Do PLANO A para o PLANO B ─ impressão pessoal; por Jaime Bibas

DSC_0003Há um momento, tenebroso, enigmático,  desconhecido, ainda. Quando a vida acaba, seiscentos e tantos músculos do corpo  quedam inertes, o coração não mais bombeia sangue para as artérias. Assim, dizem  que se estabelece o fim da vida. Há de existir os que, sem apego à matéria,  tratam esse momento como uma passagem de um para outro plano e muito embora a  maioria tente não pensar que esse instante chegará, ele está determinado para  todos. É improrrogável.

Pensava nisso enquanto visitava o que os  olhos inquietos, mas, exatamente precisos de Alberto Bitar, através de imagens  impactantes nos apresenta, no âmbito da exposição Corte Seco, em feitio de narrativas ou depoimento fotográfico severo, onde alguns visitantes  desviavam a direção dos olhos, conforme anotei. Imagens que soube, pelo  competente quanto belo texto de Orlando Carneiro, de algum modo seria  consequência de pretérito episódio, ocasião em que os já, inquietos olhos de uma  criança, inadvertidamente, descobriam um corpo desovado. Alguma similitude com outra  cena da minha história, da qual também fui testemunha, com os olhos inocentes de  menino.

Serie-Corte-Seco-023-foto-Alberto-Bitar[4]

Vejo, na cena artística do presente, a  vida ser reencenada e transformada constantemente em arte, no feitio de mapas  geográficos emocionais. Então porque não, também a morte, através da memória e  sentimentos que ela desperta?

Alberto Bitar parece não enxergar nos  cenários expostos, uma possibilidade de contar a história da sua história. Nem  se preocupa com a habitual e simples denúncia, por exemplo, sobre o que se  conhece como banalidade da violência, embora suas fotos sejam consequências  dela. Muito menos compactua como uma espécie de voyeurismo de corpos martirizados, com  os quais trabalham diversos artistas, mas, apresenta a própria ferida social  como sua perspectiva artística e poética. É bem possível que o maior desafio  enfrentado para realizar esse choque ─ corte ─ seco, tenha sido a inversão da lógica de autoindulgência, na procura minuciosa  de um universo próprio, particular, onde pudesse contar histórias que se põem  abertas às leituras dos espectadores.

Existe hoje, e assim me parece, uma  discussão sobre terror e violência, onde se inserem questões acerca do papel das  novas mídias em relação à morte. Beirando às raias do absurdo, é possível até  navegar em páginas virtuais onde o “usuário” pode criar um site e “antecipar”  sua própria morte. A exposição Corte Seco de Alberto Bitar, é claro,  não se conecta com essas novidades. Aqueles que têm consciência da sua própria  finitude, limitações e debilidades, conseguirão ser mais compreensivos e  tolerantes penso eu. Os mais duros de coração sem lágrimas para derramar, terão  certamente maior dificuldade para se solidarizar com o drama de corpos  (anônimos?) cobertos por papéis velhos ou andrajos, em cenas de ruas pouco  iluminadas, cores de chão batido, que vão da violência à tristeza. Em qualquer  dos casos, o corte seco de Alberto Bitar nos fará refletir sobre como é difícil  manter a vida intacta. Muito mais do que a gente possa  imaginar.

Santa Maria de Belém do Grão Pará,  setembro/2013.
(jbibas)

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Uma resposta para Do PLANO A para o PLANO B ─ impressão pessoal; por Jaime Bibas

  1. Me sensibilizou.

    Aos que não entendem a finitude cabe apenas a propaganda barata de não sensibilizar, mas de surpreender… como aquelas pessoas que presenciam um acidente e não sentem nada mais que o prazer de contar a novidade a alguém, sem a sensibilidade, mas com ânimo…

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