Bosque da Perimetral – achada a emblemática Ponte do Relógio

Em A Avenida Perimetral de 1970 e sua Variante de 1973 dissemos que a rua da Naval é a Velha Perimetral – ou: a parte da Perimetral que possuía orla e se integraria à Estrada Nova para compor o Parque do Guamá, um plano incongruente* de Stélio Maroja: três quilômetros de “pistas” (pelo menos duas) com vista ao Rio Guamá.
O possível, para Maroja, foi implementar o Bosque da Perimetral; e, mesmo assim, em total dependência da UFPA, que cedeu espaço à rodovia em suas terras (antes campos experimentais de plantio em várzea alta pelo Instituto Agronômico do Norte – IAN – a ela doados), bem como financiou a ponte de cimento armado sobre o Igarapé Tucunduba (distante da sonhada orla).
Em 1970 foram inaugurados a via BL-15 (Rodovia Perimetral) – que partia da Escola de Agronomia da Amazônia, adentrava as terras da UFPA e chegava à Augusto Corrêa – e o ponto turístico Bosque da Perimetral** com seus equipamentos de lazer na beira do Guamá por pouco mais de um quilômetro e a pretensão, por concorrência pública, da construção de um motel aos que estivessem em trânsito por Belém – A Belém-Brasília já era uma realidade.

Bosque da Perimetral (ou Tijuquinha): ponto turístico de Belém em pouco mais de um quilômetro delimitado pelos igarapés Sapocajuba e Murutucu Miri; com protagonismo do igarapé Santo Antônio, por sobre o qual em um de seus braços ainda há restos da Ponte do Relógio.

O Laboratório Virtual, que possui apenas essas três fotografias do Bosquinho, intenta entender a conformação e virtualizar o complexo que no início dos anos 1970 atraía casais de namorados e crianças, tal qual o Bosque da Almirante Barroso, inspiração dos seus implementos – o Bosque da Perimetral era administrado pelo pessoal do Bosque Rodrigues Alves – Prefeitura Municipal de Belém.
A equipe do LV fez duas incursões à área abandonada pela PMB desde 1973: na primeira (20MAI2024), com Pedro Yoshikawa, seguimos a picada da Naval até chegarmos a baixios hoje sabidos como do Santo Antônio; na segunda, em 21MAI2024, tomamos o rumo do rio Guamá pela mata que prossegue a rua do INPE, dentro do PCT Guamá, acompanhados por Wander Oliveira, alcançando a foz do Santo Antônio [vulgarmente conhecido como o igarapé do Cano (ou Tubo) de Ferro por sua vazão no Guamá ser por um (tubo) Armco].
Pedro e Wander são vizinhos, moradores da Terra Firme (defronte à UFRA), ambos guardam memórias da infância que viveram pescando, nadando, caçando, colhendo frutas… “um paraíso” pros moleques que atravessavam os tubos para pegar peixes nas águas represadas intrapista; todavia, algo era especial pra eles: A PONTE DO RELÓGIO, e era por ela que procurávamos, sem a encontrar, como a um encantado.
Uma ponte, que parecia um relógio de pulso gigante (às crianças), palco de muita estripulia e porfia de saltos ornamentais perigosos jamais abandonaria o imaginário de Pedro e Wander – e a nossa curiosidade.

No dia 11NOV2024 (segunda-feira passada), com a ajuda do José Maria da Silva Teixeira (Prefeitura da UFPA) e do Marco Antônio Gil de Sousa, pessoal que trabalha na reabertura da Velha Perimetral com o objetivo de ligá-la à Avenida Liberdade (obra do governo estadual), achamos o que sobrou da famigerada (dentre os garotos atemporais) Ponte do Relógio.
Estávamos no encalço de alguma ruína que nos pudesse orientar no entendimento da matéria publicada em A Província do Pará 24FEV1970; chegou-se a virtualizar a Ponte do Relógio com seu patamar circular (como um “cebolão” descrito por Pedro e Wander), o que não é fato: ele é elíptico; mas, não deixa de figurar um enorme relógio no espaço que justifica o apelido dado pelos moradores do setor:

Gif da ponte em configuração elíptica do patamar e as dimensões tomadas no rio Guamá – só o vão central e o patamar restaram do solapamento provocado pelo rio.


