Os kiosques de cimento armado no Ver-o-peso seriam de Francisco Bolonha?

A publicação Ver-o-peso e arredores (1935); por Robert Swanton Platt revela imagens de dois quiosques (grafia atual) idênticos no canteiro central, à época existente, defronte à Doca do Ver-o-peso:

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Kiosque da esquina da Avenida Portugal em 1935

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Kiosque da esquina da Marquês de Pombal em 1935

Os registros de Platt que permitiram os janelamentos acima são datados de 14 de outubro de 1935, portanto: quatro anos e nove dias após a inauguração da Praça do Relógio (05 de outubro de 1931) pelo major Magalhães Barata que manteve-se com absoluto poder no Pará até 12 de abril de 1935 — retornando à Interventoria do Estado entre 1942 e 1945 depois eleito governador para o mandato de 1956 a 1959 quando morreu.
Tal qual a foto de Robert Platt, depositada na Biblioteca da Universidade de Winsconcin, existe outra de crédito na Biliblioteca da Universidade Purdue; essa imagem permite ampliações que ajudam na identificação de equipamentos urbanos na vista aérea pertencente a George Palmer Putnam Collection of Amelia Earhart Papers catalogada como da década de 1930:

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A vista panorâmica do Ver-o-peso e arredores nos dá a dimensão exata dos equipamentos públicos (kiosques) que ali existiam antes da Praça do Relógio sequer estar alinhada à bordadura lateral da Doca do Ver-o-peso, muito menos subtraído de sua área o espaço destinado ao canteiro central de duplicação às rodagens.

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A ampliação da foto nos permite identificar três quiosques da Concessão Bolonha; mais o Kiosque Pavilhão, que ainda não  encontramos a origem.

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A imagem faz ver que os Kiosques de Bolonha localizavam-se na parte interna do quadrante do terreno original e devem ter testemunhado a queda* da Bolsa da Borracha quinze anos antes; ou: foram reformados pelo concessionário explorador que os reconstruiria mais tarde em cimento armado obedecendo ao novo desenho do espaço e vias públicas (entre 1930 e 1935).

*Demolição.


A questão que se pode levantar na comparação de duas imagens fiáveis é se esses são os últimos exemplares dos Kiosques Bolonha, construídos, um à semelhança d’outro, no canteiro central defronte à Doca do Ver-o-peso entre 1930 e 1935.
A postagem 1921 – Kiosque Modelo de Francisco Bolonha na Port of Pará mostra os quiosques do Bar do Parque e da Port of Pará como modelos anteriores e distintos: maiores e mais rebuscados; também é curioso ler, em nota do jornal Estado do Pará, que a concessão à construção e exploração de quiosques por Bolonha iniciara em 16 de dezembro de 1904 e teria 30 anos**, portanto: até o dia 16 de dezembro de 1934 o contrato vigeria — o que é compatível com o que mostra Platt em 14 de outubro de 1935: obras limpas, aparentemente recém executadas.
Fotografias da Biblioteca do IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística —, mesmo que sem datação, revelam cenas de um tempo posterior aos registros de Platt, mas anteriores à construção do Clipper nº1; ou seja: depois de 1935 e antes de 1939:

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O quiosque na esquina da Avenida Portugal seria o Café Esperança — o barracão na quina da Doca, ao fundo, é objeto constante no passar do tempo dessa paisagem.

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Observemos o outro quiosque assentado sobre o canteiro central entre uma praça já alinhada e retificada ao trânsito e a Doca do Ver-o-peso; note-se a ausência do Clipper nº1 na esquina da Portugal com a João Alfredo, esse em efetiva construção noticiada em janeiro de 1939.

**20 anos seria o prazo estabelecido no contrato original assinado em 31 de janeiro de 1905 e publicado no Relatório 1905; se houve algum aditivo que ampliasse a concessão por mais dez anos, dele, por ora, nada sabemos; se não, há a hipótese de Bolonha ser o reconstrutor dos quiosques sem poder explorá-los desde 1924 ou 1925, dependendo da interpretação do Conselho Municipal.
Procura-se pelos contratos  determinados pelas Leis Municipais nº765 (sancionada em 12 de julho de 1917) e nº786 (sancionada em 31 de dezembro de 1917) as quais inovam o original de concessão dos kiosques conforme a propaganda à página 40 da revista A Semana de dezembro de 1921:

A Semana, Belém, v.4, n.191, p.40, dez.1921


Outra imagem da Biblioteca do IBGE, também sem datação, revela o kiosque Café Esperança pelo menos depois da gestão de Alberto Engelhard como prefeito de Belém, entre 1943 e 1945, quando houve a duplicação do Clipper nº1, estendendo-o às proximidades da esquina da Portugal com a 15 de Novembro:

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No decorrer de aproximadamente uma década o kiosque Café Esperança mantém-se íntegro na aparência e o barracão da quina da Doca some.
Francisco Bolonha faleceu em 1938, meses antes da notícia da construção dos clippers nº1 e nº2 na interventoria de José Carneiro da Gama Malcher (1935-1943) de quem Bolonha morreu Secretário de Obras Públicas — Abelardo Condurú era prefeito de Belém (1936-1943).
Até que ponto a pena de Francisco Bolonha designou os dois kiosques do Ver-o-peso e, sabe-se lá, os dois primeiros clippers construídos no governo/prefeitura de Malcher/Condurú?


Observamos que Francisco Bolonha e o papel da arquitetura e da engenharia no processo de modernização da cidade de Belém – 1897-1938; por Adriana Modesto Coimbra foi lido; contudo: a autora não se estende às obras de Francisco Bolonha posteriores à reforma de 1922 no kiosque próximo ao Teatro da Paz, hoje dito Bar do Parque (nenhuma referência ao Kiosque da Port of Pará).
Mas o texto de Adriana traz à superfície a estreita relação de Bolonha com Barata: Bolonha seria a língua técnica  do interventor Barata entre 1931 e 35 objetivando uma modernização revolucionária (vitoriosa em 1930) à Cidade.


Folha kiosque
Outro fato posto em artigo publicado na Folha do Norte — imagem de microfilme enviada pelo colaborador Aristóteles Guilliod de Miranda — é a confusão em nomear, no caso, o Clipper nº2 por kiosque.
Apesar desses dois tipos de mobiliário urbano explorarem o comércio, a razão dos clippers era servir  de abrigo no momento do embarque e desembarque dos passageiros de bondes e ônibus, daí a amplitude de suas lajes em cimento armado.
Como a nota em questão, pela datação, refere-se ao Clipper nº2 e não ao Kiosque da Port of Pará — este em 1939 com 17 anos de construído — admite-se o equívoco pela impopularidade do termo do que não fora inaugurado, mas nasceria vizinho do mais velho.
Nesta singular consideração poder-se-ia afirmar que os modernos Kiosques de Bolonha, construídos em cimento armado, são o elo perdido no encadeamento dos clippers ao cenário urbano do Ver-o-peso e dos jardins do Boulevard Castilhos França.
Isto pode ser confirmado na justificação de um Projeto de Lei apresentado em 16 de maio de 1951 — 12 anos depois do que chamamos de equívoco — pelo vereador Filinto de Azevedo Lobato à Câmara Municipal de Belém (rejeitado) que afirma: “A construção desses abrigos (os CLIPPERS), que substituem com vantagem os antigos ‘quiosques’, já se impõe como necessidade pública indeclinável.”; Filinto também se reporta ao “prazo de 30 anos”, contados de 31 de janeiro de 1905, concedido a Bolonha:

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