Março: um mês feminino


Doutora Rita Lobato Velho Lopes (1867-1960).

Decreto imperial possibilitou a diplomação da primeira médica no Brasil
“Atualmente, as mulheres não encontram nenhuma dificuldade no acesso aos cursos superiores e à universidade, mas nem sempre foi assim”. A afirmação é de Maria Regina da Cunha Rodrigues Simões de Paula, professora de pós-graduação em História Social da USP que pesquisou sobre a vida profissional da primeira mulher diplomada no Brasil, a médica Rita Lobato Velho Lopes (1867-1960). “Com o impedimento existente na época, ela só pôde iniciar seus estudos depois da promulgação de um decreto-lei rubricado pelo próprio imperador D. Pedro II”, conta a professora, ressaltando que a discriminação contra a mulher universitária continuou a existir no meio acadêmico até pouco tempo.
Maria Regina interessou-se pela história depois de analisar uma cópia do diploma de Rita Lobato Velho Lopes publicada no livro Memorial da Medicina, editado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, em 1963. A partir do texto do documento, datado de 11 de dezembro de 1887, no qual pode-se ler “para que possa exercer a respectiva profissão com todas as prerrogativas concedidas pelas Leis do Império”, ela estudou a legislação anterior até chegar ao decreto-Lei nº 7247, de 19 de abril de 1879, proposto pelo Conselheiro Leôncio de Carvalho e rubricado pelo imperador, que abria inscrições às mulheres. “É um decreto revolucionário, de alcance social”, diz.
Procurando bibliografia sobre o assunto, a pesquisadora cruzou documentos e referências em obras temáticas que a fizeram conhecer a história da médica. Ela nasceu em São Pedro do Rio Grande, na então província do Rio Grande do Sul, em 1867, filha de um casal de estrangeiros. “Curiosamente, no pergaminho da Carta Doutoral não há referência ao nome da mãe, Dona Carolina, que é lembrada com ênfase na dedicatória da tese doutoral, arquivada no Museu de Medicina da Bahia”, relata Maria Regina, dizendo que foi graças ao pedido feito por ela ao marido pouco antes de morrer que a jovem Rita realizou seus estudos acadêmicos. Cumprindo sua promessa, o pai, Francisco Lobato, se desfez de seus negócios e acompanhou a filha até o Rio de Janeiro, onde ela cursou o primeiro ano de faculdade, e depois a Salvador, onde foi a única a concluir o curso, quatro anos depois. “Todos os dias ele a acompanhava até a faculdade, protegendo-a e prestigiando-a”, conta a pesquisadora.
De acordo com Maria Regina, mesmo sendo muito requisitada pela sociedade baiana durante os anos de estudo, Rita Lobato só se casou com seu namorado de infância, comerciante em Rio Pardo, depois de voltar para o Rio Grande do Sul. Especialista em ginecologia e pediatria, ela passou a clinicar em casa e nos arredores da cidade, atendendo a população mais carente, assim como no hospital, onde teria sofrido muita discriminação por parte dos outros médicos. Com a abertura dos votos para as mulheres, Rita ingressou na carreira política, tornando-se vereadora em Rio Pardo. Morreu em Porto Alegre em 1960, aos 93 anos.
Concluída a pesquisa, Maria Regina elaborou uma matéria na área de História da Ciência que resultou em convite para participar de um simpósio interdisciplinar de História da Ciência, na XXXIX Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1987, em Salvador. O resumo da comunicação está publicado nos anais da SBPC, enfatizando o primeiro centenário da diplomação da primeira médica brasileira. “No debate que seguiu a comunicação, fui informada de histórias de mulheres que se formaram em Medicina no exterior, mas afirmei que meu interesse era lembrar a primeira médica diplomada e profissional no Brasil e não rastrear outras diplomadas no exterior”, diz a pesquisadora.

Fonte: Agência USP de Notícias.

Leia também a Biografia de Maria Augusta Generosa Estrela (PDF), primeira brasileira a graduar-se em medicina; neste caso no exterior com bolsa instituída (também) por decreto imperial, no New York Medical College and Hospital for Women.

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Ações integradas de ensino, pesquisa e extensão da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará - em atividade desde maio de 2010. Prêmio Prática Inovadora em Gestão Universitária da UFPA em 2012. Coordenação: professor Haroldo Baleixe.
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1 respostas para Março: um mês feminino

  1. José Maria disse:

    Vale lembrar que Dom Pedro II fez este decreto por causa de Maria Augusta Generosa Estrela que teve que com muito sacrifício realizar o sonho de ser médica no exterior. Para que isso não mais acontecesse o Imperador abriu as portas do ensino superior no Brasil para as mulheres.

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