Do mesmo modo, situamos, equivocadamente, a Ponte do Relógio na foz do Santo Antônio, pela muralha lá encontrada em 21MAI2024; mas, não era seu lugar; e, ao que parece (hoje), a ponte estaria numa foz de vazão controlada em um braço (artificial?) do Santo Antonio, represado por comporta à irrigação das plantações experimentais do IAN (antes da superfície pertencer à UFPA).
Ou seja: os tubulões de cimento achados ao lado da Estação de Tratamento de Água (abandonada e saqueada) podem ser mais antigos que os Armco utilizados pra transpor o Santo Antônio (de foz original) e o Sapocajuba.
A Ponte do Relógio, pelo GPS, dista 195 metros da foz (a desenhada em mapas antigos) do Santo Antônio; desse modo seguimos ao igarapé do tubo de ferro (o Santo Antônio) e verificamos que o vacilo no raciocínio da equipe se dera pelas muralhas de contenção do aterro sobre o Armco que foram solapadas pela maré terem o mesmo feitio das ombreiras que suportavam as rampas da Ponte do Relógio.
Adentramos o Santo Antonio pela mata na direção do PCT Guamá por trilha em sua margem esquerda e nele verificamos a existência de canais artificiais perpendiculares certamente abertos por maquinário do IAN, bem como vestígios de guilhotina de bloqueio das águas, à semelhança da técnica construtiva aplicada nos antigos engenhos de maré para fazer a roda (d’água) girar.


*Adjetivamos o Plano Oficial de Urbanização da Capital de Stélio Maroja pela incoerência de suas declarações à imprensa: à revista nacional O Cruzeiro de 21SET1968 ele afirma:
“… Está construindo o Parque do Guamá (rio Guamá, que enrola Belém), numa réplica moderada do Parque (carioca) do Flamengo. São pistas de 3 km à beira-rio, arborização equatorialíssima, incorporando a paisagem das águas à cidade…”.
O fato é que somente no mês de março do ano seguinte à publicação de O Cruzeiro é que o Conselho Universitário da UFPA dá autorização ao reitor, José da Silveira Netto, para celebrar convênio com a Prefeitura Municipal de Belém permitindo a passagem da Rodovia Perimetral (BL-15) por suas terras, bem como custeando a construção da ponte sobre o igarapé Tucunduba – ponte esta que não foi projetada à orla do Guamá; portanto, o que Stélio Maroja conseguiria materializar na vera foi o traçado que se vê no gif e o Bosque da Perimetral na orla da hoje rua da Naval, na qual ainda se pode observar a Ponte do Relógio já em ruínas – não esqueçamos que esse conjunto de obras foi executado em menos de um ano, já que inaugurado no início de 1970.
Perguntado do assunto pelo Laboratório Virtual, o arquiteto Alcyr Boris de Souza Meira, planejador do Conjunto Pioneiro (Básico) e testemunha da assinatura do contrato com a PMB, disse-nos que esse Parque do Guamá jamais entrou em pauta nas discussões do Conselho da UFPA.
Alcyr reforçou o que já dissera em diversos depoimentos: que a Draga Matogrosso foi a responsável pela aceleração das construções do Básico, já que a dificuldade do transporte de aterro pela Estada Nova era enorme:

Imagem ampliável

Certamente fotografias tomadas nos primórdios do Básico, entre 1964 e 1965, quando se iniciava a contenção ao nivelamento com caminhões que atolavam na via – uns dois anos antes da chegada da Matogrosso que repararia o terreno às edificações inauguradas em 1968.

Os caminhões que aterravam o Conjunto Pioneiro (Básico) tiveram que primeiro descarregar na própria Estrada Nova para chegar aos terrenos adquiridos pela UFPA – aí na vizinhança do hoje hotel Beira Rio antes da chegada da Matogrosso.
Alcyr Meira nos disse que quando a draga Matogrosso completou o aterro hidráulico do Básico ela passou dois dias em serviço no que seria o futuro Profissional corrigindo “fissuras”, o que pode ter sido determinante ao traçado da Velha Perimetral que vinha por trás do Básico, oriunda da atual UFRA.
Essas fissuras referidas por Boris poderiam ser tanto naturais da várzea, como da manipulação da área próxima ao igarapé Sapocajuba, dito em textos, como local de experimentos do plantio de milho e arroz.
Certamente uma investigação acurada nos relatórios anuais do Instituto Agronômico do Norte mostrará o período em que o Sapocajuba foi seu laboratório e quais seus ensaios.


Mas… enquanto as obras do Campus Básico, pós Matogrosso, estavam em ritmo acelerado, sempre dependente da Estrada Nova – única via de acesso-; segundo O FATO 33 publicado pela ASCOM-UFRA, foi o diretor da Escola de Agronomia da Amazônia, Elias Sefer, quem sugeriu ao prefeito Stélio Maroja a abertura da estrada (Perimetral) para facilitar o transporte do pessoal da EAA ao centro de Belém; e, para tal, disponibilizou dois tratores da EAA ao auxílio dos serviços, o que demonstra a falta de um plano integrado entre a PMB, a EAA (hoje UFRA) e a UFPA.

