Palavras de paraninfo; por Fábio Mello

unnamed-1unnamedFotos do hangarzinho ontem

É com imensa satisfação que dirigirei algumas palavra à turma. A alegria de vocês podem ter certeza que está refletida em mim. Afinal o êxito de vocês como arquitetos atuantes do mercado ou os que optarem pela vida acadêmica, está diretamente ligado ao sucesso de nossa universidade e do nosso tão querido curso de arquitetura. Curso esse que tive a felicidade de entrar como aluno em 1988 e como docente de projeto e paisagismo em 1996, juntamente com o professor Homobono, portanto estamos completando esse ano, duas décadas como professores da FAU-UFPA.
Gostaria de poder dizer que vocês estão com o futuro garantido, com a vida feita. Mas infelizmente isso não é uma realidade em nosso país. Vocês terão pela frente desafios ainda imensos. Todos os “esculachos” do professor Bassalo, todo o detalhismo da professora Roberta, todas as exigências do professor José Julio, serviram apenas de amostra dos desafios que virão pela frente.
Além de todas as dificuldades que nosso país, nosso estado e nossa cidade atravessam, nossa profissão ainda se depara com outro grande problema: a de ser melhor reconhecida e valorizada pela nossa sociedade. Valorização essa que deveria ser refletida em uma melhor remuneração aos profissionais de arquitetura. Nosso curso acabou de completar 50 anos, e apesar de todos os avanços nesse sentido, mesmo pessoas mais esclarecidas ainda fazem o infame questionamento: “afinal, pra quê serve o arquiteto?”.
Uma das aulas que mais gosto de lecionar é a aula introdutória da disciplina de Arquitetura de Interiores, quando vemos em sala de aula que, mesmo sem perceber, a arquitetura e a arquitetura de interiores fazem parte de nossa vida do início ao fim:
Afinal, nós nascemos em um hospital; nos desenvolvemos e crescemos com nossa família em uma residência; estudamos e nos tornamos cidadãos em escolas e universidades; trabalhamos em escritórios e fábricas; ao nos aposentarmos retornamos às nossas residências e inevitavelmente devemos perecer retornando a hospitais – é o ciclo da vida que acontece dentro de edifícios que deveriam, pelo menos em teoria, ser projetados e idealizados por arquitetos. Isso sem citar os nossos momentos ao ar livre, em calçadas, parques, praças, ruas, pontes, entre outros.
Também, na aula introdutória de projeto de habitação, lembro que a arquitetura foi um dos primeiros campos de conhecimento do homem, até mesmo antes da engenharia, pois surge a partir do momento que ele modifica o ambiente natural para adequá-lo às suas necessidades. O homo-sapiens, ao habitar as primeiras cavernas, poderia ainda não dominar técnicas construtivas, poderia ainda não ter aspirações estéticas, mas procurou adaptá-la para melhor suprir suas necessidades e conforto – é o princípio básico de qualquer conceito de arquitetura.
Nos anos 1960, o arquiteto norte americano Philip Johnson formulou a famosa frase “Não há nada mais importante que a Arquitetura”. Para ele, “Monumentos durariam muito mais que palavras, e as civilizações são lembradas pelos seus edifícios”.
Na mesma linha de pensamento segue o arquiteto de origem polonesa Daniel Libeskind quando afirma que a arquitetura é a atividade mais importante que existe, pois ela é responsável pelo “desenho do mundo em volta de nós e que o ambiente construído influencia diretamente a maneira que sentimos tanto mentalmente quanto espiritualmente”.
Esse aspecto, da arquitetura influenciar os nossos sentimentos diários, faz com que muitos pesquisadores afirmem que tanto a Arquitetura quanto o Urbanismo são capazes de curar todas as patologias e mazelas sociais. Parte do urbanismo moderno surge como solução para as cidades europeias assoladas por pestes no século XIX. Áreas de lazer públicas e de qualidade, o verde em abundância, a cidade planejada, poderiam estimular o bem estar, as práticas esportivas, e afastar nossos jovens da marginalidade, das drogas, do ócio. A nossa saúde física e mental seria influenciada diretamente pelo ambiente construído.
Seguindo esse pensamento então: médicos, engenheiros e advogados, que me desculpem. Mas ninguém deveria ser mais importante que o arquiteto – e não há nada mais importante que a Arquitetura.
Exagero ou não, e brincadeiras à parte, a realidade é que vivemos em uma cidade em que o projeto de arquitetura, o planejamento urbano se restringem na maioria das vezes às classes mais abastadas e não àqueles que mais necessitariam de nós. Lembro que a região metropolitana de Belém, é a que tem maior proporção dos chamados aglomerados subnormais dentre as grandes cidades brasileiras: mais de 70% de sua área é composta por bairros sem infraestrutura ou desenho urbano, e milhares de casas sem projeto. O problema é tão grande que parece termos uma cidade inteira ainda a ser reconstruída.
Então, se não há nada mais importante que a Arquitetura, se nossa cidade realmente precisa de nós, torço para que o futuro, o nosso futuro, que o futuro de vocês seja diferente e que vocês sejam parte dessa mudança de pensamento e de constante e crescente valorização ao trabalho do Arquiteto e Urbanista.
Por fim, lembro que a arquitetura consegue abrir um leque de opções profissionais como poucos outros cursos dessa universidade: projeto, construções civis e reformas, planejamento, paisagismo, decoração, comercialização de mobiliário e materiais de construção e acabamento, desenho de mobiliário, desenho industrial, desenho urbano, consultoria, iluminação, cenografia, acústica, artes plásticas, computação gráfica, entre inúmeras outras atividades.
Desejo a todos muito sucesso, lembrando que o conhecimento não é estático, portanto nunca deixem de se atualizar, de estudar, de se aprimorar.
Muito obrigado.

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