A “arara” que a cidade maltratou — Parte III; por João Carlos Pereira

Professora Graziela, segundo Elza Lima
A história humanizada de uma mulher que apenas queria amar
João Carlos Pereira
jcparis1959@gmail.com

Quando comecei a escrever sobre a professora Graziela, meu interesse era apenas a Arara. No máximo, aquela mulher a quem todos chamavam de louca. Havia um ser humano e uma personagem. Eu buscava a personagem. Depois do primeiro texto, o sentido da busca mudou. Por trás da caricatura existia uma criatura tão interessante, que a Arara perdeu a relevância. Na verdade, aos poucos foi desaparecendo de meus olhos e me tomei de tanta ternura pela pobre mulher, que comecei a procurar seu coração.
Aos poucos, iniciei a construção de um vitral humanizado. Fafá de Belém, numa longa conversa, me forneceu os primeiros e alguns dos mais importantes esboços. Outras pessoas também me auxiliaram. Na hora em que o neto da Professora surgiu, mais contornos se formaram. Mas foi com Elza Lima que a rosácea se abriu, permitiu a passagem de luz policromada e eu me descobri totalmente à vontade diante de alguém com quem conversei algumas vezes, mas cujo sofrimento acompanhava distância, desde a primeira vez que a vi, em Nazaré, e minha mãe me disse: “aquela é a Arara, ela é professora e o povo mexe com ela”. Não era a Jenipapo, também chamada de Martha Rocha, para criar um contraponto entre sua feiúra e a beleza de nossa eterna Miss. Tratava-se da professora Graziela.
Elza Lima é uma das pessoas mais meigas e de coração mais doce que conheço. Ela possui o jeito apressado de quem está sempre com um trabalho para realizar e por onde passa deixa um rastro de patchouli. Eu imaginava que, como eu, se banhasse de colônia feita à base da raiz, mas não. De há muito, ou desde sempre, hábito da avó, com quem foi criada, perfumava o guarda-roupa com saquinhos recheados da essência. Uma senhora prepara os sachês e os entrega na porta. O perfume envolve as roupas e a acaricia, penetrando seus poros para grudar na pele e completar a alquimia cheirosa da Amazônia tão amada. Ano passado, enquanto esperávamos a chegada da romaria fluvial, na Estação das Docas, ela olhou para a baía imensa e disse: eu não posso viver sem isso. Eu viajo, mas sempre volto e volto o mais depressa que posso para Belém”.
Com filhas pequenas, percebeu que o tempo-referência-de-lembranças, que é a infância, se perdia muito depressa. Por isso começou a fotografá-las. Era uma época em que as imagens também pareciam raridade. Filme caro, equipamento caro, revelação cara. Tudo caro. Mas era o preço que se dispôs a pagar para deter a escalada dos anos, pelo menos nas retinas artificiais feitas de papel.
Em 1986, Elza já estava ligada ao grupo Fotoativa, de Miguel Chikaoka e participava da segunda versão do projeto “24 horas de Belém”, um desafio de sair pela cidade e captar imagens que, por si, apresentassem a face humanizada da capital. Era um momento de pura experimentação e muito representativo. Seu olhar, como um farol, já sabia para que direção achar o brilho. O mágico Chamon foi sua primeira personagem e dele se lembra com grande emoção. “À vezes, ele mesmo comprava ingressos de seus shows e dava para as crianças. E vez de esperar que o público fosse até ele, ele ia até o público”, lembra. Chamon era um homem pobre, que amava sua arte.
Depois dele surgiu diante de suas lentes Graziela Guimarães Pimentel. As imagens captadas para o 24 horas de Belém, que renderam uma exposição no Museu de Arte na UFPa., abriram espaço para outros dias, muitos dias, de novas fotografias. O que Elza viu era o que a cidade conseguia perceber: uma senhora alterada, constantemente desancando sobre a única filha. Essa mulher deixamos para trás, cada um a seu tempo, Elza e eu.
A Arara-personagem entregamos ao consumo vampiresco de uma cidade que, às vezes, assemelha-se aos seres alados, aparentados do capeta, que saciam a sede com o sangue alheio, não possuem imagem refletida no espelho e são, estranhamente, desprovidos da alma imortal. Satanás a confiscou e eles ganham a eternidade dos mortos-vivos, sem direito à luz e à vida. Belém, em certos momentos, alimenta-se do sangue das criaturas mais infelizes e ainda ri delas.
