Fobia urbis: paisagem cultural em risco no Umarizal (Belém-PA); por Cybele Salvador Miranda

w436Um percurso a flâneur em um feriado do mês de agosto no qual o nativo sai à rua para explorar seu próprio lócus, agora buscando um olhar de estranhamento, já que, como quer W. Benjamin, são poucos os retratos de cidade feitos por autóctones, pois sempre busca-se o exótico. Na manhã de pouco movimento, percebe-se a paisagem intensamente modificada pelas ‘torres’, entre os quais, cá e lá, subsistem exemplares de moradia pretérita, um pouco abandonados, marcados pela pátina do tempo e do descaso.
A paisagem pontuada por alguma arborização revela monumentos como a Antiga Escola de Aprendizes Artífices, que hoje compõe uma esquina de movimento cultural como Escola de Teatro e Dança da UFPA. Por sinal um canto marcado também por um exemplar muito peculiar da arquitetura do classicismo imperial, vitalizada pelo bar e pela loja de placas. Eis que adiante surge um exemplar com linhas modernas e volumetria dinâmica, que traz algum alento a monotonia dos arranha-céus e proporciona contato na altura do pedestre.
O contraste temporal deixa bem clara a centralidade do bairro, tomado por empreendimentos imobiliários de alto padrão, cuja saga especulativa não faz caso da história da cidade, apagando a cada dia traços da diversidade cultural da capital do Pará.
Pequenas resistências, encurraladas entre empreendimentos de escala desproporcional, sobrevivem a custo, pela afinidade de seus moradores com um modo de viver que parece não ter vez na ânsia de ‘modernização’ paraense. Conjuntos de casas de porão, geminadas, ou em banda como dizem os portugueses, apresentam anúncio de venda, o que se refletirá em novos usos, ou no seu desaparecimento, já que ninguém mais mora em casa na cidade dos condomínios.
Conjuntos de arquitetura harmônica com seus porões altos permanecem com as janelas fechadas, até que um dia, como num passe de mágica, descobre-se que dentro não guardam nada mais que um grande vazio disponível ao estacionamento de veículos, os totens da contemporaneidade. Avançando até a antiga Praça Brasil, que até o nome tão tradicional se tentou apagar, único logradouro público destinado ao lazer ativo e contemplativo dos habitantes do bairro, sob a moldura dos espigões, notam-se roupas estendidas daqueles que fazem dela seu lar. No entorno, alguns chalés sobrevivem, com sua diversidade de arquitetura rural europeia, que nos leva a sonhar com outros tempos, uma suave nostalgia que persiste quando se avista as linhas revivalistas da Igreja de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.
O simples transitar pelo espaço público hoje é tido como um risco iminente, diante da cultura da violência, gerando uma fobia urbis, que se acentua cada vez que nos omitimos do contato com o outro e com a cidade como habitat, como morada, não mais nos identificando com ela, tornada não-lugar.

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Conjunto ampliável por clique.

Originalmente publicado em LAMEMO.

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