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O sorvete nosso de cada dia; por José Carneiro (publicado em O Liberal de 02/08/2008 )

Tomar sorvete enquanto cai a chuva é um costume que só paraense consegue explicar. Consumidor contumaz, atrevo-me a falar um pouco da história dessa nossa saborosa tradição que, com ou sem arroubo de bairrismo, é um dos cartões postais da cidade de Belém. Embora seja uma história de contrastes, de falências, de estratégias de venda e, sobretudo, de mistura de sabores e cores, a produção de sorvetes no Pará percorreu fases ciclotímicas, até confirmar, claramente, a importância que veio a ter para o Estado, sua indústria e comércio, seus habitantes e seus visitantes. História de muitos capítulos, que procurarei resumir neste texto.
Inicialmente, vale dizer que a origem do sorvete é bastante controversa e remonta há muitos séculos, mas essa é parte da história que eu não me preocupei em trazê-la aqui. É sabido que o sorvete foi introduzido no Brasil, em escala industrial, a partir de 1941, quando chegaram ao Rio de Janeiro as primeiras máquinas com essa finalidade. Mas desde o inicio do século passado o sorvete já circulava, com alguma desenvoltura pelo Brasil adentro, o que nos inclui nessa história.
Os famosos Grande Hotel e o Cinema Olympia se interligavam numa valiosa referência ao sorvete paraense, porque um dos programas mais badalados do início do século vinte era, à saída da sessão cinematográfica, tomar sorvete no terrace em frente ao hotel, ocasião em que a elite social podia ver e ser vista. Há alguns parcos registros fotográficos desses momentos, e raros depoimentos que, infelizmente, não fazem menção à variedade dos sabores oferecidos pelo Grande Hotel. Mas é certo que o sorvete era de fabricação do próprio hotel.
Àquela época, os sorvetes eram feitos artesanalmente e, quando surgem os primeiros passos de modernização na produção, passaram a ser chamados, jocosamente, de ‘sorvete do seu Zé, feito no fundo do quintal’. Era o que apregoava, nos anos 60, uma bem urdida campanha publicitária para um novo tipo de sorvete que surgia no Pará.
O sorveteiro mais antigo de Castanhal, o português José Maria da Silva, em meados da década de 1930 montou em sua padaria ‘Primavera’ uma sorveteria, importante ponto de convergência para a nascente população de Castanhal, minha terra natal. Em Santarém, na mesma época, o Bar Mascote, famoso até hoje pela privilegiada localização e história, já introduzia o sorvete bem produzido, com apurado sabor e requinte adquirido no correr dos anos. Minha mãe, que nasceu em 1920, lembra-se de ter visto sorvete, quando menina, em Timboteua. Como se vê, os relatos sobre a produção desta iguaria gelada são inúmeros e remontam a recônditos locais.
A introdução das máquinas (alemãs, americanas e italianas) alterou o panorama de elaboração do sorvete no Pará, proporcionando a instalação, no bairro do Reduto, da sorveteria Americana, a mais importante e pioneira da época, ao lado do Cinema Íris, na Rua 28 de Setembro. Cinema e sorvete mais uma vez fizeram uma combinação perfeita, um complementando o outro.
Disso se beneficiou a Sorveteria Americana, surgida no início da década de 1940 que, já nos anos subseqüentes, ampliava os seus negócios, abrindo restaurantes e, sobretudo, incrementando a produção de sorvetes, inserindo a maioria dos sabores à base de frutas regionais que marcam, hoje, o nosso mercado, aqui e no Brasil inteiro. Seu proprietário era Joaquim Ferreira Moura e a ‘Americana’ não só atendia clientes em seu vasto salão como fornecia o acepipe para diversos locais, entre os quais a Lobrás (antiga Quatro Mil e Quatrocentos), o Grande Hotel (em certa fase) e restaurantes e bares espalhados pela cidade.
A sorveteria Americana, em seu período áureo, impôs absoluto domínio na praça de Belém. Sua expansão chegou a dois pontos importantes da cidade, na esquina da Braz de Aguiar com a Quintino e depois na Generalíssimo com a Oliveira Belo. Foi o sr. Joaquim Moura quem concebeu e introduziu a venda de sorvetes pela cidade em carrinhos térmicos especiais, fabricados aqui mesmo, em Belém. Informações sobre este assunto me foram passadas pelo funcionário mais antigo da Sorveteria Americana, o sr. Carlos Vieira da Rocha, que começou a se especializar na fabricação de sorvetes em 1943, quando chegou em Belém oriundo de Altamira. Hoje, aos quase 80 anos, recorda do esforço da ‘Americana’ em assegurar a qualidade dos seus produtos, feitos diariamente e consumidos intensamente pela população.
Com o fim da ‘Americana’ o sr. Carlos passou a trabalhar na ‘Santa Marta’, outra sorveteria com produtos de qualidade que surgiu em Belém, na esteira do que fez a Americana . Nesse período surgiu também a Sorveteria Santa Rita (Frei Gil com Aristides Lobo), com uma loja só, mas que conseguia atrair clientes pela qualidade dos sorvetes de frutas que sabia oferecer. A Santa Marta expandiu seus negócios – teve pontos na Braz de Aguiar, na Generalíssimo e na D. Romualdo, quando o proprietário vendeu a empresa – e fornecia para uma razoável rede de bares e restaurantes pela cidade, que popularizou a marca do sorvete.
