O apocalipse em Acácio Sobral

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Foto: Antonio Cícero.

O artista plástico Acácio Sobral (foto) faleceu no dia 24 de novembro de 2009, poucos meses após a inauguração da obra Olho D’água (desenho), instalação na modalidade Site Specific − emblemática por sua relação com a natureza.
O trabalho de Acácio, meticulosamente planejado para o Campus do Guamá, previa uma dinâmica de integração do homem ao ambiente amazônico, propondo que no centro de sua escultura surgisse uma samaumeira, plantada à época da montagem, que seria abraçada em um tempo que ele sabia já estar ausente.
Esse processo, necessariamente lento para ser reflexivo, foi interrompido pelo progresso que desordena, o mesmo que traz o dinheiro afobado para construir cadeias com microcelas de segurança máxima; onde o Sol, médico, quando aparece, faz visita.
É o controle do homem sobre o homem, ambos, órfãos de Deus − o que vigia e o que é vigiado.
Se todos pensássemos que ter um lugar para contemplar é tão importante quanto um abrigo, compreenderíamos o sentido e o significado do Olho.
Arredar a estrutura de aço para mais próximo do Guamá, garantindo área à construção de um bloco de cinco andares para salas de aula, foi solução espúria; melhor estaria tal bagaceira no fundo do rio, à degradação do Senhor.
O ferro ordenado e pintado não diz mais nada, perdeu contexto porque o desenho tridimensional, que Acácio chamou de Pintura 3D, além de necessitar daquele “abusado” espaço, carecia dos caminhos de terra e da vegetação em tons distintos de verde.
O artista não pensou só em linhas, jogou com manchas de cor ao fundo e justificou um ato de design pictórico; foi profissional em seu inútil serviço.
É tarde demais para se chorar sobre o açaí derramado da cuia, não é possível crer que o bom senso vença um calendário imbecil a serviço da favelização universitária.
Acácio Sobral entendeu que a beleza do Campus do Guamá está no beijo do rio e que espiar é melhor que mal intervir − o metalon, se considerado guardião da samaúma, teria protagonismo efêmero e sua única serventia seria fazê-la reinar sombreira às gerações futuras de necessidades imprevisíveis.
Temos que admitir, indistintamente, nossa MEA CULPA, nossa MEA MAXIMA CULPA, pelo silêncio que dá carta branca às asneiras que mutilam nossa paisagem materna.

Opinião assinada: Haroldo Baleixe.

Postscriptvm:

Estaqueamento da obra Bloco Salas de Aula fotografado em 19/março/2013 às 13:45h:

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2 respostas para O apocalipse em Acácio Sobral

  1. Thais Sanjad disse:

    O Olho D`água, como hoje se apresenta, perdeu o contexto da sua criação, não guarda mais a relação espacial fundamental da concepção de Acácio Sobral.
    Li o manifesto de repúdio à desmontagem e realocação da obra elaborado pela Faculdade de Artes Visuais e também a Petição Pública, que fiz questão de assinar.
    Sendo da área de restauração não tenho outro posicionamento a não ser o de lamentar.
    Infelizmente muitos estão entendendo o valor desta obra somente agora, depois da sua “destruição”, ou mesmo, entendendo que uma obra não está isolada do contexto que está inserida, é uma pena!
    Esta obra, se continuar onde está, ainda vai ter um terceiro contexto, que será quando a construção for finalizada.
    Usando suas palavras Haroldo “lugares de contemplação são tão importantes quanto os abrigos”.
    Esse lugar de contemplação deixou de existir, não gosto de ver a obra como está e, por maior que tenha sido o cuidado com sua remontagem, ela perdeu o sentido.

    • fauitec disse:

      Thais:
      “…o dinheiro afobado para construir cadeias com microcelas de segurança máxima; onde o Sol, médico, quando aparece, faz visita.” simboliza o franco desrespeito padronizado do Governo Federal com a diversidade cultural do país – à semelhança de nossos algozes históricos, mais carinhosos, por nos dar a chance do choro (e do chorume).
      Padronizar pela Certificação, quando essa só serve aos fins escusos dos editais, é enxugar esse mesmo choro (e o chorume); portanto, não sei para quem torço, se para Deus ou para o Diabo.
      O que vejo na passividade universitária é o abismo que nos separa de nós mesmos; somos constantemente moldados a raciocinar pelo exterior vazio do alheio, esquecendo-nos, todos, de preencher o cérebro com sinapses provocadas pelo verbo ancestral caseiro – fosse esse Verbo de pretos, pobres ou de putas: genético, mas, substantivo; fosse esse Verbo também dos lordes, como dos Sir (adjetivo e não pronome), a la Beatles; fosse enfim esse Verbo do pós-Grécia: da Coca-Cola e de Marx.
      Tecnologia iguala; cultura, diferecia.
      Mas, não cremos nisso.
      Haroldo.

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