O Chapéu Virado e a licenciosidade da PMB

A bela praia do Chapéu Virado, na ilha do Mosqueiro, está sendo emparedada pela falta de senso nas reconstruções das barracas em sua orla, referendado o uso da alvenaria; parece não haver regras, ou, se existem, gente ligada à própria Prefeitura Municipal de Belém as descumpre, como é o caso da barraca ASMUM, pertencente à Associação dos Servidores Municipais do Mosqueiro, conforme a sigla.

A barraca Chegada da Ilha, que ainda guarda elementos do estilo original¹, com exceção da telhadura, foi construída na administração de Almir José de Oliveira Gabriel na PMB (1983/86) em substituição aos poucos trailers e baiucas que exploravam comercialmente a orla do Chapéu Virado e também em seguimentos de maior e menor aglomeração por toda a beira rio; ora em início de remodelação, registrada pela fotografia.

m09O projeto dessas edificações, propositalmente simples, saiu da prancheta de uma equipe de arquitetos  intitulada  Assessoria de Arquitetura e Urbanismo² que era coordenada por Jaime de Oliveira Bibas em apoio a Paulo Chaves Fernandes, homem da extrema confiança de Almir Gabriel.

m07Tomada mais próxima para guardar na memória a pequena construção em madeira com sótão-depósito que em breve terá outra configuração, provavelmente anárquica, já que tudo a Prefeitura permite para afear Mosqueiro; se bem que, pela demarcação do baldrame,  o concessionário não demonstra nenhum apadrinhamento político-administrativo.

m02Barraca Chapéu Virado na proporção aparentemente padrão: entre dois postes de iluminação pública com espaçamento de 15 metros.

m03Barraca Lambretta 62, à semelhança da Chapéu Virado em dimensões e estilo construtivo; um sinal de regra a ser cumprida, inclusive com espaço destinado, na fachada, à identificação de quem detém a concessão pública.

aqw323A barraca ASMUM, da Associação dos Servidores Municipais do Mosqueiro, além de ultrapassar em demasia a metragem, modificando o desenho da fachada e telhado, construiu um anteparo ao vento em tijolos para o chuveiro, reduzindo ainda mais a visão do transeunte à praia. (Essas dimensões foram estimadas a partir da medição da distância entre os postes: 15 metros.)
Se a Prefeitura Municipal de Belém não corrige os erros de quem veicula o nome de seus “Servidores Municipais do Mosqueiro”, como poderá ela exigir de outrem um comportamento passivo, já que a norma de conduta, em tese, serve para todos, indistintamente.

A bela vista do Chapéu Virado ao Farol, com a Ilha do Amor ao Fundo; cena impedida de ser apreciada por uma estupidez do passado que criou raízes e disseminou o caos na orla do Chapéu Virado.

m08A dissimulação que burla a percepção do cidadão incauto: cobertura primitiva da invasão sob um telhadão que pereniza-se triplicando a área da ilegalidade; churrasqueira e freezer empilhado em pleno passeio; aberrações que deveriam ser punidas com demolição sumária.

É a barraca Pinguim, a mais absurda das contruções do perímetro; instalou-se, sem qualquer permissão, da noite para o dia, ainda no início da década de 1990, contrariando comerciantes e moradores vizinhos, mas rapidamente ocupou enorme espaço municipal que poderia ser uma praça com vista panorâmica à orla do Chapéu Virado e Farol; lugar privilegiado do alto terraço na fronteira com o Porto Arthur.
A influência política de seu proprietário, já falecido, parece ter sido o maior exemplo, de longa data, à anarquia que hoje impera na praia que banhou o escritor modernista Mário de Andrade.

Mário de AndradeMário de Andrade em 1927 defronte ao Caramanchão, marco limítrofe entre Farol e Chapéu Virado; ao fundo os trapiches particulares que levavam aos antigos chalés (só restou o “Cardoso”, de Francisco José Cardoso) depois de desembarques ou mergulhos nas águas do Chapéu Virado.

1. A estrura possuía pilotis e vigamento de variadas madeiras resistentes — ditas de lei —; as paredes eram fechadas em paxiúba, com frestas para ventilação; o assoalho montado com tábuas de sucupira; e o telhado, com duas águas longitudinais, feito em cavaco vedado com massa de calafetação de barcos; tudo envernizado tanto para a conservação da textura e coloração originais do material natural empregado, quanto à proteção contra intempéries.
2. Compunham a equipe de Assessoria de Arquitetura e Urbanismo: Conceição (já falecida), Stélio, Fátima, Mariângela, Rosário, Mena, Osmarzinho e o “velho” Osmar (pai de Osmarzinho) como consultor de engenharia; Archimino Athayde (o Chimico), apesar de não integrar a equipe oficialmente, era o responsável pelo cálculo estrutural que manteve a Chegada da Ilha em pé, mesmo com um telhado cerâmico desproporcional.

Postscriptvm:
As informações técnicas do texto foram prestadas pelo nosso editor chefe, professor Jaime Bibas, e podem ser modificadas, caso sua memória seja contestada por ele próprio, por alguém do grupo ou por internautas que possuam registros fotográficos de época.

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5 respostas para O Chapéu Virado e a licenciosidade da PMB

  1. Ângelo Sá disse:

    Caraca, excelente matéria que só os olhos dos arquitetos enxergam, porque a população não entende bulhufas dessas coisas.
    Que o Ministério Público tome conhecimento desse “parecer técnico” e faça o embargo das contruções que fogem à regra e proceda a necessária demolição do Pinguim, que se não me engano era do seu Wilson, que tinha um bugre e ficava de flozô pela ilha.
    Foi tarde e ainda deixou a barraca como herança maldita aos mosqueirenses e visitantes.
    Parabéns pela publicação, já estou enviando o link aos amigos amantes da nossa linda ilha abandonada pelos imprefeitos.

    • Adilson S. Barbosa, graduando em Eng. Elétrica - UFPA disse:

      Discordo Ângelo de que a população é leiga no assunto. Aqui em Belém todos os dias somos banhados pelos mais variados absurdos e sequer demonstramos inquietação. Não acredito que nossa falta de conhecimento seja tão latente ao ponto de não enxergarmos um descalabro como esse lá de Mosqueiro. Acontece que somos comodistas. Nos importamos tão somente com aquilo que está sob nossa tutela.
      Enquanto agirmos assim, coisas como essa aqui denunciada, irão acontecer aos montes Belém a fora.

  2. Que absurdo! Vou fazer um post no meu blog com um link para cá, a fim de repercutir a matéria.

    • fauitec disse:

      Obrigado Franssinete pela divulgação; é nosso propósito que o assunto tenha amplo entendimento e reflexão por parte da sociedade e das autoridades capazer de coibir ações danosas ao bem-estar da população.
      HB.

  3. Cassio Silva disse:

    Senhores,
    Mosqueiro ao longo de décadas vem se tornando um acúmulo de absurdos! Em parte pelo descaso de nossos governantes ,em parte pela ambição dos proprietários que estão se aproveitando dos “amigos” que permitem tudo e principalmente por uma administração local “indecente” que não cuidou de nossa ilha com deveria cuidar! Em breve perderemos o acesso da orla da praia grande, vai sucumbir aos apelos da natureza, enquanto os ditos responsáveis ficaram o tempo todo sentados sem fazer absolutamente nada por isso.

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