Chuvas e Trovoadas; por Flávia Alfinito


FAU
Gênero:  Ficção
Diretor: Flávia Alfinito
Elenco: Patrícia França, Suzana Faini
Duração: 14 min         Ano: 1994         Formato: 35mm
País: Brasil         Local de Produção:
Cor: Colorido
Sinopse: Quatro meninas têm aulas de costura nas tardes modorrentas que se arrastam nos trópicos da “belle époque” na Amazônia. Baseado em conto homônimo de Maria Lúcia Medeiros.

Maria Lucia MCHUVAS e TROVOADAS (Maria Lúcia Medeiros)

Dedo, dedal, de-mal, drapeado, debrum, debruado, dever, desfazer…
A caixinha de costura, a mesa comprida, sala imensa. Cabecinhas baixas, olhos fixos nas agulhas que mergulhavam rápidas, tecido claro, claro como a tarde modorrenta, se arrastando.
Vê-las ali, trabalhos manuais executando, era encher de graça e placidez um mundo de meninas laboriosas, aprendizes, um mundo comportado.
É claro que, de repente, um pé saía do sapato e escorregava pra debaixo da mesa. É claro também que gotas de suor brilhavam naquelas frontes tão claras. Mas entre linhas azuis e verdes, outras matizadas, os ouvidos abriam-se para o ruído das ruas.
E passavam vendedores de cascalho. E passavam vendedores de pipoca como havia ainda, quando em vez, bruscas freadas dos automóveis.
Mas, protegidas do mundo, abrigadas na imensa sala, as meninas costuravam.
A professora era paciente, mas exigente e cuidadosa. E as meninas… educadas, caprichosas, perfumadas.
Aula de costura! Caixinha arrumada, às quatro, em ponto, elas iam chegando e se
acomodando nas cadeiras.
Difícil era fugir à tentação das janelas abertas mas muito altas. Penoso era olhar a um canto o piano sempre fechado, negro, lustroso. Doloroso era ficar tão longe do
quintal que se adivinhava lá pro fim do corredor comprido, tábuas corridas enceradas, passadeira colorida, de tão poucos passantes.
Todas banhadas, cheirando à lavanda francesa, uma de tranças, outra de franja, laço de fita, broche dourado. A de cabelos encaracolados trazia brinquinhos nas orelhas
pequenas, delicadas, e arrastava a cadeira e pedia desculpas, mas repetia o gesto todos os dias de aula. O ruído era dela, feito por ela. O outro vinha do quintal, vinha de mais
longe, vinha triste chegando e enfeitava a tarde calorenta. Era o galo que cantava no quintal apenas adivinhado, longe e mole e rouco ruído para compor com o outro, o arrastar da cadeira, sempre acompanhado pelos olhares meio reprovadores das outras costureirinhas.
Não pediam para ir ao banheiro, as meninas? Não sentiam sede? Sim e não. Em meio à aula, às quatro e 45, entrava na sala, tangida por um estranho relógio a empregada de avental branco e na bandeja redonda, cinco copos d’água.
Nesse momento descansava-se a costura ao lado e, pelo ar, sentia-se a permissão para ir ao banheiro, se precisassem. Ia sempre a menina de cabelos encaracolados, ovelha meio desgarrada que procurava antes o sapato debaixo da mesa.
Era dela o pezinho vestido com meia branca rendada, adivinharam?
Vez por outra, um gato gordo e branco atravessava a sala.
Às cinco e meia, arrumavam as caixinhas, beijavam a professora e partiam.
— Recomendações à mamãe…!
E a porta comprida e pesada interceptava o fim da tarde.
Feliz a professora, felizes as mães de filhas tão gentis. Poderia a professora dizer que “menina tem parte com o diabo?”
Bainhas e babados, alinhavos, arremates, franzidos e cerzidos, aprendiam fácil, as dóceis meninas costureiras:
E a professora sonhava. Sonhava e as transformava em futuras jovens senhoras, “mãos de fada”, orgulho dos maridos, da família. Proibido falar em mundo perdido.
Vislumbrava-o inteiro naquelas meninas tão meninas, tão delicadas, louçãs, gentis.
E telefonavam as mães ao fim de cada quinzena, mães e professora que falavam de um mundo arrumado, costurado, cerzido, consertado.
Contam que foi numa tarde de janeiro e que a aula decorria já pela metade, na hora dos copos d’água, quando desabou a chuva.
A professora apressou-se em fechar as janelas e acender as lâmpadas do lustre pesado, pendente no centro da sala. O dia virou noite, ou melhor, a tarde virou noite, de
repente.
Contam também que a menina do cabelo encaracolado perdeu-se esquecida, agulha presa entre os dedos, olhos fixos no lustre resplandecente.
A professora ergueu os olhos por cima dos óculos. Mas a menina já estava de pé, braços abertos num longo espreguiçamento e, ligeira, atirou caixas e agulhas e linhas e dedal pra cima, pro alto, bem pro alto, esparramando pela sala dezenas de alfinetes e pedacinhos de renda que se foram alojar, num vôo doido, por cima das meninas costureiras.
Na mão esquerda, a tesourinha ameaçadora que ela fincou sobre a mesa e virou as costas, rindo das caras assustadas das outras meninas. E abriu a porta.
— Merda! Que ela disse ainda, antes de mergulhar na chuva grossa que banhava ruas e calçadas.
Contam que as outras meninas acudiram a professora com água e açúcar. E que a aula acabou por ali mesmo. E que logo depois tocou o telefone e que a conversa não foi escutada por ninguém.
Só o gato enrolava-se nas pernas da professora. Contam, por fim, que a menina, filha de um professor de filosofia, passa as tardes devorando livros de aventuras, contos de fada, lendas e mitos, sonhando com terras distantes. E que (já ia me esquecendo) anda apaixonada por um tal de Robinson Crusoé.

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Uma resposta para Chuvas e Trovoadas; por Flávia Alfinito

  1. Bassalo disse:

    Maravilhoso…

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