Arquitetos italianos em Paris. O que diria Baudrillard? por Cybelle Salvador Miranda

Toda viagem para um arquiteto torna-se um observatório (por deformação profissional!) e quando este arquiteto também veste a carapuça do etnógrafo, então o alvo de interesse amplia-se consideravelmente. Após passear por Paris, notando a regularidade, a simetria, a monotonia ‘creme’ das superfícies, que só contrastam com o verde da vegetação e o azul do céu, deparar-se com a obra de Richard Rogers e Renzo Piano é certamente formidável! Principalmente se a estação do metrô chama-se Rambuteau, que, como nos avisa a placa de informação, foi Prefeito do Sena responsável pela substituição do óleo pelo gás na iluminação.
Na fachada principal, que se volta para uma praça rampada, na qual sentam-se distraidamente turistas a espera da abertura do museu, a passagem dos pedestres provoca alegre revoada das centenas de pombos que habitam a cidade.
Alvo de tanta polêmica por ocasião de sua construção, o Centro Pompidou, ou Beaubourg, foi motivo de um ensaio do filósofo Jean Baudrillard, no qual declara ser o museu uma ode à morte da cultura, por sua arquitetura brutalista e longas escadas rolantes que remetem a forma dos hipermercados, com a sutil diferença de que lá a mercadoria é a ‘cultura’. As massas correm ao Beaubourg, segundo o autor, felizes por celebrarem a destruição de algo que sempre odiaram. Certamente, o que ele entendia por cultura é algo muito diferente do conceito atual, mas a interpretação simbólica da edificação não deixa de ter pertinência. E afinal, o Louvre também ganhou sua pirâmide envidraçada e suas escadas rolantes!


Torre Velasca Milão, exposição no Centro Pompidou, Paris, julho 2012.
Foto: Ronaldo Marques de Carvalho

O Centro Pompidou abriga de 20 de junho a 10 de setembro a exposição La Tendenza Architectures Italiennes 1965-1985, dedicada ao grupo de arquitetos italianos que retomou as tradições da arquitetura da península itálica, com ascendência romana, oferecendo alternativa ao funcionalismo moderno, no auge da reação aos paradigmas racionalistas. Sempre associando reflexões teóricas aos projetos elaborados, destacam-se os nomes de Aldo Rossi, autor de Arquitetura da cidade em 1966, Manfredo Tafuri com Projeto e utopia de 1973 e o livro Lógica da arquitetura de Giorgio Grassi, em 1967.
À entrada da exposição, referência ao maior ícone do movimento, que se torna o gran finale do percurso. Na foto de Heinrich Helfenstein, aparecem as principais personalidades em frente à obra La città analoga (1945), de Arduino Cantafora, apresentada na Trienal de Milão de 1973. Destacam-se Aldo Rossi, Carlo Aymonino, além dos norte-americanos Richard Meier e Michael Graves, demonstrando a repercussão da teoria morfológica no Novo Mundo.
A mostra, concebida por Frédéric Migayrou e Concetta Collura, apresenta cinco temas: A Cidade análoga (1973), Torre Velasca (1950-1958), Ina-Casa, as unidades de habitação da reconstrução italiana (1949-1963), Conjunto de habitações de Gallaratese Milão (1967-1974) e o Teatro do Mundo Veneza (1979). A concepção de Rossi da Cidade Análoga remete a dimensão humana da construção das cidades ao longo do tempo, e assume uma postura ética em face dos monumentos, entendidos como pontos de referência da memória coletiva. Para o arquiteto, a história da arquitetura é o seu material.
O projeto da Torre Velasca aponta para a reinvenção dessa tradição, sendo, a princípio, alvo de crítica por suas dimensões (99 metros de altura) e hoje tornou-se referência no patrimônio de Milão, assim como a Tour de Montparnasse é marco de Paris.
Na seção Ina-Casa, percorre-se os projetos de reconstrução de cidades italianas após a segunda guerra, os quais buscam retomar sua forma simbólica, além de promover os métodos artesanais e do saber local, gerando uma arquitetura ‘regionalista’ porque ligada ao contexto.
Com o mesmo intento, a operação urbana no bairro Gallaratese, em Milão, conduzida por Carlo e Maurizio Aymonino, com Alessandro de Rossi e Sachim Messaré entre os anos 1960 e 1970 do século passado, alia a monumentalidade da arquitetura clássica e sua interação com o espaço público, sem descuidar da racionalidade proporcionada pela arquitetura moderna. Aymonino enfatiza o papel do tipo arquitetônico para a construção da cidade moderna e contemporânea.

Maquete do ‘Teatro do Mundo’, exposição no Centro Pompidou, Paris, julho 2012.
Foto: Ronaldo Marques de Carvalho.

Destaca-se na mostra a qualidade artística e técnica na apresentação dos projetos, herança sem dúvida da formação renascentista, que não deixa esquecer Alberti e o Tratado De Re Aedificatoria, bem como os projetos utópicos de Boullée. A expressão do traço desenhado a nanquim, a lápis, colorido a aquarela, pastel, tornado painel a óleo ou maquete física, relembram o valor e o potencial da expressão plástica na atividade do arquiteto.
Sem dúvida, o ponto culminante da mostra é o célebre Teatro del Mondo, inaugurado em 1979, durante a exposição “Veneza e o espaço cênico para a Bienal – Teatro Arquitetura”, dirigida por Paolo Portoghesi. O barco-torre foi ancorado na Punta della dogana, em referência aos teatros efêmeros construídos nos carnavais do século XVIII. Com 25 metros de altura, possui capacidade para 250 pessoas, composto por galerias laterais, cujas janelas se abrem para a paisagem. Assim como o célebre Teatro Olímpico projetado por Palladio para Vicenza recria no espaço interior a atmosfera do teatro ao ar livre, o teatro-instalação de Rossi busca integrar a cena com a paisagem por meio do diálogo interior-exterior.
Oferecendo um intenso percurso de referências a cultura arquitetônica, La Tendenza permite dialogar com a cidade de Paris, possibilitando o entendimento da arquitetura da cidade como um texto, no qual pontuações como o Centro Pompidou evidenciam, por contraste, a lógica da cidade clássica.  E que a Arquitetura ainda pode ser entendida no contexto das artes visuais, não no sentido da fixidez e da imobilidade, mas como uma manifestação cultural contemporânea.

Publicado originalmente em arquiteturismo/vitruvius.
(Acesse e veja mais fotografias.)

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