Especulações sobre a origem do Chalé de Ferro da FAU

A fotografia acima ilustra a página 59 do Álbum do Pará 1899 – Paes de Carvalho e é atribuída a Felipe Augusto Fidanza sem que haja datação ou descrição no texto de Henrique Santa Rosa.
Percebe-se a coexistência de duas edificações:  o Chalé de Ferro belga — aqui comprovado como propriedade de Gustav Grüner em 1898 — e o sobrado da Estação da Estrada de Ferro de Bragança; a cena dá à percepção o arruamento da Estrada de Bragança e o desmatamento recentes, como se essas (aparentemente) únicas obras tivessem sido erigidas pelo pioneirismo da ferrovia.
O raciocínio que aqui empregaremos não se balizará por documentação precisa, mas por recortes de jornais colhidos na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional; caso correto esteja ele, quiça a datação da montagem do Chalé (agora e por ora) Grüner caia para o período Imperial, ou seja: anterior ao ano de 1889.
Então, ao desenvolvimento da ideia:
Em 1875 o negociante português José Joaquim Saraiva de Miranda faz publico que vae proceder a venda em lotes da fazenda Queluz, sitos ao largo da Independencia (vulgo S. Braz.); tal fato é comprovado no meio de um artigo escrito pelo cônego Manoel José de Siqueira Mendes ao jornal A Constituição de 21 de fevereiro de 1876: …em minha administração fiz o seminario entrar na posse do sitio Queluz, hoje vendido: á minha custa sustentei contra a camara municipal os direitos do seminario sobre o terreno em que está hoje edificado o sobrado do coronel José do O’.
No final de 1883, por requerimento, a Companhia da Estrada de Ferro de Bragança solicitou à Camara Municipal alinhamento e arrumação de um terreno sito á Praça de S. Braz, em alinhamento a estrada de S. Jeronymo, antiga Queluz… à sua estação (central) em Belém.
São relevantes, para esta condução, algumas ocorrências:
Em 1873 o senhor José Joaquim Saraiva de Miranda fora recolhido à Repartição da Policia, por estar soffrendo de alienação mental; em julho de 1885* Saraiva foi julgado demente vindo a falecer mais de uma década depois: fevereiro de 1896.
Uma das rogatórias do Rei de Portugal enquanto Saraiva de Mendonça era interdicto (mas vivo), fez o juiz de direito de orphãos de Belém do Pará, etc… colocar á praça á porta da sala das audiencias, no palacete do Estado… os imoveis abaixo declarados… dos quais não consta o sitio Queluz nem o Chalet de Ferro de São Brás — a decisão do magistrado Napoleão Simões d’Oliveira é datada de 12 de fevereiro de 1892; mas, possivelmente, houve outras semelhantes diante da quantidade de imóveis acumulados pelo investidor lusitano.
Lembremos que o chalet de ferro, objeto raro nesta cidade, teve publicidade de venda em O Democrata de julho de 1893 com 26 metros a mais nos fundos: uma falha gráfica do jornal ou um lote do retalhamento original da fazenda (sitio) Queluz?

conjunto recortes
Imagem ampliável das propriedades ao redor de São Brás

Em 22 de outubro 1896 o Chalet de ferro do largo de S. Braz, junto a estação da Estrada de Ferro de Bragança é posto à venda pela justiça no palacete estadual; contudo: nada sabemos de tal imbróglio — note-se que o chalet só seria dado como propriedade de Grüner em 1898 quando este recorre à demarcação de um terreno com 83,60m x 114,40m limítrofe ao de Saraiva.
Tanto José Joaquim Saraiva de Miranda quanto Gustav Grüner tinham motivação financeira e meios suficientes à importação daquele chalet belga: Saraiva, em julho de 1882, a três anos de oficialmente louco, publicou um folheto intitulado Breves Considerações sobre a imprescindivel feitura da Estrada de Bragança; Grüner — representante da casa Schrader, Gruner & C.ª — era o responsável pelo recebimento das prestações pagas dos empréstimos contraídos por Augusto Montenegro em Londres, desde 1901, junto à firma Seligman, Brothers & C.ª à expansão e conclusão da Estrada de Ferro de Bragança.
Há a certeza, por nota em periódico, que Gustav Grüner fora efetivamente dono do Chalé de Ferro da FAU pelo menos até o fim da festa do capital; mas há dúvidas se Saraiva de Miranda importara e armara o referido bangalow em área da fazenda Queluz como benfeitoria no loteamento presumidamente tornado sem efeito legal por sua atestada demência em 1885, quatro anos antes da Proclamação da Republica.
Destacamos que José Joaquim Saraiva de Miranda foi o primeiro presidente da Companhia Fluvial do Alto Amazonas que surgiria em 1867 e encomendaria vapores à Inglaterra (Liverpool); por motivo de molestia, solicitou sua exoneração e foi substituído em outubro de 1868, sem abandonar a sociedade.

*1885 é o ano da concessão da patente do Sistema Danly a Joseph Danly: Brever Belge d’Invention nº69372; bem como da criação da Société Anonyme des Forges d’Aiseau motivada pela morte do banqueiro Louis Danly, irmão e sócio de Joseph na Forges d’Aiseau, em 1883 (Kühl, 1998) — esta aparente incompatibilidade nas datações explicar-se-ia por um pedido pretérito ou mesmo pela produção do chalé na Forges d’Aiseau, antes desta se transformar em sociedade anônima.
São hipóteses que justificariam a existência, na área de Queluz, do Chalé de Ferro que só após leilão judicial seria propriedade de Gustav Grüner.

Consultar Fontes.

Ler mais sobre o assunto em: O Chalé de Ferro da FAU-UFPA pertenceu ao cônsul da Alemanha e Holanda: Gustav Grüner


Postsciptvm:

comparação EEFB

Comparativo da evolução da estação ferroviaria de São Brás

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Uma resposta para Especulações sobre a origem do Chalé de Ferro da FAU

  1. Paulo Andrade disse:

    Não é um comentário mas uma pergunta. Esse prédio é o que existia onde hoje está o terminal rodoviário da FTERPA? Eu era muito criança mas lembro que a estação dos trens ficava por ali, pegando o terminal e também aquelas áreas onde está o Banco do Brasil
    Porém. com carência de informações, tua especulação, como tal, é bem sustentável. Acredito que teu espírito investigativo ainda encontrará informações que irão completar ou retificar tua história. Parabéns pelo esforço e resultado.

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