Sobre o círio de 1835 e este primeiro círio sem procissão; por Aldrin Moura de Figueiredo

(humilde servo e devoto de N. Sra. de Nazaré)

Este ano é, definitivamente, o primeiro círio que não vai acontecer nas ruas de Belém. Tenho recebido muitas perguntas de jornalistas afirmando que o padre fulano e o comendador do círio sicrano têm dito que em 1835, durante a Cabanagem, não houve círio. Tudo praticamente é dito com base no dossiê realizado pelo IPHAN, sobre o Círio, diga-se de passagem, de modo muito competente sob a coordenação do professor Raymundo Heraldo Maués, certamente autoridade de primeira linha no tema. O texto, como se pode ler, apenas sugere a possibilidade de não ter havido o círio, porém há uma cronologia apressada, ao que parece feita por autoria diversa publicada junto, que sentencia que não houve a procissão em 1835. No entanto, houve sim círio, e bem animado, com velas, luzes, girandolas de fogo e agradecimentos pelas vidas que não se foram. Não há até agora um sequer documento encontrado que afirme que não tenha ocorrido. Pelo contrário, até os viajantes que vieram a seguir nas décadas de 1840 e 1850 enfatizam a memória da grande procissão em todos os anos. Quanto me refiro a grande procissão, não tem nada a ver com o tamanho de hoje em dia. Hoje o círio acontece com cerca de 2 milhões de romeiros na procissão, enquanto em 1835 toda a população da Província do Grão-Pará não passasse de 100 mil almas, excetuando indígenas. 500 pessoas em procissão era algo notável. Então, por Nossa Senhora, não olhem o passado como se estivessem olhando para a televisão. Além disso, e talvez seja o mais importante, uma breve reflexão sobre o ano de 1835 já ajudaria a explicar o círio de 1835. Os cabanos invadiram Belém em janeiro, e Félix Clemente Malcher ficou no comando do governo da província até 21 de fevereiro, e Francisco Vinagre até 10 de abril. Daí em diante, até novembro de 1835, respondeu pelo governo o Comandante de Armas Manuel Jorge Rodrigues, futuro barão de Taquari. Foi inclusive no início de novembro que o Círio ocorreu, com a presença do bispo D. Romualdo de Souza Coelho, o que era comum devido à data móvel da procissão naquele tempo. Em cartas, notas de imprensa na Corte e até falas no parlamento, estão registrados o apego dos paraenses com suas festas religiosas, que inclusive os “revoltosos” e “celerados” aparecem entre os mais devotos. Quando Eduardo Angelim assumiu o poder em meados de novembro de 1835, já tinha acontecido Círio em Belém. E, por fim, é bom lembrar que quem corria risco na “mão de cabano” era português e maçom, não o círio. O extrato do processo instaurado contra os autores do motim de 14 de agosto de 1835 é muito esclarecedor de contra quem e contra o quê lutavam os cabanos vale a pena ler a compilação no 5 tomo dos Motins Políticos, D. A Rayol, publicado em 1890. Com a Virgem de Nazaré, com muito tempo depois lembrou Elizeu Cezar, nem “rebelde sanguinário um dia ousou levantar a face”. Aproveitem esse ano de contrição e rezem pra Virgem, pois precisamos de mais ajuda de Nossa Senhora com tanto desgoverno, descalabro, literalmente fogo e doença. Ah, eu ia esquecendo, também houve Círio em 1918, durante a epidemia da Gripe Espanhola. Obrigado, de nada.

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Uma resposta para Sobre o círio de 1835 e este primeiro círio sem procissão; por Aldrin Moura de Figueiredo

  1. José Conceição disse:

    Texto sem embasamento afirmando que houve Cirio em 1835. Onde está escrito isso? E ainda por cima com erros primários sobre a Cabanagem. Quem disse que Angelim assumiu o governo só em novembro de 1835? Lamentável

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