Travessa da Estrela – a polêmica rua do Marco da Légua

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Travessa da Estrella na casa do Bené.

Em 2011, com a morte do professor e filósofo Benedito Nunes, ilustre morador da oficial e antiga travessa Mariz e Barros, surgiu um abaixo-assinado “sugerido” pelo Secretário de Estado de Cultura, arquiteto Paulo Chaves Fernandes.
Leia-se o argumento de Paulo Chaves divulgado na imprensa:

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Texto ampliável.

Supor o Porto da Estrela; próximo ao pé da Serra da Estrela, em Magé, no Rio de Janeiro, para onde foi transferida a Real Fábrica de Pólvora (entre 1826 e 1832); é uma possibilidade – certamente remota por não se tratar de uma batalha em solo paraguaio ou circunvizinho – à nomenclatura da Travessa.
Salvo a existência de documento que nos diga isto.

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Os dois recortes da Planta da Cidade de Belém, publicada no Album Descriptivo AMAZONICO 1899 de Arthur Caccavoni, mostram a coexistência das travessas: a da Estrela, na Campina-Centro, e a Mariz e Barros, no Marco.

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À página 79 do livro RUAS DE BELÉM – Significado histórico de suas denominações, de Ernesto Cruz, confirma-se o fato da Travessa da Estrela estar muito distante do Marco da Légua, entre os bairros da Campina e do Centro.
Clarificando: a travessa da Estrela fora a hoje avenida Assis de Vasconcelos; portanto, não é o nome original substituído pela homenagem ao herói da Guerra do Paraguai Antônio Carlos de Mariz e Barros no bairro do Marco da Légua.

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O Dicionário das Batalhas Brasileiras, de Hern
âni Donato, não menciona nenhum Porto da Estrela; mas se refere às ocorrências, dentre lugares e personagens, da Guerra do Paraguai que compõem o arruamento primitivo do Marco da Légua em Belém com as travessas Jutaí, Mercedes, Riachuelo (depois Antônio Baena), Curuzu, Chaco, Humaitá, Vileta, Timbó, Mariz e Barros, Mauriti, Barão do Triunfo, Angustura, Lomas Valentina, Itororó (hoje Enéas Pinheiro) e Perebebuí; mais as quatro estradas a elas perpendiculares: Conde D’Eu, Duque de Caxias, Visconde de Inhaúma e Marques de Herval.

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O recorte da páginas 138 do livro de Ernesto Cruz mostra um conflito de datação: pois a 25 de Setembro não poderia pertencer ao rol em 1893, já que a vitória da Brigada Militar do Pará na Guerra de Canudos se daria em 1897.
A lista de Cruz não garante correspondência no mapa à travessa Estero Bellaco, pois só há a Jutaí – hoje FEB – e a Mercedes; nenhuma antes ou entre elas.
Se sobra Estero Bellaco, faltam Humaitá, Mariz e Barros, Mauriti, Barão do Triunfo e Angustura; Ernesto Cruz cita a Itororó e inverte a ordem de Pirajá-Perebebuí.
De todo modo, antes dos vacilos que confundem a interpretação, à mesma página 138, Cruz data com coerência a mudança da Estrada do Conde D’Eu para Avenida 25 de Setembro como 16 de dezembro de 1897.


Os documentos acima mostram que a TRAVESSA DA ESTRELA do Bené e de todos os moradores mais antigos do bairro do Marco não é o nome original da MARIZ E BARROS – pelo menos do ponto de vista da legalidade.
Entre especulações sobre a origem da Estrela (ou Estrella) do Marco há a de Gratuliano Bibas, pai do editor chefe do BF, que anotou no seu Ruas de Belém que Estrella seria uma corruptela de Estero Bellaco; justamente a que não consta da carta, nem de se ouvir falar.
Uma permuta de nomes em áreas distintas da Cidade não obedeceria à lógica, já que a planta remota revela tanto a Rua do Riachuelo (perpendicular à Travessa da Estrela da Campina) quanto a Travessa Riachuelo (entre a Mercedes e a Curuzu).
Essa duplicação de Riachuelo, à época, deve ter facilitado a substituição política do nome da Travessa (a Rua permaneceu) para Antonio Baena, “Major do Primeiro Corpo de Voluntários da Guerra do Paraguai”, falecido em 1898 em seu quarto mandato de senador da República, ocorrida (a substituição), segundo Ernesto Cruz, em 10 de setembro daquele ano.
Incongruente a esse conjunto do perímetro do Marco no período, além da não paraguaia Vinte e Cinco de Setembro, temos a avenida Tito Franco de Almeida, em homenagem ao advogado, jornalista e deputado provincial no Regime Imperial do Brasil, convicto monarquista, falecido em 1899.

