patrick Pardini cedida pelo professor Nelson Sanjad: Nelson escutou da própria Angelita que o trabalho fora uma homenagem dela ao arquiteto catalão Antoni Gaudí com a aquiescência e a corporificação de Ruy Meira.

Fotos da casa Silvio Meira (irmão de Ruy) e do mosaico de cacos de azulejos planejado e executado por Ruy em 1954: nenhum raio – material do acervo acadêmico da professora Celma Chaves.

Dois mosaicos de cacos assemelhados aos experimentos compositivos de Ruy Meira: nenhum raio, triângulos; o primeiro da Casa Gabbay em foto de Celma Chaves; o segundo, retirado do vídeo, é da sacada do apartamento de Manoel Pinto da Silva, no prédio de mesmo nome – investiga-se se saíram da prancheta de Ruy Meira; ou: da de algum pupilo seu.
Referências:
Antagonismo e afinidades – arte e arquitetura em Belém entre as décadas de 40 e 60; por Celma Chaves.
A ARTE DO FAZER: o artista Ruy Meira e as artes plásticas no Pará dos anos 1940 a 1990; por Maria Angélica Meira.
Mosaicos de Belém – História e Conservação; por Thais Zumero Toscano.
À próxima matéria:
A sede social do Clube do Remo (Palácio Azul), em verbete da popular Wikipédia, é carimbada como “… no estilo ‘Raio-que-o-parta’…”; o argumento: “cacos de azulejos”:

Os dois painéis do Palácio Azul, projeto arquitetônico de Camilo Porto de Oliveira, são de autoria do sobrinho de Ruy Meira: Alcyr Boris de Souza Meira, engenheiro civil 12 anos mais moço que o tio, que também usou planos de parede para se expressar plasticamente; todavia, Alcyr, jamais fez mosaicos de cacos de azulejos, planejou e executou tais painéis em pastilhas VIPAX – Mosáicos e Ladrilhos de Vidro Lompi S. A. treinando equipe em Belém para montá-los em “panos” para assentamento remoto; Alcyr também não se arriscou no abstracionismo, foi figurativo em obras públicas e privadas a ele encomendadas entre a segunda década dos anos 1950 e início dos anos 1960, como no caso do Remo: representando os esportes praticados pela agremiação em competições.

Fotografias de detalhes dos dois painéis da sede social do Clube do Remo assinados por Alcyr Meira: pastilhas vidrosas VIPAX aparentemente pintadas com esmalte em alguma “revitalização” (ou apagamento?) – certamente o painel recuperado ao original (vidro) revelará distintos tons de azul, incluindo o adversário celeste.
O Laboratório Virtual está angariando material necessário à publicação dessa vertente da obra de Alcyr Meira que não tem raios e nem é feita com cacos de azulejos; portanto: não é da hoje festejada Arquitetura Brega Parauara apelidada pejorativamente de Raio-que-o-parta.






























































A reporter não fez nada que não nos surpreenda em jornalismo raso de fast news… daí não ter ser preocupado em buscar mais referências.
Pouco importa pra esse tipo de reportagem que parece ser feita apenas pra disputar a seleção de VTs de outras praças a serem veiculados no jornal principal. Categoria: “matéria divertida (é pra entreter e pseudo-informar)”