Às oito horas da manhã de sexta-feira…; por Jaime Bibas

A notícia veio pelo telefone. Milton Monte se foi daqui cansado, talvez, dos padecimentos impostos ao seu corpo, que lhe privaram do movimento livre sem, no entanto, apagar o brilho intenso, o entusiasmo de um cérebro privilegiado.
Difícil escrever sobre um amigo que a gente perdeu, mais difícil quando por tempos ficamos afastados e agora, um estranho silêncio só permite relembrar dos primeiros desenhos no curso de arquitetura que se iniciava por aqui, do futebol jogado na velha quadra de cimento cheia de remendos, tempo em que havia menos rumores nas ruas, algum rádio ligado num programa qualquer, do sol que entrava pelas frestas das venezianas, sempre no mesmo ângulo, com intensidade igual de luz e desenhava sombras, da chuva protegida pelo beiral, que podíamos apreciar com a janela aberta.
Depois a própria vida se encarregaria – é notório – de nos tornar triviais, de dificultar os caminhos que cada um teve que andar, deixando no ar pendurados, suspensos, instantes de serenidade, de conversas que buscavam espaços em desenhos inacabados.
Agora falo sozinho, é claro, não é possível obter respostas. Mais um amigo que já deve estar longe demais. Quanto a mim fico ainda por aqui enquanto isso a mim é permitido. Um dia se for possível nos encontrar, reuniremos com os outros que também se foram, e quem sabe? Organizaremos um time de futebol, ou simplesmente jogaremos conversa fora sobre um raio de luz a desenhar sombras.
O tempo tem passado rapidamente. Farei todo o possível, hoje, para não ficar melancólico.

Sobre o Projeto Laboratório Virtual - FAU ITEC UFPA

Ações integradas de ensino, pesquisa e extensão da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará - em atividade desde maio de 2010. Prêmio Prática Inovadora em Gestão Universitária da UFPA em 2012. Coordenação: professor Haroldo Baleixe.
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1 respostas para Às oito horas da manhã de sexta-feira…; por Jaime Bibas

  1. Não me surpreendes na escrita, em especial sobre o Monte, como era conhecido. Acho que perdemos um amigo, do qual os caminhos nos afastaram, mas, também um arquiteto, que na sua simplicidade cabocla sabia traduzir com seus traçados a grandeza da arquitetura.
    Como poucos dava alma aos seus projetos, traduzia a cultura, subordinava- se a natureza, esta que nos impõe severa radiação solar, chuva inclemente e sufocante umidade do ar.
    Valeu J, pelo registro que faz do nosso eterno mestre Monte.
    Cicerino

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