A maternidade-escola que virou colégio em Belém (1)

JBKO Instituto de Pesquisas Hospitalares Arquiteto Jarbas Karman, o IPH, afirma que o primeiro projeto de hospital do mineiro Jarbas Bela karman, engenheiro e arquiteto pela Politécnica da USP e master em Arquitetura Hospitalar pela Yale University, fora o Maternidade Escola de Belém, no ano de 1949.
Também diz o Instituto que “Pela experiência em projetar hospitais como este, Jarbas Karman foi dispensado da apresentação de uma tese em seu mestrado nos EUA.”.

avbEm abril de 1949 o deputado federal pelo Pará, João Guilherme Lameira Bittencourt, do Partido Social Democrático, o mesmo de Magalhães Barata, apresenta à Câmara dos Deputados o Projeto Nº106-A ― 1949 à concessão de “… um auxílio de 5 milhões de cruzeiros para a construção de uma Maternidade-Escola em Belém, Estado do Pará.” que é rejeitado pela Comissão de Finanças.
Neste mesmo 1949 a Maternidade Escola de Belém obteve do governo federal, além dos 882.000 Cruzeiros recebidos para o início das obras, uma dotação orçamentária de 200.000 para dar continuidade, “em ritmo harmonico”,  à sua construção no ano de 1950 (ver o DOU de 12-12-1950 que acrescenta “aparelhamento” nesses 200 mil).
Entretanto, em 1951, Alexandre Zacarias de Assunção assume o governo do Pará, indicando a prefeito Lopo Alvarez de Castro, substituído em 1953 por Celso Cunha da Gama Malcher, o primeiro (prefeito) eleito desde 1912 ― apenas para uma anotação política.
Não se sabe em que fase a obra do hospital parou, nem o ano e o  motivo deste fato, mas seria sua estrutura de concreto aproveitada, nos primeiros anos do Golpe Militar de 1964, para um colégio estadual.


A questão:
O projeto acima, obliquo ao terreno, com orientação para captar os ventos predominantes do quadrante demarcado entre o leste e o norte não poderia ser o mesmo que fora adaptado à inauguração do Colégio Augusto Meira no ano 1965.
Apesar da impossibilidade de se identificar letras e números nas pranchas, a escala da perspectiva revela a monumentalidade do prédio que se assenta quase na diagonal do terreno dois anos antes reservado ao Estádio Municipal de Belém visto pela José Bonifácio, desconsiderando suas características de declive ao Vale do Tucunduba; dando à desconfiança um possível despacho de encomenda estudiosa de quem não conhecia o lugar, o que não seria o caso, já que Jarbas Bela Karman morava, com a esposa, em um hotel de Belém, construindo hospitais a serviço do SESP ― Serviço Especial de Saúde Pública ― pela Amazônia.
Inclusive o PDF do Instituto Karman cita os dizeres do engenheiro-chefe do SESP, Zadir Castelo  Branco, sobre a metodologia na concepção dos projetos hospitalares em Belém naquela época:

“Cada região do Brasil se apresenta, como todos sabemos, com características de temperatura, salubridade, umidade etc. Desse modo, a construção dos hospitais para cada uma dessas regiões terá de atender a esses fatores, para que a população possa encontrar neles, de fato, uma possibilidade para a cura dos males que a aflige. Atendendo a essas circunstâncias e a outras de ordem técnica, existem em Belém seções especializadas para estudo da localização dos hospitais, a distribuição de suas dependências, o material a ser empregado, as condições de higiene, o conforto do pessoal do hospital, o aparelhamento técnico, o controle dos diversos serviços etc. Para execução dessas tarefas são chamados a colaborar, além de desenhistas, que se incumbem de traçar o plano, médicos, engenheiros, enfermeiros, etc., cada um apresentando sugestões, dentro da sua especialidade, sugestões essas que servem de base para o roteiro a ser seguido pelos desenhistas”.


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Contudo, a fotografia acima, que mostra uma maquete bastante distinta do projeto da Maternidade Escola de Belém visto no site do IPH, guarda semelhanças, até hoje, com o Colégio Augusto Meira, inclusive em sua orientação perpendicular/paralela ao terreno, aproveitando-se, como no Estádio Municipal de Belém, de sua topografia; além, claro, de uma espécie de assinatura (ou estilo reduzido, sintetizado…), que suscita, pelo não fechamento, um captador de vento em forma de fole [mesmo desenho do edifício menor do projeto (original) de Karman]:

Augusto Meira Augusto Meira atual na mesma orientação da foto com Mário Pinotti: esquina dos fundos.


