Como se chegava ao Hospital Domingos Freire?

BF Cemitério - Domingos Freire
Imagem ampliável para melhor visualização (opção em PDF).

Theodoro Braga, no Guia do Estado do Pará de 1916, na página 56, diz: “… Adiante, deixando á esquerda o hospital Domingos Freire e á direita, o novo e não acabado convento dos frades capuchinhos, chegamos ao fim da linha, e onde estão situados os cemiterios da cidade: o Publico, o da Ordem 3ª de São Francisco e o dos Israelitas. De volta, e á direita, podemos ver, ao longe, a massa branca do edifício, em meio da mata verde, do hospital Domingos Freire, para os tuberculosos…” (sic).
A descrição do lugar, visto da janela de um bonde no ano de 1915, parece insuficiente à montagem de um cenário, contudo, se associada à aerofotografia publicada em Situação e locação aproximadas do Hospital Domingos Freire, a circunstância torna-se diversa; é o que dá alento à equipe do Laboratório de Historiografia e Cultura Arquitetônica, coordenado pela professora Celma Chaves Pont Vidal.
Discussões animadas com o professor Fabiano Homobono geraram algumas especulações; plausíveis, mas carentes de comprovação documental:
Quando se associa o Domingos Freire ao Barros Barreto torna-se difícil crer que o acesso a ele fosse outro que não a rua dos Mundurucus, afinal, há muito nos habituamos aos gradis do Cemitério de Santa Isabel, pela José Bonifácio, em boa lonjura, da esquina da Paz de Souza até a Escola Estadual Paulo Maranhão ‒ em um quarteirão com mais de 500 metros sem nenhuma conexão externa à Barão de Mamoré.
Mas o Santa Isabel não foi sempre assim, cresceu com os anos, ocupando áreas no sentido Norte, até desenhar-se como hoje.
Antonio Lemos, em seus relatórios de 1902, 1905 e 1908 
‒ esse último dá a saber que, por sua intenção e esforços, o Cemitério chegaria na rua dos Pariquis ‒, mostra o crescimento da necrópole a partir de sua área original, calculada em 1880, pela multiplicação dos 292,20m de frente pelos 339,10m de fundo.
Sobre o primeiro acréscimo diz Lemos: “… expropriei um terreno contíguo áquelle e de propriedade de Manoel Severo de Souza e sua mulher… ” (sic), “… Esse terreno mede 6 braças* de frente, com os fundos até ao igarapé Tucunduba… “. (À página 213 do Relatório de 1902).
A segunda expansão aparece no Relatório de 1905, à página 77: “Reverteram ao usufruto do Município o terreno de 6 braças de frente e 150 de fundos, aforado a Cesario Naziazeno Gregorio; e o de 10 braças de frente, com egual fundo ao do primeiro, aforado a Margarida Maria do Carmo; ambos contiguos ao referido cemiterio” (sic); no geral, tem-se um avanço de 35,52m além dos já computados 13,32m: ou 48,84m distantes da fronteira original, 16,41% de ganho em relação ao quadrilátero do século XIX.
Por último Lemos dá ao conhecimento de todos, na página 213 do Relatório de 1908, sua pretensão como intendente: “… Releva ainda notar que o grande numero de sepulturas perpetuas, cujo total é de 1.781, occupa uma superfície de 4.310m²02 da qual o cemiterio perdeu a propriedade e se não pode de modo algum utilizar. Por essas razões estou tratando de ampliar ainda o cemiterio até a rua Pariquis” (sic); logo, a Pariquis era materializada, caso contrário a ela Lemos não se referiria como “mestér” de sua campanha de conquista territorial ‒ que ele não dista por número, mas pelo marco Pariquis ‒ para “fazer crescer” o “campo santo”.
Como os dados são insuficientes, não é possível estabelecer agora, no mapa, um limite fiável que represente a Pariquis, já que não se sabe como e quando ocorreram as ocupações das áreas posteriores às autenticadas pelo Intendente ‒ precisaríamos de outra investigação para identificar esses processos de extensão do cemitério no pós-Lemos.

Das especulações:
Supondo que as árvores sejam centenárias, há de se observar que, justamente nas marcações das somas ao terreno primitivo do Santa Isabel, é onde se tem, pelo menos de modo aparente no Google Maps, as mais regulares fileiras transversais (direção Leste/Oeste) compostas por mangueiras; sobre o prolongamento da Pariquis, em risco que junta dois pontos lógicos, percebe-se uma ordem mais alongada, “extrapolando” os muros da cidade dos mortos.
O cemitério de Santa Isabel desde 1880 possuía uma área estabelecida que, por si só, impediria o traçado da rua dos Caripunas em plantas de Belém contemporâneas ou extemporâneas ao período, exceto as pretéritas; já a rua dos Pariquis, que consta na escritura do Hospital Domingos Freire, é um dado sólido, senão, registro cartorial.
Desse modo surge a hipótese de que havia um caminho arborizado na altura da rua dos Pariquis em direção à Barão de Mamoré, chegando-se por esse trajeto ao portão de ferro com a inscrição em relevo Hospital Domingos Freire.
Não encontramos evidências concretas que factualizem tal lucubração (ou a descarte), muito menos que os pés de manga tenham sido planejadamente plantados, ou mesmo: que já passem, atualmente, dos 100 anos.
Isso tudo pode cair por terra e virar piada acadêmica, mas, como diria Millôr Fernandes: “Livre pensar é só pensar.“; portanto: aprendamos com os erros, porque os acertos estão encaix(ã)otados para descansar em paz no cemitério das criatividades.


bra

Apesar de alguns sites considerarem a braça com 2,2m; trabalhamos com a definição da Wikipédia: 2,22m ‒ por ser a mais popular informação da Internet contestável por colaboradores ‒; a diferença: 0,44m para menos em 48,84m.
O verbete acima pertence ao Aurélio.

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2 respostas para Como se chegava ao Hospital Domingos Freire?

  1. Lucas A Almeida disse:

    Muito legal essa “especulação”, mas como comprovar?
    Mangueiras seculares, será?
    Acho que tem como saber a idade das árvores, só não tenho ideia de como é que faz.

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