As razões de Semblano; por Jaime Bibas (fevereiro de 2012)

São curiosas certas expressões as quais, gerações as mantêm por algum tempo presente na memória coletiva. Sem organização, apenas com o hábito de recolher esses ditos populares, às vezes topo com alguém ali, acolá, que me desperta para algo bom de ouvir e guardar na lembrança. Assim pensava quando tratei de apressar o passo para fugir do começo “da chuva das duas”, como está na canção de Edyr Proença e Adalcinda Camarão, de 1977, do “Três Canções para Belém”. Deixara em casa, sem prosseguir, alguma coisa do próximo texto para publicação neste espaço, pois parecia um daqueles momentos em que nada consigo escrever, os temas parecem inadequados enfim… Quando acontece um angustiante “branco” em minha cabeça.
Com precisão de logo voltar, entro pela porta semiaberta de antigo comércio, um casarão de esquina,  da antes Travessa da Glória, hoje Rui Barbosa. Observo no teto a única lâmpada acesa a iluminar parcamente o ambiente. Enquanto acostumo os olhos peço, no balcão, um café coado servido pela simpática atendente que sorriu para mim. Olho em volta, a casa parece vazia a não ser pela presença de dois homens sentados em uma mesa ao fundo. Parecem moradores das redondezas e aparentam ter entre setenta e oitenta anos. Escuto  a conversa, em meio tom, e ela permite distinguir um nome repetido por um deles, em voz mais alta: Semblano…
Lembrei então da mãe de meu pai que veio da Vigia, para estudar na Escola Normal e aqui ficou. O prédio das normalistas está no mesmo local até hoje. Nele também funcionou um jornal. Com a morte de Dr. Assis, Antonio Lemos adquiriu A Província do Pará por dez reis de mel coado mudando a sede para lá. E afinal o que esse nome __ Semblano __ tem a ver com isso? Contava minha avó Esther que “o” velho Lemos, no auge de seu prestígio, bem antes de ser escorraçado e expulso de Belém acusado de ser o autor intelectual do inacreditável atentado contra Lauro Sodré, fez amizade com um português, dono de padaria, que todos os dias, bem cedo o visitava no jornal, levando o pão quente da primeira fornada. Conversava com o intendente e vivia a preveni-lo sobre cuidados com os bajuladores que o cercavam apenas por interesses pessoais e, na maioria, escusos. São traidores, dizia. Lemos retrucava atribuindo o cuidado às boatarias e falatórios que se ouvia nas ruas. Era rico, dono de jornal com prestígio nacional. Tinha, ou pensava assim, influência para controlar os aspectos políticos. Nada o abalaria. O português, que não desistia da ladainha diária desprezada por Lemos. Chamava-se Semblano.
A lenda contada pela professora vigiense Esther Nunes Bibas, lembrava ainda que Lemos em 1912, há cem anos, portanto, deixava Belém na condição de exilado para nunca mais voltar, pois morreu um ano depois. À beirada do navio, ao olhar para a orla da cidade que se afastava, teria dito para alguém que estava ao seu lado: “O Semblano é quem tinha razão”. A expressão virou dito popular. Por algum tempo foi repetida para indicar algum golpe, armação, traição no feitio de puxassaquismo ou coisa que o valha. E foi assim que pude concluir mais esta crônica. Apressado, nem perguntei, para agradecer aqui, o nome do cidadão que me ajudou, de certa forma, a escrevê-la.

[jb]


Curiosamente, quando vi dois livros de Esther Nunes Bibas disponíveis no acervo digital de obras raras da Biblioteca Pública Arthur Vianna, busquei, nos e-mails pretéritos, possíveis referências que o JB tivesse feito à sua avó paterna; encontrei esta crônica, de fevereiro de 2012, inédita no BF não sei se publicada noutro canto —, como mensagem não lida.
Na realidade o e-mail é de 29 de março de 2014 e foi endereçado a mim e ao professor Marcellino Moreno de título Esquina e preâmbulo  Tenho a impressão, mas não a certeza, que a esquina do texto de 2012, a seguir, é a mesma que falamos na quinta-feira. [jb].
As quintas-feiras eram sagradas às nossas cervejas no Rosso e Bianco pós aulas na UFPA, mas o Jaime começou a pegar faltas em setembro de 2014; daí, por solidariedade e saudade, abandonamos essa boa escola da boemia vizinha ao prédio dele.
Bibas anda recluso, contudo, permanece como editor vitalício deste site.

[hb]

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Uma resposta para As razões de Semblano; por Jaime Bibas (fevereiro de 2012)

  1. José Maria De Castro Abreu Jr disse:

    No Livro do Carlos Roque, sobre o Lemos, ele diz que Semblano era um português, figura que tinha um estabelecimento popular ali na Cidade Velha, que vivia em cima do muro quanto perguntavam a respeito de “Lemistas” e “Lauristas”. Um dia botaram pressão nele para dizer o que achava, qual era o lado melhor. Ele como bom lusitano disse: “São todos uns filhos da puta”. A história chegou ao Lemos, de resto é a mesma coisa, quando deposto ele teria dito ao ir embora “O Semblano é quem tinha razão”.

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