Às mulheres de comando; por Haroldo Baleixe

AS MULHERES E A ADMINISTRAÇÃO foi uma postagem proposital: catei na Internet um artigo light escrito por mulher jovem e vistosa; uma relação direta com a mudança na identidade diretiva da Faculdade, pois saem “pernas de calça” e entram “rabos de saia” — no sentido figurativo, claro.
Se ao gênero masculino é dado o direito à intuição, todas as vezes que exercitei liderança, o usei: as mulheres me acompanharam; salvo uma vez, que abracei um marmanjo.
Coordenar a aplicação de vestibular ou concurso público é, no mínimo, ato de guerra; a logística deve estar azeitada, perfeita; disciplina e pontualidade — as únicas razões do meu ódio pela domesticada humanidade — são imprescindíveis.
Arregimentava para o “comando” as colegas Ana Luiza Coutinho e Madalena Coimbra, experientes professoras e administradoras na UFPA; sábias capitãs com diferença comportamental entre o arrebatamento e a discrição, uma complementação à estereofonia necessária aos meus ouvidos.
O dinheiro era simbólico — fazia-se isso muito mais por cooperação com a professora Célia Brito —, portanto eu sempre as liberava das reuniões de coordenação, às sextas, mas as pegava para dar uma olhada nas escolas que assumiríamos desde os sábados anteriores aos certames.
Vivi com essas duas mulheres, por várias vezes, um prazer inenarrável: a anarquia original: jamais a elas dei uma ordem e, em contra partida, nunca delas recebi um problema que não estivesse resolvido; sabia deles quando montávamos, ao final da missão, o detalhado relatório.
Uma vez, por motivo compulsório, levei o professor Raimundo Leite — em substituição à professora Madalena que havia se aposentado e saído do sistema (voltaria depois) — junto com a professora Ana Luiza para um “sabadão do DAVES” em uma escola que havia sido destelhada na sexta-feira por um vendaval; sendo o concurso, inadiável e imexível, no domingo  — algumas horas mais tarde.
O estabelecimento estava em petição de miséria, o volume d’água escorria pelas escadarias, um caos mais que redondo.
O estado de pânico só seria atenuado com a percepção de confiança na administração da escola e, principalmente, pela garantia dada pelos humildes funcionários: “A gente só sai daqui quando acabar, nem que seja de manhã!”; um deles chamava-se João, estava pregando ripas nos caibros para retelhar algumas salas de aula no pavimento superior; um faz-tudo sessentão, de bermudas, sem camisa e botas Sete Léguas — homem honrado, de certeza.
Pálido me vem o carateca Raimundão apavorado com o que viu no setor que ele cuidaria: “Não tem luz lá em cima! É impossível passar prova aqui amanhã!”.
Um “Calma Leite, calma!” veio da Ana Luiza para recorar o Raimundo com ”A chave geral foi desligada, para evitar curto, um hábito deles.”; ela percebera que não havia eletricidade no local, sendo a primeira providência de conserto que tomara junto à diretora.
Nosso trabalho ali era de “sintonia fina”, a infraestrutura fazia parte da relação estabelecida entre a Universidade e o Estado — essas escolas lucravam muito pouco: o ordinário material de limpeza que levávamos e o pagamento dos envolvidos de acordo com as definidas funções.
O Raimundo não agiu mal, só deixou fluir o instinto masculino de crer no poder absoluto do machado, que separa as partes para que suas anatomias fiquem expostas — hoje um ímpeto comum de dois gêneros, segundo MATSUNAGA.
É óbvio que a preocupação do Leite logo se transformou em objeto de redobrável inquietação da trinca: uma espécie de “alerta de comando”.
Mas…que me perdoe o bro Raimundão: de neurótico, já me basto; prefiro as meninas, com quem nunca falo de trabalho, mesmo na manicure.

Esse texto é em homenagem às colegas Vanessa Watrin e Elcione Lobato que estão iniciando o comando da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará; a elas os mais sinceros votos ao desenvolvimento de um trabalho salutar e inovador em suas funções de diretora e vice da FAU.

Beijos às duas.

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Postscriptvm (27/ago/2012):
O termo “mesmo na manicure” não pretende estabelecer nenhuma relação irônica com o gênero feminino, até porque os homens de boa higiêne “fazem” as unhas.
É tão somente uma figuração de “lugar de fofoca” e fofoca, apesar de palavra substantiva feminina, é do gênero humano.

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4 respostas para Às mulheres de comando; por Haroldo Baleixe

  1. rosa cunha disse:

    Bela reflexão, Haroldo. Com certeza os perfis gerenciais – masculino e feminino – são complementares, sem dúvida, mas as descobertas que têm sido feitas com relação às contribuições do “jeito feminino de administrar” só enriquecem essa função. Vamos, então, usufruir dessas vantagens na nossa FAU…
    Sucesso à Vanessa e à Elcione!
    Bj

  2. Carla Góis disse:

    Boa reflexão?
    Isto dito por uma mulher que ingenuamente não percebeu a ironia ao final do texto.
    “Mesmo na manicure” é depreciativo e significa que as mulheres não trabalham e só ficam fazendo as unhas na repartição.
    Quem escreve não passa de porco chauvinista.

    • fauitec disse:

      Postscriptvm (27/ago/2012):
      O termo “mesmo na manicure” não pretende estabelecer nenhuma relação irônica com o gênero feminino, até porque os homens de boa higiêne “fazem” as unhas.
      É tão somente uma figuração de “lugar de fofoca” e fofoca, apesar de palavra substantiva feminina, é do gênero humano.

  3. Ana Luiza disse:

    Querido Haroldo, vc é tudo de bom. Vc é 10. Se vc não existisse, Deus teria que inventar vc. Adorei reviver essa nossa história e temos tantas outras historias acadêmicas que passamos juntos e vc sempre foi profissional, ético, discreto, honesto e digno, características tão inerentes a vc (e, modéstia a parte, a mim tb) enquanto fomos gestores do Curso de Educação Artística (Plástica e Música) da UFPA. Grande bj e tdo de bom para vc.
    Ana Luiza

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