A Arara das ruas foi fotografada com esmero e arte por Elza Lima. Os negativos e as cópias estão preservados, para jamais serem mostrados. Felizmente escaparam do mau-destino que levou-lhe uma autobiografia completa, escrita a mão, num caderno. Num dos muitos cadernos que, no vai-vem da vida, sumiram. “Eu nunca vou mostrar estas fotos. Para quê? Para confirmar o que todos testemunharam?” A fotógrafa se refere aos constantes desencontros entre mãe e filha. Ao que ninguém atentou foi o olhar, o doce olhar de Francisco Canindé, o neto, para a avó. O menino que a tudo testemunhou e muito sofreu foi a luz dos olhos da professora, seu bálsamo, o torrão de açúcar que adoçava uma rotina de humilhações.
Nos dias em que esteve mais perto da professora, Elza fez uma longa entrevista, não escrita, mas memorizada e nunca esquecida. A primeira impressão foi a de que falava muito bem. A segunda é que sempre foi professora, a vida toda, nunca teve outra profissão e que veio para Belém, para a antiga Vila do Pinheiro, mais especificamente, hoje Icoaraci, motivada por perseguição política. Tivesse continuado em Curuçá, provavelmente jamais teria experimentado os desgostos provocados pela anatomia de seu nariz.
A memória da professora era uma coisa prodigiosa. Em 1986, data das fotos, ainda lembrava do texto que escreveu e declamou, saudando a presença de Magalhães Barata, na “Escola Normal”. Meio século havia se passado e ela recordava de todas as linhas. Apaixonada por poesia, embalou a infância de Canindé com versos. Habituado ao clima poético da casa, tão diferente daquilo que ouvia na rua, pedia: “vovó, diga para ela aquele poema”. Eram muitas as solicitações e a Professora desfiava um poema atrás da outro. Elza ficava encantada.
Vivendo um cenário feliz, cumpriu o destino das moças do seu tempo e casou. No meio da relação, um novo amor surgiu em sua vida. A Professora, dignamente, não quis ser amante e separou-se. A família, conservadora, gente muito conhecida em Curuçá, não aceitou a “desonra” e jogou-a na rua. A explicação, agora com mais detalhes, coincide 100% com o que me disse a Fafá de Belém. “Ela criou a filha sozinha, e tudo que fez foi para garantir que a família sobrevivesse”. Severa Romana era uma marginalizada e Canindé, um reizinho. A maneira como se olhavam revelava a grande paixão que havia entre os dois.
A foto que usei na capa da primeira crônica foi produzida por Elza Lima, na antiga sede da Câmara Municipal de Belém. Candidata a vereadora, ficou com a primeira suplência do Partido Democrata Cristã, que elegeu Guaraci Silveira. É uma espécie de foto oficial. É Graziela Guimarães Pimentel despida da fantasia com que foi vestida. É a mulher refinada, que da vida queria apenas um amor.

P.S. Na próxima sexta-feira, prometo publicar um texto de Antônio Erlindo Braga, auditor aposentado do TCE, responsável pela análise do processo de aposentadoria da professora Graziela. É um documento riquíssimo, que deve ser preservado para a história, tamanha é quantidade de informações que contém. Poderia tê-las aproveitado aqui, mas desejo dar a Antônio Erlindo Braga o que a Antônio Erlindo Braga pertence.

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Uma resposta para A “arara” que a cidade maltratou — Parte III; por João Carlos Pereira

  1. George Bruno disse:

    Pior que eu devo ser parente distante dela. Minha família por parte de pai veio de Curuçá, é aparentada do Coronel Horácio, dono de um palacete na praça principal que pegou fogo recentemente, e professores da cidade. Sou descente da família Lima e Campos. Meu tataravô foi o capitão da guarda nacional João Malaquias de Lima, por várias vezes secretário do município de Curuçá e fundador de um clube musical beneficente chamado Henrique Gurjão em 1882

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