Um inusitado achado no jardim da FAU: banco/banqueta LYON

Última atualização: 10DEZ2025

No dia 24 de novembro (segunda-feira), pós recesso pela COP30, encontrou-se um banco/banqueta bastante danificado sob uma das sapucaias defronte ao Ateliê de Arquitetura.
Percebendo-se que o equipamento, apesar das avarias, poderia ser recuperado para uso, solicitou-se à direção [professores Vanessa Watrin (diretora) e José Júlio Lima (vice-diretor)] que o achado saísse do Campus para os devidos reparos – o que foi feito e o banco (ou banqueta) devolvido à instituição no dia 28NOV2025 (sexta-feira).

Recuperação à reutilização do banco/banqueta – edição de 08DEZ2025 (acréscimo da pintura)

O banco/banqueta em etapa de aplicação de anticorrosivo, mas sem pintura, servindo de modelo nas aulas de Representação e Expressão II – 2025


Sim: o banco/banqueta desempenado e estabilizado no nível volveu à sua função primitiva e está apto a ser usado por pessoas de peso (no amplo sentido); mas, que objeto seria esse? De onde veio? Em que época foi adquirido pela UFPA? Qual o ano de sua fabricação?
Bem… é o que por ora se investiga:
Vanessa e Zé Júlio lembram que o banco/banqueta estava no Chalé de Ferro, inicialmente nele trancado, mas passou a servir de barreira evitando que pessoas adentrassem as varandas do Chalé que também carece de consertos depois que o Numa (Núcleo de Meio Ambiente) o devolveu ao curso de Arquitetura e Urbanismo.
A possiblidade dele ter pertencido ao Chalé de Ferro quando este hospedou o curso de arquitetura na sua implementação em 1964 foi descartada por Maria Beatriz Maneschy Faria, arquiteta responsável pela desmontagem (Almirante Barroso), restauração e remontagem do Chalé de Ferro no Campus no início da década de 1990 – Biá não o reconhece nesse contexto.
Pesquisas revelaram que o banco/banqueta tem o desenho clássico (classic design) de uma corporação estadunidense fundada em 1901, a LYON que até hoje os fabrica redesenhados como Modelo 1901, ano de nascimento da empresa que se fez conhecer (marketing) pela robustez e durabilidade: “poderiam suportar dois gorilas”.

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O modelo básico do LYON 1901 custa hoje US$63,24 (R$343,42 em 09DEZ2025).

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Banqueta de Bar LYON fabricada pela Dyke & Dean no Reino Unido à venda por €291,95 (R$1.853,88) obedecendo o primitivo desenho de 1920 que custava US$2,85 (atualizados: US$ 46,17 – R$250,70 por quanto se compra um banco industrial em média hoje no Brasil).
Atualmente a Dyke & Dean reproduz o banco tradicional da LYON (que a própria LYON excluiu de sua linha fabril) praticando um preço cinco vezes maior na Europa – há farta gama de cores à personalização.
Os sites europeus valorizam esses bancos/banquetas criados pela estadunidense LYON METAL PRODCTS e comercializados no decorrer de décadas sem alterações; dependendo da altura e estado de conservação podem chegar a €500,00 (mais de 3 mil Reais) em sites de antiguidades.

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Se o banco/banqueta LYON iniciou sua produção em 1920 (como afirma a Dyke & Dean): até 1967 nada em seu desenho (e acessórios) fora modificado; apenas as alturas 20″ e 28″ pararam de ser manufaturadas, reduzindo de sete para cinco as opções de escolha.
Os catálogos também revelam a contemporaneidade entre o autêntico Lyon estadunidense e a cópia brasileira ou paraense – um molde que vinha dando certo há 40 anos: um banco/banqueta tipo LYON.

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O uso do banco/banqueta LYON, com e sem espaldar, em atividades industriais e de oficinas; a questão: como ele era usado na UFPA sendo mais alto que uma cadeira convencional e mais baixo que um banco de prancheta?

