Uma proposta de TCC; por Pérès R. Songbe

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É o Hospital Guadalupe do De Paula Bolonha? Sim

De Paula Bolonha: (arquiteto) Francisco de Paula Lemos Bolonha

O questionamento foi feito pela professora Celma Chaves Pont Vidal, coordenadora do LAHCA (Laboratório de Historiografia da Arquitetura e Cultura Arquitetônica), ao Laboratório Virtual – ambos UFPA-ITEC-FAU.
A primeira resposta foi negativa, já que o professor Oswaldo Coimbra dá como única obra do famoso arquiteto modernista paraense em Belém do Pará o Monumento a Lauro SodréDiário do Pará de 03MAR2010.
Mas não é o que nos diz A Província do Pará de 11 de setembro de 1960: “A planta é de autoria do engenheiro Francisco Bolonha, residente no Rio de Janeiro, cabendo a responsabilidade de sua construção ao engenheiro Nicholas Chase.”; contudo, a afirmativa não se refere ao Hospital Guadalupe; mas, ao Hospital Santa Mônica: uma casa de saúde que teve sua pedra fundamental lançada em cerimônia do dia 10 de setembro de 1960 à rua Arcipleste Manoel Teodoro num terreno de 4.500m².
O Hospital Santa Mônica: a mesma Provincia já havia noticiado, em 30 de dezembro de 1959, o surgimento de uma sociedade anônima nominada Sociedade Médico-Cirúrgica Paraense (não confundir com a do Pará, esta científica) encabeçada pelos médicos Paulo de Castro, Carlos Costa, Garibaldi Vianna e Rui Coral à contrução do hospital que será servido por um sistema de rampas, para o transporte de doentes, sem a utilização de elevadores; e segue: As enfermarias deverão ser de alto padrão, dentro da melhor técnica moderna. Pensam ainda os organizadores do hospital em outros planos para a melhor atividade do hospital, e que se encontram, esses, em fase de mais acurados estudos – em outras palavras: o programa de necessidades do nosocômio estava sendo discutido entre médicos e o arquiteto De Paula Bolonha que estava no Rio de Janeiro, mas certamente com a interlocução de Nicholas Chase, ganhador da concorrência para construir o Monumento a Lauro Sodré, que fora inaugurado pelo Governo do Estado em 10OUT1959.
As obras do Hospital Santa Mônica só iniciaram efetivamente em abril de 1961, no terreno 734 da rua Arciprete Manoel Teodoro:

Os dois aerofotogramas acima, comprovadamente de 1964, revelam o estado da obra no terreno comprado pela Sociedade Anônima – em cotas por ações preferenciais à classe médica negociáveis em mercado – localizado na Arcipreste Manoel Teodoro, e pertencente aos herdeiros do sr. Kislanov.
A ausência de sombreamento na obra demonstra que a construção atingiu o pavimento térreo; pois as aberturas das rampas, já mencionadas nos relatos, aparecem na imagem – penumbradas; ou seja: estavam completadas as fundações e o subterrâneo do edifício hospitalar projetado por Francisco de Paula Lemos Bolonha que Nicholas Ellis Chase erguia.
Enquanto a obra do Santa Mônica era tocada em 1964, o Hospital Guadalupe, mantido pelas Irmas Adoradoras do Santíssimo Sangue, funcionava na avenida Assis de Vasconcelos n°757; fora inaugurado em 1964, a 1° de fevereiro; o jornalista Paulo Maranhão, o Dragão do Norte, morreu lá em 18 de abril de 1966, aos 96 anos – segundo o Jornal do Brasil do dia seguinte.
Daqui até a inauguração do prédio como Hospital Nossa Senhora do Guadalupe, em 1972, temos um hiato na pesquisa: não sabemos, por ora, como se deu a negociação entre a Sociedade Anônima e as Irmãs Adoradoras… que assumiram a obra concluída de De Paula Bolonha.
Hoje se escuta, da boca miúda, que há um plano de expansão vertical do Hospital Guadalupe para hospedar um centro cirúrgico num 5º andar; a fundação e estrutura planejadas por De Paula Bolonha e Ellis Chase suporta 5 pisos além do subsolo: 6 andares.


Fontes: A Província do Pará e Jornal do Brasil.


Postscriptvm: os aerofotogramas usados nesta matéria foram doados ao Laboratório Vitual pelo professor Flávio Augusto Sidrim Nassar – lamentavelmente falecido no ano passado.


Postscriptvm (16SET2024):

A imagem é posterior ao dia 23 de fevereiro de 1965, quando foi publicado, no jornal Flash, a intenção de venda do Hospital Santa Mônica à Casa de Saúde Guadalupe; portanto, não se sabe quando a placa mudou de Santa Mônica para Guadalupe.