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Parágrafo do texto Belém revisitada, de Haroldo Maranhão, escrito em 1984 e publicado em PARÁ, CAPITAL: BELÉM – MEMÓRIAS & PESSOAS & COISAS & LOISAS DA CIDADE (2000).
O desdém de Haroldo Maranhão com a História, certamente por ele conhecida, aponta para uma possibilidade de natureza prosaica: a travessa ter sido batizada pelos domiciliados e/ou visitantes que encontraram algum marco para identificá-la, à revelia do poder instituído – marginal aos ditames da Municipalidade ou Prefeitura.
Neste caso Estrela poderia ser qualquer coisa que existisse na via em tempos tanto anteriores quanto posteriores à marcação no mapa: uma chácara, uma venda, uma garagem de ônibus, uma oficina, uma fábrica, um campo de futebol, uma vacaria, uma horta, um bordel; improvável que se referisse a um porto da Baía de Guanabara, que além de escoar por tempos o minério das Minas Gerais para Portugal, passou a embarcar a pólvora produzida no Brasil Império pelo menos 32 anos antes da Guerra do Paraguai ter início.
Bené e Haroldo deviam achar muito mais interessante a polêmica da Estrella que uma solução burocrática à ela.


Postscriptvm:

A travessa Mauriti (ou Maurity) não se reporta a uma batalha, mas a um outro guerreiro: Joaquim Antônio Cordovil Maurity, pertencente à Armada Imperial Brasileira.

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7 respostas para Travessa da Estrela – a polêmica rua do Marco da Légua

  1. José Maria disse:

    Este bairro, quando criado, era mesmo distante e cheio de rocinhas. O nome estrella deve ter precedido o “nome oficial” que não pegou durante muito tempo. Aí vi muita gente chamando de Estrela. Até que um dia, com o crescimento da cidade alguém lembrou que a rua tinha um nome oficial. Deve ter sido isso. A coisa ficou muitos anos no papel.

  2. Muito legal a construção e argumentação da matéria.
    Moro em Belém tem pouco tempo e este site me ajuda a entender a cidade e sua história.
    É um excelente e imprescindível serviço prestado pela UFPA.

  3. É incrível como se muda nome de rua em Belém.
    As ações decorrem de interesses ideológicos onde vereadores desocupados “agradam” pessoas e instituições.
    O caso da 25 é um dos exemplos mais bizarros que se tem conhecimento na cidade, sem contar com outros como o da avenida Independência e da 15 de agosto a tempos mais passados.
    Datas e nomes caem no rol do esquecimento.

  4. Bassalo disse:

    Amigos do BF, parabéns (de novo) pelas reflexões.

  5. Maria de Fátima Menezes disse:

    Fico triste ao perceber que tudo aquilo que agente apreende nos banco de escola e eu na minha época estudei quando o estudo era dado através de excelentes professores década 60 a 70, hoje o meu estudo não vale mais nada. Aprendi de um jeito hoje leio outras formas de descrever a História que aos poucos vai sendo mudada. Os nomes dados e trocados visam os interesses ideológicos e pessoais de cada um. Nossa História do Pará muito jovens não sabem e se aprendem não é mais a mesmo história de meu tempo.

  6. EU ATUALMENTE MORO NO RIO DE JANEIRO, ESTUDEI JORNALISMO, DIREITO, CULTURA QUE NOS FAZ COMPREENDER BEM O QUE AS PESSOAS, PRINCIPALMENTE POLÍTICOS POR NÃO TEREM O QUE FAZER E SE TEM NÃO FAZEM, AI FICAM DESFIGURANDO O QUE JÁ ESTÁ FEITO, SÓ PARA TEREM NOMES NA MÍDIA, NASCI NA TRAVESSA ESTRELA, 806 EM 1954, QUANDO AINDA ERA APENAS UM ESTRADINHA DE TERRA, QUE LINDO FOI CRESCER ALI, DEPOIS VER O DESENVOLVIMENTO, SIM MUITO BOM O QUE NÃO FICA BEM É ESSA DESFIGURAÇÃO DO NOSSO PASSADO, QUE ESSES TAIS HOMENS SEM CULTURA FAZEM EM NOME DA POLÍTICA NEFASTA. VOLTE AO NOME ORIGINAL(TRAVESSA ESTRELA) NO MARCO.
    OBRIGADO!

  7. Helio S. C. Ribeiro disse:

    Trabalhei em Belém, de março de 1967 a fevereiro de 1968. Nesse período, morei na Travessa Estrela, no bairro da Pedreira. Quando voltei lá em Belém no ano de 2003, procurei bastante tempo pela dita travessa, sem encontrá-la. Inclusive ela não constava num guia de ruas da cidade, que comprei na ocasião. Então pedi informações num bar, e o dono me informou que ela tinha mudado de nome para Mariz e Barros.

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