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As comparações acima foram baseadas no LYON SHOP EQUIPMENT DE 1944 que demonstra a fidelidade ao modelo de 22″ (polegadas – reduzidas para 55cm descontada a espessura do eucatex) de altura com assento de eucatex (acessório em fibra de madeira); o encosto (ou espaldar) também era vendido separadamente: o equipamento industrial básico tinha seu corpo completo em metal; careca: sem prolongadores, pés ou cobertura no tampo.
Uma banqueta (ou banco) com 22 polegadas não é considerada alta nem indicada para bancadas ou mesas de desenho; portando: o banco da UFPA pode ter sido adquirido para atividades administrativas ou laboratoriais na UFPA – certamente o requisito de durabilidade, atribuído aos móveis utilizados em indústrias, oficinais, ginásio de esportes, instalações militares… seria considerado para uma instituição com intenso fluxo e demandas; não é uma peça rara, mas emblemática, pelo que carrega em seu desenho industrial (design) datado dos anos 1920.
O banco (ou banqueta) abandonado no jardim da FAU é um modelo cult até hoje reverenciado e referenciado no mundo pelo nome LYON.
Mas existem diferenças que demostram não ser um LYON legítimo, made in USA: ele não veio da linha de produção estadunidense, pois os encaixes do espaldar são distintos, também não há nele a inscrição LYON AURORA. ILL. YORK. PA. na bordadura traseira do assento em aço – nenhuma identificação do fabricante foi encontrada na peça.
Resta-nos saber quem os forneceu à UFPA: se oriundos de Belém ou outro estado da federação – ou: em hipótese remota: importados.

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Externamente o banco da UFPA é similar em tudo ao LYON de 1944; todavia, a estrutura possui receptáculos diferentes dos originais, impedindo a visão de círculos concêntricos desenhados pelos furos de ventilação do assento plenamente vedados pelo eucatex (no caso da UFPA).

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A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA guarda relíquias adquiridas ao serviço público antes e depois do FEDERAL vigorar em sua nomenclatura – 20 de agosto de 1965.
Recorrendo às páginas amarelas do Catálogo Telefônico de 1965 [ainda Universidade do Pará (UP)], verifica-se a indústria e o comércio de móveis em Belém: que indica como indústria em aço a PORTUENSE GERAL DE EXPORTAÇÃO LTDA e a VICTOR C PORTELA SA REPRESENTAÇÕES E COMÉRCIO com representação comercial da MÓVEIS DE AÇO FIEL S. A. (indústria paulista).
A “JS”, que tem sua logo afixada em um arquivo de aço com tombo posterior a 1965, figura no catálogo telefônico de 1965 como JOSÉ SOARES IMPORTAÇÃO DISTRIBUIÇÃO INDÚSTRIA especificamente para camas hospitalares situada na Padre Eutíquio nº467; a JS MOVEIS SA só seria criada em 25 de abril de 1967 com endereço na avenida Almirante Barroso 4871 – Souza.
Pelas checagens feitas em jornais e revista dos anos 1960 não se detectou que a paulista MÓVEIS DE AÇO FIEL S. A. produzisse bancos/banquetas; nem alcançamos o que a PORTUENSE GERAL DE EXPORTAÇÃO LTDA fabricava como “móveis em aço”.
Se a JS MOVEIS SA fabricou o arquivo da FAU, de sofisticada manufatura, é possível que o Banco LYON (modelo) tenha saído, também, de sua linha de montagem.
É POSSÌVEL; mas, não CONCLUSIVO; então: segue a pesquisa.

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A fábrica da LYON em Aurora, subúrbio de Chicago, Illinois – Estados Unidos; local onde são fabricados os bancos/banquetas LYON 1901, um redesenho do modelo primitivo LYON – “ADJUSTABLE-BACK” STIEL STOOL dos anos 1920.

Sobre a história da LYON METAL PRODUCTS.


O positivo dessa história é que o banco/banqueta foi encontrado na presença dos alunos e as investigações por eles acompanhadas em grupo de WhatsApp; a importância disto está no reconhecimento do lixo, muitas vezes as lixeiras guardam tesouros – compreender o desenho das coisas ajuda em identificações; para este entendimento daremos o exemplo do olho treinado das duas francesas que construíram a Casa Palafita: elas cataram no lixo da cidade (Belém) folhas de portas do final do século XIX início do XX feitas em acapu – tais peças raras estão como “vedação” nos fundos e n’uma lateral da palafita:

Folhas de portas/janelas antigas com venezianas feitas em acapu recolhidas no lixo pelas francesas Sara Lasagni e Églantine Schonbuch.


Postscriptvm:

Sobre o Projeto Laboratório Virtual - FAU ITEC UFPA

Ações integradas de ensino, pesquisa e extensão da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará - em atividade desde maio de 2010. Prêmio Prática Inovadora em Gestão Universitária da UFPA em 2012. Corpo editorial responsável pelas pesquisas e publicações: Aristoteles Guilliod, Fernando Marques, Haroldo Baleixe, Igor Pacheco, Jô Bassalo e Márcio Barata. Coordenação do projeto e redação: Haroldo Baleixe. Membros da extensão do ITEC vinculada à divulgação da produção de Representação e Expressão: Jorge Eiró, HB e Eduardo Lobo.
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