Em 1963 começou a funcionar modestamente, como quase todas as sorveterias, a Cairu, que hoje domina o segmento, sendo a mais antiga sorveteria de Belém em atuação no mercado paraense e até fora dele. O sr. Armando Laiun, o fundador, comprou um bar com esse nome e logo em seguida lançou-se no ramo de sorvetes, inicialmente produzindo picolés na forma simples da época e, posteriormente, aprendendo a fazer os sorvetes cremosos que hoje viraram a característica da empresa, atualmente dirigida pelos seus vários filhos. Nesses 48 anos de trabalho, os filhos do sr. Armando e dona Ruth mantiveram com determinação a expansão da empresa familiar, que hoje alcança partes do Estado e com fábrica no Rio de Janeiro. Ruth Helena e Mariazinha, filhas do casal, me prestaram importantes detalhes sobre a evolução do metier.
Em 1967 houve um fato retumbante no segmento de sorvetes paraenses, com a implantação da Indústria Alimentícia Gelar, quem não lembra dela? A Gelar mudou o conceito de produção e distribuição de sorvetes no Pará e, particularmente, em Belém. Ela pode ser considerada um divisor de águas nesse segmento tão especial, não obstante o desejo da família proprietária de soterrar, nos desvãos da história, sua importante memória, recusando-se a prestar quaisquer esclarecimentos a respeito do assunto. De certa forma a Gelar interferiu no crescimento da Cairu que, sentindo os efeitos da pesada e inovadora concorrência, tratou de modernizar suas máquinas e, mais do que isso, sua estratégia de vendas, num novo capítulo dessa instigante e saborosa história sobre gelados. Uma das estratégias absorvidas pela Cairu foi a adoção da embalagem em copinhos, a partir dos quais o nicho do interior do Estado pode ser alcançado, pela primeira vez, com a produção modernizada.
A Gelar surgiu apoiada por financiamentos e, como já mencionei, por uma criativa campanha publicitária sustentada pela Mendes Publicidade. Entre as novidades apresentadas pela empresa, uma era, seguramente, o sorvete, vendido em copinhos e produzido de forma pasteurizada, o que nunca se tinha visto por aqui. A outra novidade era a venda pela cidade em elegantes carrinhos, que ofertavam o picolé e o sorvete, vendido em copinhos com a palheta de madeira embalada em papel. Obviamente, a pasteurização implementada pela Gelar alterava um pouco daquele sabor já conhecido dos paraenses, mas o sucesso dos novos sorvetes foi imediato. Por meio da Sudam a Gelar obteve recursos de incentivos fiscais, e sua marca alcançou outros Estados. Mas logo (em menos de dez anos) a empresa enfrentou seus problemas, sobre os quais os sócios irmãos insistem em não falar, e ficou só na lembrança de algumas gerações.
Nesse tempo e influenciado por negócios com o dono da Cairu, surgiu outra sorveteria em Belém, que se transformou num point da cidade, por causa das constantes inovações de sabores que fazia e pela qualidade dos seus produtos, a ‘Tip Top’, assim mesmo com esse nome jovem. Ficava na Padre Eutíquio com a Pariquis. Sobre essas inovações, quem não lembra do sabor chamado ‘Qualquer coisa’? E por falar em sabores, o sorveteiro Carlos Vieira da Rocha relembrou que o popularíssimo sorvete de tapioca foi uma experiência pessoal tentada pelo dono da Santa Marta, que deu certo. Deu tão certo que é hoje, disparado, o sorvete mais vendido pela Cairu, em todas as suas lojas. Felizmente em segundo lugar vem o nosso açaí que, na minha opinião, deveria estar em primeiro. E o terceiro lugar ficou com o chocolate. Quem vai querer discutir gosto do freguês?
A Tip Top fechou, lamentavelmente, assim como a Americana, a Santa Marta e outras, mas novas sorveterias estão abrindo e, felizmente, mantendo a tradição da qualidade. É provável que outros sabores e outras sorveterias estejam na memória da população belenense e que eu não tenha mencionado aqui. O importante é que fique resguardada essa parte saborosa da nossa história.

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O medonho paredão e a alegre intervenção


Bem que o paredão da Química merece uma intervenção; ou não?
Não se está falando de pichação festiva, mas de algo planejado e executado pelos nossos alunos com pleno apoio institucional.
Há infinitos modos de proceder, inclusive com revestimento cerâmico resistente às intemperes.
Para testar essa ideia chamamos o pintor virtual Raimundo Kovalski, um afrodescendente-russo-gay-desempregado, que em alguns minutos fez uma brincadeira só para a galera se divertir — infelizmente o nosso bro não concluiu o trabalho, um vira-lata mordeu-lhe a bunda na porta do Ateliê pouco depois da foto.
Ray (apócope com ipisilone), apesar de fazer parte de uma minoria ativista radical e coordenador da ONG “Vá Sem Deus” (de financiamento governamental zero), não é iconoclásta, ao contrário: adora casamentos urbanos e tem fetiche por vestidos de noiva.

…ou: uma proposta mais sóbria galgada na obra do artista plástico pernambucano, de 87 anos, Darel Valença Lins: