
Sabe-se que a fachada original do hall do cinema Olympia, construção anexada ao Café Madrid, foi executada, tal qual o Grande Hotel – dois empreendimentos que tiveram o aval financeiro de Bento José da Silva Santos Junior – pela firma Salvador Mesquita & Cia.
O português Ricardo Fernandes de Mesquita, segundo o jornal Folha do Norte de 04ABR1928, era arquiteto diplomado pela Escola Industrial de Figueira da Foz (Coimbra) e a ele são atribuídas obras, além do Olympia e do Grande Hotel: o Paris n’America, o Cinema Iracema, o Banco Ultramarino, a Fábrica Amazônia, o Leão d’America, o Palacete Antonio Gomes Loureiro e a sede da Tuna.
Todavia, em nenhuma dessas obras, vê-se um vão com arco tão generoso quanto o do Olympia – o prédio da firma Salvador Mesquita & Cia. ostentava um arco, mas de menor semicírculo.
Diante dessa peculiaridade os editores do Laboratório Virtual vasculharam edifícios europeus de funções assemelhadas que precederam o Olympia de Belém:

A estação Chemin de Fer du Nord, edificada em 1846 em Paris, mostra, em suas esquinas, alguma similitude, não em monumentalidade; do mesmo modo um pavilhão levantado em 1907 para exposições nas cercanias do Jardim Zoológico de Berlim poderia ser uma fonte de inspiração à fachada do Olympia belenense:

Uma ala do prédio é adaptada para teatro em 1912, na sequência passa a exibir filmes e se transforma no festejado Palast Am Zoo da UFA ainda na República de Weimar; com a ascensão do Nazismo o cinema vira um ícone da propaganda ideológica de Hitler quando estreia o filme Triumph des Wille, de Leni Riefenstahl:

A estreia do filme em 28 de março de 1935 mostra um átrio circular e a fachada revestida à estética estatal; o Palast Am Zoo da UFA foi bombardeado em 1943 e suas ruínas entraram em obras de reparação:
O Palast Am Zoo da UFA desnudado pelas bombas e em vias de recuperação em 1948, mas integralmente demolido em 1955.

Berlim em 1948 e Belém em 2025: cinemas transmutados no tempo com regresso à origem – o de Berlim foi à bola, o de Belém ressurge.
A relação entre esses dois afamados edifícios de capitais europeias de forte evidência, bem ilustram o artigo The German Rundbogenstil and Reflections on the American Round-Arched Style, que traz à baila o Rundbogenstil Alemão (e o Estilo Americano dos Arcos Redondos).
Até aqui tudo bem: pareceu-nos que as fontes do Velho Mundo consultadas pelo arquiteto português Ricardo Fernandes de Mesquita tinham sido descobertas; entretanto: a professora Jussara Derenji, que tomou conhecimento da fachada original do Olympia pelo Laboratório Virtual, lembrou-se de uma obra de Filinto Santoro: O Kurssal Bahiano, uma casa de espetáculos (teatro e cinema) inaugurada em 1919 em Salvador (como posterior ao Olympia, poder-se-ia supor uma mimese; será que o é? Eis a cisma):


O Kurssal Bahiano virou Cinema Guarany e hoje é o Glauber Rocha, uma das muitas obras do engenheiro Filinto Santoro espalhadas por alguns estados brasileiros.
É possível que o Kurssal Bahiano de Santoro se tenha referenciado no Kurssal inglês de Southend-on-Sea projetado por George Sherrin e John Clarke e inaugurado em 1901; todavia, recorreu-se a outro projeto de Santoro que não passou do desenho: o Novo Palácio Municipal publicado no Relatório Antonio Lemos de 1906; tal obra, de acordo com o Jornal de 03ABR1907 ocuparia todo o quadrilátero existente entre a Avenida da República e travessa Primeiro de Março e ruas Carlos Gomes e Macapá, superfície que deveria ser desapropriada pela Intendência:
Um dos desenhos de Santoro constante no Relatório de Lemos de 1906: o Palácio Municipal ocuparia a área do Politheama que recebeu a edificação do Grande Hotel – observar a dimensão do arco redondo e as estátuas em escala humana, n’um projeto que precede o Olympia, tornado público pelo intendente.

Superposição do Palácio Municipal de Santoro ao Grande Hotel de Mesquita pra se ter a noção da grandiosidade do Rundbogenstil (Estilo Arco Redondo) proposto a Antonio Lemos pelo engenheiro italiano – neste local existiu outra casa de espetáculos, o Politheama, do qual ainda não possuímos imagem completa, mas um desenho a partir de fragmentos fotográficos.
O fato é que Ricardo Fernandes de Mesquita (português) e Filinto Santoro (italiano) eram imigrantes nascidos no mesmo ano de 1863 e foram responsáveis por obras relevantes na capital paraense; nada se encontrou que os ligasse à concepção do Olympia, além das evidências imagéticas apontadas por uma hipotética parceria; de todo modo, Mesquita era casado com uma italiana, Helena Reminolf Mesquita – aí pode estar um elo: a comunidade italiana em solidariedade de lavoro.
Referências da matéria:
Relatórios de Lemos: 1906 e 1907;
The German Rundbogenstil and Reflections on the American Round-Arched Style (traduzido);
Filinto Santoro em Salvador-BA:
Renascença – NOVEMBRO 1916 – Casa João Garcez Froes;
Bahia Ilustrada – MARÇO 1918 – Palácio da Acclamação;
Renascença – JANEIRO 1920 – Kursaal Baihano;
Bahia Ilustrada – JANEIRO 1920 – Palácio Rio Branco;
Renascença – FEVEREIRO 1921 – Theatro São João; e:
Biografia de Felinto Santoro.
Leia também:
Retratos Fantasmas; por Kleber Mendonça Filho
O OLYMPIA e a rua SILVA SANTOS JUNIOR

































































