
Agora em 2026, completam-se os 110 anos da publicação da História da Literatura Brasileira, de José Veríssimo.
O livro é um dos marcos fundamentais da crítica literária no país porque estabeleceu, de fato, os critérios da escrita literária, da reflexão estética, para definir o que é, essencialmente, o que se passou a considerar, no século XX, literatura nacional.
Publicado em 1916, ano da morte de seu autor, o livro consolidou uma espécie de transição da crítica de base puramente biográfica para uma análise focada na autonomia artística e na formação da identidade cultural brasileira.
Muitas questões podem ser levantadas sobre a obra, mas eu acredito que quatro são realmente fundamentais, a começar pelo que viríamos a chamar de definição de brasilidade.
Sem dúvida, José Veríssimo foi o primeiro a delimitar com clareza o início de uma literatura que se pensava como genuinamente brasileira, separando-a das manifestações que foram aos poucos lidas como extensões da tradição portuguesa.
Para ele, a literatura nacional começa quando o escritor expressa o sentimento e a realidade locais, e não apenas quando escreve sobre o Brasil, uma clave aberta para novos inquéritos sobre os debates contemporâneos sobre a historicidade do colonialismo literário.
Outra questão é a da autonomia estética tão presada por Veríssimo.
Amigo muito próximo do famoso escritor cearense Domingos Olímpio, célebre por seu Luzia Homem, desde os tempos que ambos trabalharam na redação de O Liberal do Pará em Belém, Veríssimo, inovou no tema.
Bem ao contrário de críticos anteriores que focavam excessivamente na biografia dos autores ou em determinismos raciais e geográficos, Veríssimo priorizou a o que ele chamava de qualidade estética do texto e o valor literário intrínseco das obras.
Também não há como negar que Veríssimo tem parte importante na consagração definitiva de Machado de Assis: foi ele quem utilizou seus critérios críticos para consolidar Machado como a figura máxima e o ponto de maturação da nossa literatura, enxergando nele a perfeita fusão entre o local e o universal.
E, por fim, o crítico paraense estabeleceu uma organização didática e cronológica sobre o que pensou como desenvolvimento literário do país em períodos históricos claros, servindo de base para o ensino e para todos os historiadores da literatura que vieram depois. Esse dado é tão fundamental, que é um ponto de inflexão e legado na crítica literária.
Junto com as obras de Sílvio Romero e Araripe Júnior, o livro de Veríssimo forma a “tríade da crítica oitocentista” brasileira.
Porém, enquanto Romero, grande polemista, focava no aspecto sociológico e cultural amplo, Veríssimo trouxe o rigor da análise do texto, abrindo caminho para a crítica moderna de nomes como Afrânio Coutinho, Antonio Candido e João Alexandre Barbosa – talvez seu principal interprete e leitor, que tive o prazer de conhecer em uma das feiras pan-amazônicas do Livro, por intermédio de Benedito Nunes, assunto para outra hora.
E, para fazer um caminho diferente de Veríssimo, vou contar um detalhe sobre sua família que talvez poucos conheçam, sobre esse paraense nascido em Óbidos, que antes de ser o afamado crítico e jornalista no Rio Janeiro, foi figura chave nos princípios da etnografia amazônica e na educação.
Seu pai, José Veríssimo de Matos, nasceu na Fazenda Cachoeirinha, no município de Mangaratiba, Rio de Janeiro e procedia de uma família de ricos cafeicultores locais, formando-se em medicina.
Sua mãe, Ana Flora Dias de Matos, nasceu na histórica cidade de Serro, Minas Gerais, e vinha de uma antiga família da região.
O casal se estabeleceu no Pará em 1856, quando o pai de Veríssimo foi nomeado para atuar na Colônia Militar de Óbidos, local onde o escritor José Veríssimo nasceu no ano seguinte.
Na cidade Óbidos, tornaram-se grandes amigos do casal Marcos Antonio Rodrigues de Souza e Henriqueta Amalia Inglez, pais do também conterrâneo Herculano Marcos Inglês de Sousa.
O destino quis que José Veríssimo e Inglês de Souza, muito depois, no Rio de Janeiro, amigos, tornassem-se dois dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Publicação original: FACEBOOK.




























































