Não creio em bruxas, mas em vassouras; por Raul Ventura Neto

corel864Dos trinta e poucos anos que hoje tenho, há quase uma década observo Belém como Arquiteto, Urbanista e Paisagista. Confesso, não sei o que me assusta mais: se são as três décadas já passadas ou se são os três substantivos da minha profissão! Só tenho hoje uma certeza, precisamos cada vez mais refletir criticamente Belém, recolocar algumas perguntas.
Belém queima há alguns anos. Eu me lembro bem que foi através de um incêndio de grandes proporções no bairro do Guamá, que eu descobri que havia uma fábrica de vassouras no meu caminho diário para a UFPA durante a graduação. Devo confessar que a despeito da tragédia, achei incrível isso de haver uma fábrica de vassouras encrustada no meio da Bernardo Sayão. Por semanas me aguçava os sentidos a possibilidade de assistir diariamente aquela paisagem urbana chamuscada ser, muito rapidamente (a redundância é proposital aqui) requalificada, de modo que em poucas semanas o incêndio e o chamusco eram passado, memória.
Sei não, mas hoje percebo que talvez ali, naquele momento específico eu de fato me tornei Arquiteto, Urbanista e Paisagista. Arquiteto pela fábrica de vassouras, Urbanista pelo bairro do Guamá e Paisagista pela madeira chamuscada.
Todos que observam Belém também possuem um pouco dessas características que se pretende exclusiva do arquiteto, mas que nunca será: olhar a cidade pelas perspectivas do edifício, do urbano e da paisagem. É principalmente por isso que eu entendo a sensação de luto de muitos amigos com o incêndio que consumiu parte do patrimônio edificado da rua Santo Antônio. Entendo e compartilho da tristeza, mas discordo da pena e da revolta destes com o acontecido.
Cansei de ter pena de Belém! Essa frase não é minha, e sinceramente não lembro em qual boteco a ouvi – e é certo que eu já estava um pouco, ou bastante, alterado. Cansado de ter pena sim, mas para jogar a toalha ainda falta, e muito. Talvez seja preciso, de uma vez por todas, entender as estruturas mais profundas que definem essa cidade há pelo menos cem anos.
Devemos refazer as perguntas, e aqui eu quero refletir com apenas duas das que eu considero mais importantes: Por que a necessidade quase perpétua de Belém gerar novos centros de altíssimo valor imobiliário, desvalorizando brutalmente o antigo? Por que a fábrica de vassouras incendiada no Guamá se requalificou tão rapidamente, enquanto os escombros da Santo Antônio talvez durem anos para se reerguer? As respostas não se mostram e nem se esgotam nesse texto, abro aqui apenas outros pontos de vista.
Sempre aguçou minha curiosidade a capacidade de uma cidade como Belém – pobre, periférica e com renda ultra concentrada – produzir tão dinamicamente novos centros de altíssimo valor imobiliário. Do mirante do Palacete Bolonha à cobertura duplex do quadragésimo andar na Doca, passando pelo Manuel Pinto e pela aprazível Brás de Aguiar, não existem somente diferenças nos gabaritos. Há uma sede inquestionável nessa cidade em criar novos espaços urbanos para o mercado, como se fossem grandes descobertas, inovações.
Por outro lado, em paralelo mas também em complemento (a contradição aqui também é proposital), o que se classifica como espaço informal avançou sempre em progressão geométrica na cidade, ignorando de certa forma a realidade verticalizada da área central da vez. Mas até aí eu entendo, afinal estamos tratando de Belém ­– pobre, periférica e com renda ultra concentrada – só questiono aqui a resiliência de uma fábrica de vassouras que existia, até um tempo atrás, encrustada em pleno Guamá! Minha memória coletiva sempre teve ideia de fábrica como uma coisa enorme, tipo aqueles galpões abandonados há anos e esperando até hoje a ampliação do gabarito no Reduto.
Enfim, divagações e perguntas a parte, penso apenas que enquanto não estivermos dispostos em avançar nesse debate, o jeito vai ser sempre respirar fundo e lembrar da célebre frase de Jorge Amado em Quincas Berro D’água: “Cada um chora por onde sente saudade”.

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