Reitoria da UEPA é o Velho Casarão da Penitenciária


As duas fotografias acima foram gentilmente cedidas ao Laboratório Virtual pelo Instagram belém_da_memória, lá colorizadas, de modo digital; tais imagens, assim recebidas,  elucidam questões levantadas pelo LV: a primeira confirma que o Castelinho da UEPA possuía 3 pavimentos e não dois como hoje; por outra visada deixa evidente que o Castelinho teria uma passagem coberta de dois níveis ao prédio principal, chamado pelos jornais de Velho Casarão da Penitenciária, certamente destinado à administração geral do complexo e não à parte prisional que ocupava o próprio Castelinho, uma torre circular com cúpula e outro prédio (posterior) semelhante ao Castelinho, conjunto operacional interligado aos raios de celas prisionais dispostas de modo pan-óptico por afirmativa de seu autor, o engenheiro civil Henrique Américo Santa Rosa.

Observemos o desenho feito pelo professor José Maria Coelho Bassalo ao entendimento coletivo do plano de Santa Rosa: por falta de informações não foi traçada a interligação entre o Castelinho e o prédio principal, ou Velho Casarão da Penitenciária — este seria uma das três ostentações republicanas do primeiro governo de Lauro Sodré junto com o Colégio Gentil Bitencourt e o Instituto Paraense de Educandos Artífices (Lauro Sodré antes mesmo de ocupar o novo prédio no Marco da Légua).

junt
Belém da Memória afirma, no Instagram, que o ano das fotografias é 1927, sem citar fonte; mas as duas fotos sinalizam o Velho Casarão da Penitenciária inacabado e abandonado (invasão da vegetação), como estaria de fato em 1927.
Consultado o professor Márcio Barata, pesquisador de materiais e técnicas construtivas antigos, chama-nos a atenção às diversas marcas alinhadas horizontalmente nas paredes da construção (integrados: Castelinho e Casarão em uma só obra): são as vigas de madeira estruturantes dos andaimes conforme mostra a fotografia primitiva que temos da Penitenciária do Estado do Pará publicada em 1898:

Outro fato é que tanto na imagem primitiva (1898) quando na de 1927 não se percebe nenhuma vedação dos vãos (janelas e porta) à exceção do paredão do segundo andar do Velho Casarão; possivelmente tal tampamento foi o improvisado no ano de 1920 para transformar tal prédio na Hospedaria de Imigrantes, apelidada de Hospedaria dos Flagelados — a histórica e oficial Hospedaria dos Imigrantes estava localizada na ilha do Outeiro, mas em 1920 o estabelecimento público que tinha capacidade para 300 pessoas abrigava oitocentas.
Tal demanda fez surgir a Hospedaria dos Flagelados no prédio inacabado da Penitenciária e outra na Alfândega pelo “… lado da travessa da Industria…”.

O jornal Estado do Pará de 01FEV1920 relaciona as obras emergenciais necessárias à Penitenciária para se transformar em Hospedaria dos Flagelados (do Nordeste, do Ceará, da Seca…) orçadas em 4:200$; das quais reproduzimos o … collocar alpendres de madeira em seis vãos de janelas exteriores de modo a impedir a passagem da chuva… que parece ser ilustrado pela foto de 1927 onde não se vê janelas e bandeiras como hoje e na conclusão dada pela interventoria federal do major Magalhães Barata para ser o grupo escolar Augusto Montenegro registrado em janeiro de 1934 pelo periódico carioca A Noite Ilustrada — observar, também: o acréscimo da platibanda ao escondimento do telhado e o desalinhamento dos janelões marcado na construção original que sugere o uso de grades (nos seis vãos mencionados).
Ainda não descobrimos por quanto tempo a precária Hospedaria dos Flagelados ocupou o Velho Casarão da Penitenciária (de 1920 a 192..), entretanto, um rápido levantamento em notas do Estado do Pará diz que entre 04 de março e 17 de abril de 1920 nove pessoas morreram na hoje Reitoria da UEPA; dessas se tem certeza que sete eram crianças entre 8 meses e 8 anos de idade vítimas de enterites ou gastroenterites dadas as condições insalubres do lugar — os nomes e sobrenomes dos falecidos estão nas fontes que revelam outras peculiaridades miseráveis da ocupação chancelada pelo segundo governo de Lauro Sodré (1917-1921).
Agora que consideramos o Velho Casarão da Penitenciária como um complexo é possível entender sua arquitetura de referência mourisca com arcos ogivais e plenos; falta-nos conhecer o desenho da cúpula da torre circular pan-óptica de vigia aos raios celulares.
Diante das novas informações trazidas nas duas fotografias de 1927 revisaremos todos os textos das investigações passadas que trataram distintamente os dois edifícios.

Fontes: recortes do Estado do Pará 01FEV1920/26MAR1935.


Postscriptvm (15JUN219):
Belém da Memória nos forneceu a fonte das imagens que enviou: o fotógrafo foi James Dearden Holmes (1873-1937) e a foto pertence a coleção World Travel by James Dearden Holmes. Holmes undertook a 3 year world trip undertaken between 1924 and 1927.

Esse post foi publicado em Arquitetura e Urbanismo, Fotografia antiga, História, Memória e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s