Mais uma polêmica na rica ornamentação da belle époque paraense. O imbróglio envolve o questionamento de que as figuras que hoje ornamentavam o Pavilhão Harmônico 1º de Dezembro (Coreto Egydio Machado Salles) na Praça Batista Campos, em Belém, foram originalmente concebidas como serpentes aladas, e não como cisnes. A questão começa pelos cisnes atuais, que a população conhece há décadas foram colocadas no local (em 1987), na administração do prefeito Coutinho Jorge, substituindo elementos ornamentais antigos que haviam se perdido com o tempo, conforme o estudo do grupo do Laboratório Virtual ─ FAU ITEC UFPA. O questionamento sobre as serpentes aladas originais começou no projeto Belém de Outrora, coordenado por Felipe Pereira Rissato, divulgado nas redes sociais, revelando que a ornamentação primitiva original do coreto, no início do século XX, era composta por serpentes aladas e não por cisnes. Rapidamente houve repercussão, que gerou debate entre os frequentadores e amantes da história da cidade, dividindo opiniões entre os que já se acostumaram aos cisnes tradicionais e os que se surpreenderam com a estética original mitológica e simbólica das serpentes aladas.
Cabe sim uma explicação histórica. Acreditamos que a pesquisa do grupo Belém de Outrora está correta. A serpe ou guivra fez parte do imaginário político e artístico de monarquistas e republicanos no Pará do século XIX e do início da Republica. Semelhante a um dragão, e frequentemente uma cauda pontiaguda no qual dita ser um ferrão venenoso em forma de lança, a serpe, nas suas mais variadas formas, é bastante representada na heráldica medieval fez parte do brasão português da dinastia dos Bragança, sendo incorporada à Casa Imperial do Brasil. Ao contrário do que ocorreu em Portugal, quando os republicanos rejeitaram o uso da serpe no novo regime, no Brasil, especialmente no Pará, a serpe continuou entronizada nas primeiras décadas da República, em todo tipo de uso de ornamentos tanto públicos como privados.
Serpes como suportes do brasão da portuguesa Casa de Bragança.
Brasão do Império do Brasil, 1 Reinado (Armas Nacionais, c.1824).
A serpe no cetro imperial do Brasil em “Dom Pedro II na abertura da Assembleia Geral”, de Pedro Américo de Figueiredo e Mello, ol. s/tela, 1872.
Na ilustração comemorativa da Proclamação da República Portuguesa, a serpe real abatida é vista na base da ilustração e simboliza a queda da monarquia portuguesa.
Cabe portanto explicar que o encanto paraense com a fantasia das serpes, porém, é muito mais profundo, como já pudemos revelar no livrinho A história da arte e as imagens da Amazônia, publicado pela Valer, em 2024. Nele demonstramos como a mitologia das amazonas da antiguidade clássica é crucial para se entender esse repertório de imagens. Em resumo, a serpe adornava o capacete utilizado pelas rainhas das amazonas, como foram Hipólita (a mesma que aparece nos quadrinhos como mãe de Diana, a mulher maravilha) e Taléstris, a que teve o célebre encontro com Alexandre Magno, assunto de um dos poemas do bardo paraense Bruno Seabra, na década de 1880.
Thalestris, rainha das Amazonas visitando Alexandre. (Roma, 1696)
Interessante pensar que apesar de ter acontecido século depois, a troca ou variação da serpe pelo cisne na praça de Batista Campos não foi algo incomum. Acontece, que no contexto da ilustração europeia do século XVIII, muitas vezes essa representação da serpe alada se confundia ou era substituída por pássaros, faisões, gansos e cisnes, muito ao gosto na nova burguesia do norte da Europa.
A serpe em forma de pássaro no capacete de Thalestris, Rainha das Amazonas. De uma antiguidade curiosa e valiosa. J. Chapman Sculpsit. Londres, 1797 por J. Wilkes.
Em Belém, as serpes e também as harpias estiveram em voga nas ultimas décadas do Império e no início da República como se pode ver tanto nos célebres candelabros da Catedral de Belém (c.1882), como nas harpias pintadas na sala pompeiana do Palacio Lauro Sodré por Joseph Cassé, em 1904.
Candelabro parietal com Serpe da Catedral de Nossa Senhora da Graça de Belém do Pará, c.1882 (Archivio di Stato di Venezia, Italia)
Harpias, Joseph Cassé, pintura parietal, c.1904 (Palácio Lauro Sodré, Belém)
Esse repertório mitológico clássico, já está suficientemente claro, fazia parte do universo iconológico e político de gerações intelectuais, artistas e gestores de governo entre o Império e a República, o que ajuda não somente a explicar a presença das serpes aladas no coreto de Batista Campos, como sua troca tardia por cisnes igualmente integrados no repertório romântico belepoquiano tão evidente na praça. Recordar inclusive que gansos e cisnes também foram pintados tanto no palacete Faciola como no próprio palácio Lauro Sodré nas primeiras décadas do século XX. Eu acredito que está tudo em seu lugar, tanto prova que a população da cidade gostou dos cisnes. Talvez a lição dessa polêmica tenha muito a ver com a potência dessas imagens, serpes e cisnes, já estavam devidamente integrados no nosso atlas imagético, para lembrar aqui o historiador Aby Warburg.
Deixemos os cisnes na Batista Campos e as serpes no mundo das Amazonas e no altar da Sé. Tudo está em seu lugar.




































































