“Quando a curica pega vento… foudeu!” (SIC)


Esta postagem poderia ter o título Devagar, Se Vai Ao Longe, utilizado pelo Jô Bassalo para identificar uma palestra sua apoiada pelo texto homônimo, linkado — foi uma homenagem à sabedoria de dona Celina, avó dele, que bem transmitiu essa doutrina.
Mas…vamos mesmo de curica, até porque esse “brinquedo”, que estabelecia a primeira relação do pirralho de rua com o vento, era barato, fazia-se com papel pautado de caderno ou de embrulhar pão; sua estrutura era por torcedura nas extremidades, onde, na inferior, se engatava o rabo, também de papel; não tinha as talas da vassoura de piaçava que transpassavam a cangula, em cruz, essa já era para os moleques; nem linha encerada, empinava-se com linha branca, dita podre, de costura.
O adágio, que às vezes usa o termo cangula (do tipo papagaio¹), tem a significação do quase impossível, mas, quando acontece, é algo extraordinário e estarrecedor.
Imaginem um monte de marmanjos no ritual imprescindível para empinar papagaio: primeiro a engenharia do esqueleto de tala de miriti amarrada por linha, depois a arte da colação do papel de seda que liso era pobre, tinha que ter desenho geométrico; o rabo, com tiras de trapos leves, era meticulosamente medido para não “rabear”, alguns botavam lâmina de barbear na ponta para ajudar no “corte”; o melhor cerol que se aplicava à linha, esticada entre varas, ou postes, levava a cola preta de sapateiro comprada no Mercado de São Brás, essa, ia ao fogo em banho maria para derreter e aglutinar o vidro moído de lâmpadas fluorescentes lavadas, para retirar o pó, e enroladas em pano para serem trituradas por porradas de paralelepípedo furtado das ruas de “lá em baixo”. Em suma: era uma verdadeira “conferência científica”, melhor e mais produtiva que um semestre inteiro de aulas, aturando aquelas professoras gordas, feias e chatas, com palmo e meio de anágua aparecendo sem encobrir as varizes (e não tinham quarenta anos).
Isso tudo começava quando o sol nascia e só lá pelas 09 ou 10 horas o céu ficava colorido e movimentado, depois começava a pufia² e os característicos berros que soavam como narração de rádio: “dá cabeça…dá cabeça!”, “pendura…pendura!”, “descai…descai!” (ou “dá linha…dá linha”),  “dá força…dá força!”, “cabeça de novo…cabeçaaaaaa!”, “pendura e pega pelo gasgo…pelo gaaaaaaasgo!”, “tá penso…tá penso”, “vai rabear…vai rabear”…”entrou no laço”…CA…RA… , …LHO…”AUUUVAAAI!!!” (lá vai!) e a galera espantada soltava, depois do fim: “ÉÉÉGUUUÁ: CORTOU E AROU!” (cordou e aparou). (ou… , …”CHINOU!!!”, se se perdesse no ar em um  ballet glamouroso, até se encontrar com as “lanças” dos caçadores ou se engatar eu algum lugar que, vez por outra, o bode tirava.)
Agora expliquem: como um fedelho remelento poderia fazer tudo isso com uma reles curica?
Além do fabuloso, pelo entendimento e controle do malandro vento!

1. Papagaio era o genérico ao papagaio mesmo, dito borboleta, entre outros nomes, tinha farta horizontalidade e rabo curto de trapo mais grosso; à rabióla, um quadrado somado a um triângulo invertido na base que sustentava um rabo bem comprido, seu lastro; e à cangula de armação e papel de seda como os dois primeiros, só que no formato losangular e o rabo, também de retalhos de trapo,  tinha uma média entre os deles (o do papagaio e o da rabióla). Essas características formais é que davam a aerodinâmica capaz de propiciar a melhor performance em algum tipo de manobra, por exempo: o papagaio, que pegava mais força, era propício ao “pendura”, para pegar o gasgo, junto ao peitoral, onde a linha é branca (sem cerol); a rabióla mais pesada servia bem ao “descai” para defesa do “pendura” do papagaio, e fazia  o corte na mão do adversário, o que significava que ele, além de perder o papagaio, ficaria sem a linha; já a cangula era um diabinho doido (por isso é também usada no dito popular), um fusquinha, servia pra tudo e mais alguma coisa, desde que o marmanjo fosse muito safo, proibitiva aos arus, aos bundões e aos matadores de linha.
2. Pufia fazia parte do palavratório da garotada, vinha do nosso verbo (que parece não dicionarizado) apofiar, o mesmo que disputar, ver quem é o melhor.

Bem…o Blog da FAU fez dois anos no dia 30 de maio passado, com o relatório do mês (de 31 dias) aferido hoje, 1º de junho, início de um mês belíssimo que tinha pipas, fogueiras e balões; coisas que o politicamente correto encerrou.