A questão:
O projeto executado fora o de Jarbas Bela Karman, com os “devidos ajustes à aprovação” diante de parcas verbas; ou: teria a colaboração dos pensadores do Estádio Municipal de Belém?
Rever a arquibancada do anfiteatro na encosta, justamente na quina onde está a mão anônima, pode ensejar a compreensão da nova configuração dada à Maternidade Escola de Belém (guardadas as devidas proporções e exageros das representações gráficas):

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O fato é que o projeto materializado na maquete da Maternidade Escola de Belém, que acabou por mutilar-se em Colégio Augusto Meira, tem visíveis aproveitamentos da ventilação predominante do este  (e ainda nordeste) e proteções contra a  incidência solar direta, que a obliquidade do original resolvia; habilidades aplicadas que podem assinalar a presença de Karman na proposição diante de Pinotti.
Captadores de vento e brise-soleils parecem ter remediado  a onerosa orientação que livrou seu autor de um paper; contudo, com o Golpe de 1964, Jarbas Passarinho, seu homônimo, transmutou tais soluções em obsoletas para uma gaiola envidraçada, impeditiva da ventilação cruzada ali fundamental (e sabe-se lá quantas aberturas raciocinadas foram cerradas por tijolos), quando nem se imaginava a popularização de aparelhos de refrigeração:

AMMas… este é apenas o começo de uma investigação pública e coletiva.

Colaboração: Aristóteles Guilliod de Miranda.


Postscripvm (28/02/2015):
As investigações e especulações continuam em: A maternidade-escola que virou colégio em Belém (2).

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5 respostas para A maternidade-escola que virou colégio em Belém (1)

  1. Aristoteles Miranda disse:

    Baleixe, acho que os construtores resolveram “alinhar” o projeto do Karman, por achar que ele ia ficar “torto” em relação ao eixo da rua. kkkk

    • Haroldo Baleixe disse:

      Ari:
      Pelo jeito rolou uma licença do Karman, que queria ter seu primeiro projeto de hospital erigido; e, mesmo trabalhando algemado aos interesses políticos, deu o safo para que a maternidade possuísse ventilação e iluminação naturais com sapiência.
      Deveriam ter demolido o prédio antes que o Jarbas Passarinho o transformasse em cárcere-masmorra de estudantes que felizmente não foi a boate Kiss dos anos 1960.
      Dei aulas no Augusto Meira em 1988 e senti a angústia daquela prisão em todos os horários do dia; um hospital transformado em cadeia para ser colégio; puta que nos pariu…
      Seria interessante que alunos e professores do Augusto Meira exigissem do poder público a recomposição do prédio a partir do projeto do Jaime Bela Karman; não para ser a Maternidade-Escola de Belém, mas para dar liberdade às almas penadas (vivas e mortas) que passaram, passam e passarão por ali.
      Será que o Passarinho vive, com medo de encontrar o seu Karman por acolá?

  2. alinecosta disse:

    Quase morro quando li esse negócio.
    Eu sempre ouvia falar dessa estória que agora é história na minha mente.
    E aquele troço que nunca ia saber pra que servia, achei que era decoração, deve ser mesmo porque não tem como entrar vento por lá, né?

  3. Aristoteles Miranda disse:

    Bom, passaros & gaiolas a parte, a ultima reforma – anos 1990-2000 ?- conseguiu piorar tudo, fechando mais ainda.

    • Ari:
      Estive, na hora do almoço, no Augusto Meira; como foi rápido e só na parte de baixo, pouco entendi da configuração atual.
      Notei apenas que o último prédio da Maternidade-Escola de Belém, aquele que captaria os ventos do leste, tem ocupação comum com dois outros estabelecimentos de ensino estadual: o Centro de Estudos Supletivos Profº Luiz Otávio Pereira e a Escola de Ensino Fundamental Dr. Aníbal Duarte.
      Já com relação à reforma 1999-2000, sem nenhum juízo sobre estética, creio que tenha limpado alguns dos cocôs de passarinho; hoje, o vento que vem do quintal por estreito corredor quebrado circunda o pátio térreo, porque há amplas aberturas na José Bonifácio, no interstício entre o muro e o primeiro piso sem paredes, só com as colunas.
      A reforma quebrou boa parte da gaiola no hall, permanecendo fechado pelas mesmas esquadrias antigas de ferro e vidro algum setor administrativo à direita de quem entra.
      Não foi à toa que o Augusto Meira Filho disse que aquele terreno, por seu declive, era “… todo acidental e único na área urbana de Belém… “; até porque, do alto, senti o vento que vem do Vale do Tucunduda.
      Será que essa área não seria a ideal a um porto de abastecimento do Mercado de São Brás pelo Rio Tucunduba?
      Perguntei isto à Jussara Derenji; com mais um complemento: não teriam sido os higienistas que derrubaram qualquer possibilidade de navegação do Tucunduba até a cidade?
      Afinal, no Vale do Tucunduba tínhamos o Leprosário, o Domingos Freire e o Cemitério de Santa Isabel.

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