Ficção e realidade em O FANTASMA (1996), de Simon Winger

Na postagem: HQ – Clippers & lanches; por Fabiano Homobono, o professor Fabiano recorre ao filme THE  PHANTOM — 1996 (O Fantasma, no Brasil) — para presumir um padrão tipológico aos aeroportos dos hidroaviões que amerissavam em  rios e baías pelo mundo afora no final da década de 1930 (precisamente em 1938), independentemente das companhias que os operavam – no caso para “ilustrar”, hipoteticamente, o hidroporto da Condor, à margem do rio Guamá, já que dessa edificação ribeirinha não possuímos fotografias do período em que o SYNDICATO CONDOR LTDA SERVIÇO AÉREO era hóspede daquela área.
Analisando as imagens da cena escolhida por Homobono, somada a outra mais adiantada da película, observamos alguns fatos curiosos onde, por vezes, a ficção tem base na realidade; noutras, nem tanto.
Veja a primeira cena com comentário abaixo da tela:

No início se vê o hidroporto da PAN AMERICAN AIRWAYS SYSTEM em Nova York como um “padrão mundial para viagens aéreas”; temos aí um prédio construído em madeira, com refrigeração (por um único aparelho de ar condicionado) na sala de embarque; o RAY’S CLIPPER LUNCH (SANDWISH – HOT COFFES – SODAS) é a lanchonete do complexo, aparentemente sem conexão com o espaço reservado aos passageiros que viajarão no ORIENT CLIPPER.
As fotos que ilustram Os boêmios da Condor no final dos anos 1930 mostram o Bar da Condor — possivelmente entre 1947 e 1949; e, em 1953 —, numa edificação mesclada por alvenaria e madeira que nada mais tem a ver com um hidroporto; portanto, o que dispomos, não reforça, nem descarta, a possibilidade comparativa apontada por Fabiano: de que o Bar da Condor seria um apêndice do aeroporto, uma espécie de JOÃO DE BARROS’S CLIPPER LUNCH no ano de 1939.
Já o hidroavião batizado de ORIENT CLIPPER, é um aparelho ficcional, não listado como clipper (todos os aviões da PAN AM assim foram nomeados) — checar em PAN AM CLIPPERS NAMES 1934-1991.
Outro elemento controverso do cenário é o outdoor Via PAN AMERICAN GATEWAY TO THE ORIENT, já que sua pintura mostra amplitude horizontal, mesmo com o posicionamento distinto da aeronave, do que fizera o ilustrador Paul George Lawler para cartazes da PAN AM:

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O real e sua adaptação ao imaginário.


A outra sequência de imagens de O FANTASMA sataniza, no Pier Eleven em Manhattan, o DOWNTOWN SKYPORT, mas com placa indicando uma certa incoerência ao glamour dos que possuíam aviões particulares: AMERICAN EXPORT PASSENGER SERVICE CUBA MEXICO BRAZIL URUGUAY; pois tal local, pelo que se perceberá na sequência deste post, parecia reservado aos endinheirados de Wall Street, como o vilão Xander DRAX, piloto e/ou navegador — bem distante do “padrão mundial para viagens aéreas” da PAN AM, retratada como popular, se confrontada à vizinhança do 120 Wall Street.
Outro fato improvável, que subtrai a coerência fantasiosa do filme, é a autonomia do aeroplano bimotor com a logo de DRAX, de matrícula NC1042 em 1938 — numeração inferior às grafadas em 1936 e 1937 —, carregando o Fantasma de Nova Iorque à Ásia (Mar Amarelo, ilha Vortex do Diabo) sem nenhum reabastecimento.
O DOWNTOWN SKYPORT fora retratado na segunda metade dos anos 1930 por duas pioneiras fotógrafas profissionais: BERENICE ABBOTT (1898–1991) e MARGARET BOURKE-WHITE (1904–1971):

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Berenice Abbott: Downtown Skyport, Pier Eleven, East River, Manhattan fotografia tirada em 12 de agosto de 1936.

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Margaret Bourke-White: fotografias do Downtown Skyport no ano de 1937 para a revista LIFE. (Siga o hiperlink e veja mais fotos do Pier Eleven feitas por Margareth.)

Provavelmente as clássicas fotografias acima serviram de referência à cenoplastia de O FANTASMA, mesmo que incompatíveis com a razão que a mentira da fita deveria possuir para convencer o cinéfilo da existência de um espectro.

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Uma resposta para Ficção e realidade em O FANTASMA (1996), de Simon Winger

  1. Vou rever esse filme que assisti tem uns 15 anos mas lembro que gostei muito na época.
    Achei que esse “porto aéreo do centro da cidade” fosse mesmo para ricos, basta ver que no aeroporto de madeira tem um cobrador de tíquetes na porta do avião como se fosse um ônibus.
    Todo mundo feliz nas fotografias rindo à toa, até o puxa saco do piloto segurando a mão do patrão bilhardário.

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