Segue o relatório com a mais profunda gratidão aos nossos colaboradores e aos internautas:

PS.: O Blog da FAU permanece na parte free do WordPress.

Esse post foi publicado em Arquitetura, Estatísticas do Blog da FAU. Bookmark o link permanente.

11 respostas para “Quando a curica pega vento… foudeu!” (SIC)

  1. Bassalo disse:

    Haroldo, essa curica nunca vai chinar!

    • fauitec disse:

      CHINAR, faltou esse verbo no texto Bassa.
      Pô, mas agora caiu a ficha, essa da foto, falsa que dói, não pega o AUUUVAAAI: não china mesmo.
      E ainda tinha os “matadores de linha”, lembras disso?

    • fauitec disse:

      Bassa, enfiei um CHINOU no texto, que foi ampliado; se quiseres contribuir mais a gente vai construindo por comentário.

  2. Bassalo disse:

    Veleije, que tal fazer o “seio” na linha da imagem? Sei que curicas, muitas vezes empinadas da janela do quintal, ficavam quase penduradas na linha. A nossa, entretanto, voa alto, precisando o bolo de linha ser grande. Para os eruditos (tô fora!), o tirante, nesse caso, por seu peso próprio e ajudado pela ação do vento, descreve uma catenária, sempre móvel, no ar.
    Lindona…

    • fauitec disse:

      Bem que eu queria essa catenária em perspectiva, planando o conjunto em curva; só que a curica, que eu fiz na pressa, na realidade, não pegou vento e eu tive que colá-la na parede para fotografar.
      Por isso que ela tá tesa; a linha sem barriga (catenária) é só pra combinar e mostrar que é tudo fake de verdade.
      Mas qualquer hora dessas eu vou fazer uma, bacana, colocar no ar e fotografar; o problema é a falta de traquejo.

  3. Bassalo disse:

    Em tempo, sugiro sempre curicas como imagens do cabeçalho (é esse o nome?) do nosso BF.

  4. Bassalo disse:

    Aliás, sugiro que o BF tenha, em seu nome, a palavra CURICA. Algo tipo “Curica da FAU”…

  5. Ronaldo Marques de Carvalho. disse:

    Ô Haroldo: já é tempo de realizares com nossos alunos da FAU, uma oficina pra molecada exercitar e conhecer melhor os nossos objetos voadores genericamente chamados de PAPAGAIOS, onde aparecem as CURICAS, CANGULAS, PAPAGAIOS (INCLUSIVE OS GUINADORES, COM OS MAIS DIVERSOS TIPOS DE COMPOSIÇÃO NO PAPEL DE SEDA ETC, ETC…) E RABILOLAS.
    Poderei colaborar fazendo uma petit palestra sobre o assunto; lembro-me quando moleque que fabricava e vendia e também empinava, na travessa Piedade, próximo de casa, bem como na minha praça da República.
    Hoje o aculturamento é radical e todos só chamam, como os nossos irmãos lá do Sul, de pipa, que é outra COISA.
    Já me reportei no BF sobre o assunto em outro tempo, lembras?
    Já fui MOLEQUE, no tempo em que não era crime me charem DISSO.

    Um abraço a todos.
    Ronaldo Marques de Carvalho.

    • fauitec disse:

      Ronaldo: a gente pode criar o CONCURSO ANUAL DE PAPAGAIADA DA FAU, sempre em junho, mas só quando voltarem a respeitar nossos bolsos e não mais estivermos em greve nesse período de céu encantado.
      O certame coincidiria com a nossa festa caipira, durante o dia, à noite seriam a premiação e a quadrilha; durante a semana a programação de oficinas e palestras dos sábios currupacos bombaria.
      Mas será que ainda existe papel de seda?
      E a cola preta de sapateiro do Mercado de São Brás?
      E as linhas 30, 24 e 10?
      Será que o Reitor (presidente do CONSEPE e do CONSUN) permitiria que se passasse cerol esticando linha pelos postes do Campus?
      Tem muito SENÃO Ronaldo, é melhor abortar essa missão ou…ressuscitar o Magáiver.
      Lembras do Magáiver?
      Num episódio ele fez uma pipa e atravessou o Pacífico (uma verdadeira PAPAGAIADA).

  6. Ronaldo Marques de Carvalho. disse:

    Agora, falando sério: o nosso colega Arquiteto e Artista Plástico EMANUEL FRANCO, já expôs diversas vezes seus PAPAGAIOS como Arte.
    SALVE, SALVE O NOSSO EMANUEL!
    SE NÃO ACORDARMOS ATÉ A NOSSA COBRA GRANDE VAI SER ENGOLIDA.
    É tempo de SALVAR A CULTURA PARAUARA.
    Um abraço tupiniquim.
    Ronaldo Marques de Carvalho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s