Pós-Modernismo: nascimento e morte; por Paulo Polzonoff Jr.

Quem vai a uma exposição de artes plásticas, dificilmente escapa do termo. Geralmente o curador da exposição o repete de dois em dois minutos. E lá está ele, o pós-modernismo, bebericando o vinho branco junto aos demais visitantes. Poucos o compreendem, na verdade. E não é à toa. Na literatura ele, o pós-modernismo, é mais tímido como termo, mas apenas para os leigos. Nas universidades ele é usado com a maior banalidade possível. É pós-moderno para cá, pós-moderno para lá. Tudo, na verdade, que se produziu nos últimos 30 anos pode ser chamado de pós-moderno, ao menos para os acadêmicos. E ninguém nos avisa?
Mas há um momento histórico marcante que delimite este momento cultural? Ao que parece, não. O pós-modernismo surgiu exatamente da falta deste momento histórico determinante. Por este prisma, ele é simplesmente a queda natural do movimento moderno, que atingiu seu ápice ainda na década de 20. Não por acaso o termo tem sido substituído por algo que é historicamente mais correto: baixo-modernismo. Isto é, o modernismo já em decadência.
Curioso é perceber que o pós-modernismo deve ser o único dos movimentos culturais a ter data e hora – isso mesmo: hora! – para nascer. O arquiteto Charles Jencks decretou como hora oficial da passagem do modernismo para o pós às 15h32 do dia 15 de julho de 1972. Neste dia e a esta hora o edifício Pruitt-Igoe, projetado dentro dos parâmetros modernistas de Le Corbusier para abrigar pessoas de baixa renda e depois considerado inabitável, foi posto abaixo numa simples demolição em Saint Louis, Missouri, Estados Unidos. O espaço aberto pela construção de pouco menos de 20 anos e premiado anteriormente pelo American Institute of Architects abriu uma brecha ideológica entre os arquitetos, que viram no meio dos entulhos do ideal demolido múltiplas possibilidades de não só se reverter o quadro de deterioração do velho, isto é, do moderno, como também de criar algo inusitado. A demolição de Pruitt-Igoe foi simbólica, mas deixou uma mensagem cuja herança é bem real: as paredes do novo ruíam para surgir o pós-novo. O que não deixa de ser significativo é saber que nos 34 acres sobre os quais se erguiam os prédios de Pruitt-Igoe até hoje nada foi construído.
Há controvérsias, como não poderia deixar de ser. Os mais empolgados dizem que o pós-modernismo nasceu ainda na década de 30. O que seria espantoso, se levarmos em conta que a Semana de 22, marco do modernismo brasileiro, foi realizada apenas oito anos antes. Mas é o que garante Perry Anderson em seu As Origens da Pós-Modernidade (1999). Neste texto, ele conta que foi um amigo de Unamuno e Ortega, Frederico de Onís, que imprimiu o termo pela primeira vez, embora descrevendo um refluxo conservador dentro do próprio modernismo.
Apesar dos muitos pais e muitas mães, parece que a arquitetura foi mesmo o ponto de partida do pós-modernismo, que mais tarde infestou as artes plásticas, a literatura e a música. Além disso, por sua amplitude e vacuidade, também foi usado por tendências ideológicas as mais diversas, como contestação ao capitalismo e à globalização. Moda nas universidades, o pós-modernismo virou um lucrativo filão para os acadêmicos. Bolsas de estudos para pesquisas pós-modernas nunca faltaram.
As artes plásticas são mesmo o campo mais minado para este tipo de discussão. O pós-Modernismo se incorporou de tal forma ao vocabulário dos artistas e marchands que é praticamente impossível dissociá-lo de qualquer coisa produzida nos últimos 30 anos, no Brasil e no mundo. Aos poucos, contudo, o termo começa a perder seu viço, teórica e pragmaticamente. Tanto é assim que um dos templos do Pós-Modernismo nas artes plásticas brasileiras, a Bienal de São Paulo, anunciou recentemente a volta das pinturas em suas paredes.
No bojo do pós-moderno literário cabe tudo. Há listas que incluem Millôr Fernandes, José Saramago e Rubem Fonseca no mesmo balaio dos poetas concretos, práxis e neoconcretos.
Quando se trata de pós-modernismo, no entanto, nada é tão simples quanto parece. Tanto é assim que a vanguarda do movimento tem duas frentes, a dos catastrofistas e dos neocatastrofistas. Os primeiros acreditam não só que o tempo está desgastado, como é inútil. Preferem usar o termo “contemporâneo” para substituir o obsoleto “pós-moderno”.
Na música é que este movimento se revela mais intensamente. Para os teóricos, o pós-modernismo apenas resvalou na música, em movimentos como o Tropicalismo brasileiro. As diferentes correntes da música eletrônica já pertenceriam a outra vertente. Seria um movimento contemporâneo, totalmente dissociado, pois, do modernismo, que é coisa de velho.
Os neocatastrofistas, por assim dizer, são mais radicais. Guiados pelo espírito demolidor de Francis Fukuyama, que na década de 90 chocou o mundo com uma tese ininteligível na qual propunha o “fim da História”, eles dizem que o Pós-Modernismo acabou, sim, mas a busca por outro forte movimento cultural não cessou. A explicação é interessante. O pós-modernismo, ou baixo-modernismo, como preferirem, morreu porque sua existência só tinha sentido no enfrentamento do modernismo, que praticamente se extinguiu.
A galhofa, por incrível que pareça, tem sentido. Perdidos entre tantos termos, há quem aposte num regresso às artes ditas puras. É um movimento que encontra seu principal expoente na literatura, onde as formas clássicas vêm ganhando cada vez mais espaço entre os jovens poetas. Gente como Glauco Mattoso, que mistura a métrica perfeita dos sonetos com a temática moderna do homossexualismo e da podofilia. Muitos apostam também no ressurgimento da pintura tal qual a conhecemos desde o século 16.
É um retorno ao antigo, travestido de progresso.

Texto retirado da revista Continente Online.

Postagem a partir de tema sugerido pelo professor Fábio Mello.

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