ASSISTIR FUTEBOL FICOU CHATO?; por Jaime Bibas

!cid_F5047481F1D747D995947C74FEBF2C1C@JaimeBibasPCNão sei, tenho a leve impressão que o football hoje leva em noventa minutos de jogo, como se diz, um chocolate da tecnologia. Comecei indo aos campos de futebol muito cedo, pelas mãos de um saudoso apaixonado pela bola, meu pai. Desde lá vi excepcionais jogadores algures e alhures, num tempo em que ídolos eram apenas seres mortais, facilmente alcançáveis pelos torcedores ainda nas quatro linhas, sem o impedimento de fossos, alambrados, ou seguranças armados. Quando o acento de Pelé era confundido, por vezes, com Pelê.

Depois de jogos ao vivo ou acompanhados pelo rádio, era bom assistir jornais cinematográficos que mostravam resumos de partidas já realizadas, tudo muito rápido, sem replay, mas com a incrível magia que tem o cinema, fora da sala escura, a de gravar impressões físicas em corações e mentes, permitir discussões se houvera falta em tal jogada, bola na mão ou mão na bola e sei lá o que mais em lances duvidosos. Logo após viria uma era dominada pela tevê, o que causou meu gradual afastamento dos gramados de antanho.

São outros, os tempos como alguns deverão dizer. No que concordo. Mas fico, cá com meus botões, entre atilado e saudoso de um tempo em que jogar futebol só significava uma coisa: jogar futebol; em que erros de arbitragem não eram monitorados senão, muito tempo depois, por uma fortuita imagem de cinema, em que jornais grafariam crônicas magistrais no feitio do grande Nelson Rodrigues, em que treinadores podiam ser abatufados, bonachões, posavam para fotos com chuteiras calçadas em pares de meias do tipo social e se permitiam cochilar no intervalo das partidas, porque no segundo tempo os jogadores resolveriam tudo, como diziam do lendário Vicente Feola. Ou até mesmo de um tempo em que autoridades não eram vaiadas nos estádios. Nostalgia algo imprópria agora? Bem amigos… É, bem, possível.

Não consegui ontem, por questões outras, assistir aos noventa minutos do primeiro jogo da seleção na copa das confederações. Quando cheguei na frente da pequena televisão, com apenas 10 polegadas de tela, já o Brasil vencia os japoneses, bem fraquinhos por sinal, por dois gols. Ainda foi possível ver Felipão, respirar fundo aliviado, a seleção se movimentar bem em meio de adversários que sabem correr, mas, sem nenhuma direção, atropelando tudo. Vi o óbvio, a vitória da seleção brasileira. E já que não vira o jogo, tentei hoje, acompanhar as análises sobre o futebol de ontem, talvez as principais jogadas, como nos antigos jornais do cinema, em programa especializado.

Estou, possivelmente, mais informado, acho, que telespectadore de imensos HD, pois vi jogadas em câmera lenta, com cenas que não foram vistas ontem como por exemplo, o movimento dos músculos, da perna de certo atleta. Estou pra lá de instruído, também, sobre, o tempo, distância e velocidade em quílometros por hora medida em cada jogador, sei que um zagueiro tem o mesmo biótipo de um lutador de judô e quantas vezes determinado jogador levou suas (dele) mãos à cintura. Ainda fiquei sabendo como aconteceram as festas de brasileiros por todo o país e como jogadores de dois times, que ainda nem entraram em campo vão se posicionar nas quatro linhas, tudo mostrado com recursos da alta tecnologia de um gramado virtual. Nada mais sobre o futebol, nem mesmo o que de importante houve, no jogo de ontem.

Me afastei da telinha com uma sensação. A de que tudo deve ter sido muito maçante, pois me assalta, de repente, uma estranha melancolia. Diz que preciso dormir para sonhar, certamente depois de reler alguma crônica de Nelson Rodrigues.

Santa Maria de Belém do Grão Pará, 16 de junho de 2013.

[jb]

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