A sobreposição de duas imagens, uma de 1955 quando a área pertencia ao IAN e outra da década de 1970 com a a Rodovia Perimetral (1970) e sua Variante (1973) visíveis, dá à percepção que Sefer indicou o caminho fácil na fronteira entre o IAN (a EAA era a ele indissociável) e a Universidade Federal do Pará, onde havia um dreno de irrigação de lavouras paralelo ao retificado igarapé Santo Antônio.

Imagens ampliáveis

Um exemplo de dreno na Várzea do IAN; entretanto o que daria origem ao primeiro seguimento da Rodovia Perimetral, PRESSUPOMOS, teria o valado à direita do lastro designado e não à esquerda como o da fotografia publicada em 1956 no livro de Rubens Lima, aqui rebatida didaticamente.
Nas aero de 1955 interpretamos (à hipótese) construções portuárias (pela geometria figurada) ao final desta via que servia a si própria para manutenção do sistema de irrigação e colheita; esta ideia tem fundamento no dito em textos sobre as plantações de arroz e milho numa área longínquo do IAN, mas vizinha à Escola de Agronomia da Amazônia surgida em 1954.


**O Bosque da Perimetral, Tijuquinha (depois Bosquinho da Perimetral e Bosquinho da UFPA) foi um local pretendido como de lazer à população de Belém na orla do Guamá (hoje rua da Naval dentro do Campus III da UFPA) inaugurado em 1970 junto com a Velha Perimetral: casais de namorados e crianças eram seus inocentes frequentadores e a administração do espaço, por contrato com a UFPA, esteve a cargo da Prefeitura Municipal de Belém (pelo pessoal do Bosque Rodrigues Alves).
Hoje a mesma pista, paralela ao rio Guamá, está sendo reativada (com aterramento e alargamento) ao encontro com a futura Avenida Liberdade (PA-020), obra do governo estadual anunciada à COP30.
Em 1973, com a implementação da Variante, tal rodovia fora abandonada e consequentemente o Bosque construído na administração de Stélio Maroja também, ensejando uma série de episódios que a ele deram notoriedade de maldito, como estupros, assaltos, suicídios, torturas e desova de cadáveres – vale ressaltar que as notas policiais veiculadas nos jornais dos anos 1980 apontam o Bosquinho em sítios diversos entre o Guamá e a Terra Firme, raras dão o linhão da Eletronorte (paralelo à Velha Perimetral) como referência, fazendo dele (Bosquinho) um rincão abstrato onde houvesse mata extensa.
Atentemos que antes das invasões começarem no Riacho Doce em 1990 a Perimetral (ou mais precisamente a Variante da Perimetral) mantinha floresta em suas margens que eram usadas à fabricação artesanal de carvão em caieiras dispostas ao longo da via; o terreno da UFPA já estava murado, tanto que as ocupações se deram no logradouro público que serviria à ampliação futura da via e ao seu calçamento.

Referências:
Agricultura nas várzeas do estuário do amazonas; por Rubens Rodrigues Lima (1956);
A Província do Pará – 29MAR1969;
Ecologiando Amazônia adentro; por Carlos José Esteves Gondim (2021);
Revista O CRUZEIRO – 21SET1968;


Postscriptvm:

Parte do guarda-corpo da Ponte do Relógio encontrada no leito da foz do braço do igarapé Santo Antônio (sob a ponte) mostra o uso tardio da técnica construtiva Rocaille comum no Bosque Rodrigues Alves; do mesmo modo que revela a insegurança desses componentes, uma vez que recheavam ripões engastados no concreto da laje.


Bosque da Perimetral – achada a emblemática Ponte do Relógio (pdf da matéria).

Sobre o Projeto Laboratório Virtual - FAU ITEC UFPA

Ações integradas de ensino, pesquisa e extensão da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará - em atividade desde maio de 2010. Prêmio Prática Inovadora em Gestão Universitária da UFPA em 2012. Corpo editorial responsável pelas pesquisas e publicações: Aristoteles Guilliod, Fernando Marques, Haroldo Baleixe, Igor Pacheco, Jô Bassalo e Márcio Barata. Coordenação do projeto e redação: Haroldo Baleixe. Membros da extensão do ITEC vinculada à divulgação da produção de Representação e Expressão: Jorge Eiró, HB e Eduardo Lobo.
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