Os “artistas especiaes” que reduziram e gravaram o selo de Theodoro Braga em 1915

O historiador Luís Augusto Barbosa Quaresma, colaborador deste Laboratório Virtual, nos enviou foto da matéria publicada hoje (14JAN2020) no jornal O Liberal que aparentemente nega, uma vez que omite, a autoria do selo do Tri-Centenário da Fundação de Belém (1616-1916) ao factótum Theodoro Braga.
Na realidade o periódico paraense complementa O selo do Tricentenário de Belém foi criado por Theodoro Braga, pois dá nomes aos artistas especiaes da Casa da Moeda onde tais selos foram impressos em dezembro de 1915; seriam eles, segundo O Liberal: F. Hilarião T. Silva [que teria transformado (ou formatado) o desenho de T. B. para clichê xilográfico (matriz em madeira) de 0,033 de comprimento por 0,024 de altura] e Bezerra Paiva (o impressor typographico das estampas resultantes desse “carimbo”).
O desenho, na qualidade de projeto, hoje entendido como design (ou projeto) gráfico, da lavra de Theodoro Braga, fora entregue ao diretor da Casa da Moeda, Ennes Souza, no dia 06 de novembro de 1915, para ser reduzido e gravado pelos seus artistas especiaes:

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Isto pressupõe que a arte apresentada por Theodoro Braga deveria ser analisada por tais artistas especiais da Casa da Moeda à definição do processo mais viável à reprodução da estampa [em calcografia (metal), litografia (pedra) ou xilografia (madeira)] à typographia; o que certamente foi feito; mas, por questões éticas e estéticas, com a aquiescência do autor — em outras palavras: F. Hilarião T. Silva adaptou o desenho de Braga à linguagem da xilografia, de modo estritamente técnico, salvaguardando o conteúdo de forte semelhança compositiva à tela A Fundação de Belém de 1908.
Na matéria Cadê a coroa com 600 gramas de ouro desenhada por Theodoro Braga? dissemos que Theodoro Braga fora o desenhador da coroa de louros com 600 gramas de ouro presenteada à atriz paulista Lucília Peres em 1910 no Theatro da Paz; mas deixamos claro que a execução coube ao ourives Manoel do Couto Monteiro sob desenho (hoje design) e orientação de Theodoro Braga.
Do mesmo modo ficará evidente, em artigo futuro com a colaboração de Aristoteles Guilliod de Miranda, que o projeto arquitetônico de Theodoro Braga ao pavilhão da Fábrica de Cerveja Paraense à Exposição Nacional de 1908 teve o trabalho de carpintaria e marcenaria nas oficinas A. Santos & C confeccionado pelo proficiente artista entalhador sr. F. Martins Domingues; aguardem.


Postscriptvm (15JAN2020):
Novas investigações revelaram que F. Hilarião T. Silva, como publicou O Liberal, é abreviatura de FRANCISCO HILARIÃO TEIXEIRA DA SILVA que em decreto do Ministério da Fazenda de 09OUT1901 fora desenhista nomeado Chefe da officina de xylographia da Casa da Moeda.
O Correio da Manhã de 06JAN1912 noticia a extinção da officina de xylographia ficando Hilarião apenas no logar de desenhista.
O outro citado por O Liberal, Bezerra Paiva, qualificado pelo jornal como gravador, não figura no quadro de funcionários da Casa da Moeda em 1915, de acordo com o Almanak Laemmert — nem em outros anos e fontes consultados —, o que nos faz crer na possibilidade de uma atividade específica, mas temporária: a impressão da (própria) xilo, que retira dele (Bezerra Paiva) a condição de artista especial nas modalidades de gravura restantes; seguindo pelos mesmos documentos: o diretor da Casa da Moeda, como já dito por nós, era o engenheiro e professor de docimasia e metallurgia da Escola Polytechnica do Rio de Janeiro, Antonio Ennes de Souza, justamente para quem foi entregue, em 06NOV1915, o desenho da lavra de Theodoro Braga.
Deste modo não resta a menor dúvida que o Selo do Tri-centenário da Fundação de Belém é projeto gráfico do talvez primeiro designer genuinamente brasileiro: o paraense Theodoro Braga — sem olvidar a participação efetiva, mas coadjuvante, de Francisco Hilarião Teixeira da Silva à reprodução mecânica do motivo.


Postscriptvm 2 (16JAN2020):

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Em um convite enviado por Theodoro Braga à Folha do Norte para o vernissage (16DEZ1908) de sua exposição no Salão Nobre do Theatro da Paz que abriria no dia 17 há uma lista dos trabalhos que integrariam a mostra: o item 104 revela que T. B. projetara uma série de 7 sellos para o Estado do Pará sete anos antes da impressão do selo alusivo ao Tri-Centenário de Belém, que tanto pode ser um desses, quanto criação nova.

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Uma resposta para Os “artistas especiaes” que reduziram e gravaram o selo de Theodoro Braga em 1915

  1. Marga disse:

    E tenho dito!👍

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