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Monumento Lauro Sodré – o plano original de Bolonha e Giorgi

A maquete que convenceu Barata

Plano original tridimensional de Bolonha e Giorgi destinado à praça defronte ao Cinema Olímpia

Em janeiro de 1957 o governador do Pará, Magalhães Barata, incumbiu o historiador Ernesto Cruz de montar uma comissão competente à organização das festividades oficiais ao centenário de nascimento de Lauro Sodré – ícone da política local, de natalício em 17 de outubro de 1858, reverenciado por Barata.
Dentre esses certames figurava a inauguração de um monumento a Lauro Sodré, de endereço pré-estabelecido antes mesmo da composição da referida equipe técnica: “… em praça pública, localizada nas proximidades da casa onde nasceu Lauro Sodré, na antiga rua Cruz das Almas, hoje Arcipreste Manoel Teodoro.”.
Em 15 de janeiro de 1957 é dado ao conhecimento público pelo jornal Estado do Pará a lista dos primeiros componentes convidados por Ernesto Cruz: “… drs. Rui Bastos Meira, Augusto Meira Filho, Josué Freire e acadêmicos Bruno de Menezes e João Viana.” que reunidos deliberam pela viagem do engenheiro Rui Meira ao Rio de Janeiro a fim de entrar em contato com o arquiteto Francisco Bolonha e obter desse profissional a colaboração necessária; a nota do periódico reforça o terreno disponível: “O monumento ao dr. Lauro Sodré vai ser ereto na praça fronteira ao Cinema Olímpia…”.
No dia 15 de maio de 1957, passados exatos três meses, os irmãos Meira, ambos engenheiros civis, defenderam, diante de Barata, o projeto do arquiteto paraense Francisco de Paula Lemos Bolonha (erroneamente chamado em algumas reportagens de Francisco Bolonha Sobrinho) em parceria com o escultor paulista Bruno Giorgi.
Bolonha e Giorgi, para melhor entendimento popular de suas concepções, enviaram do Rio de Janeiro um modelo volumétrico, uma maquete, dada à escala por representações humanas – os custos de tal objeto não foram repassado aos cofres do Estado, teriam sido arcados pela dupla modernista.
A Comissão montada por Ernesto Cruz aprovou, em 19 de agosto de 1957, o parecer do Clube de Engenharia que mudava a localização do monumento para o Boulevard Castilhos França e Av. Presidente Vargas, na praça onde se encontra o obelisco dos Pescadores, em vista da situação local ser bastante favorável, isto é à entrada da cidade – curiosamente nessa reunião da Comissão com os engenheiros o projeto foi aprovado em nova locação sem o conhecimento (ou consentimento) dos autores (Bolonha e Giorgi); apesar dos dois largos, neste caso, apresentarem conformação triangular.
Em 17 de dezembro de 1957 chegam em Belém pelo Constellation da Panair o arquiteto Francisco de Paula Lemos Bolonha e o escultor Bruno Giorgi; no dia seguinte o Estado do Pará noticia que o plano deles será implementado (novamente) na Praça da República, nas imediações do Cinema Olimpia.
Em 22 de dezembro de 1957 o Estado do Pará publica a matéria Ainda não escolhido o local para o monumento, nela é dito, acerca de nova reunião da Comissão de Ernesto Cruz: “O ponto central dos debates foi relativo à localização do monumento, indicando-se vários locais, entre os quais o Largo da Memória, Praça do Operário, Praça de São Braz, sem que tenha ficado resolvido, entretanto, em definitivo, a localização do imponente monumento.”.
Noticiando o regresso de Bruno Giorgi e Francisco Bolonha à (então) capital federal, o Estado do Pará, de 27 de dezembro de 1957, dá como definitiva a localização: que será na área situada em frente ao mercado de São Braz, com 53 metros de comprimento por 25 de largura.
Em 25 de maio de 1958 o Estado do Pará revela: “Concluída a concorrência pública pela comissão do Centenário de Lauro Sodré, sob a presidência de Ernento Cruz, foi assinado contrato com o sargento Nicholas Chase, vencedor dessa concorência para o início das obras da construção do monumento a Lauro Sodré, nesta capital.”; complementando: “O monumento será localizado na Praça Floriano Peixoto, frente ao mercado de São Brás, na confluência das avenidas Independência e José Bonifácio.”.
Uma fotografia da mesma (e única) maquete é veiculada pelo jornal carioca Correio da Manhã de 09 de outubro de 1958, dando visibilidade nacional à obra já concretada, que só aguardava revestimentos e esculturas do Rio de Janeiro; ou seja: o volume, mesmo desatualizado em sua base triangular proposta para defronte do Olímpia, mantinha-se significante do Monumento já retangularizado para a frente de São Braz.


O relato acima é extenso, como também o foi a hesitação para se achar um local que acolhesse as ideias dos afamados modernistas; talvez a Comissão de Ernesto Cruz se tenha ampliado de tal modo à incapacidade de deliberar com sensatez na ausência dos autores, só se chegando a termo com a contratação de Nicholas Chase, o responsável pela estrutura construtiva que receberia mármores, bronzes e demais elementos de acabamento da capital do país – assim se fez necessária a comunicação efetiva entre o engenheiro Chase, o arquiteto Bolonha e o escultor Giorgi à remodelação da superfície e outras soluções de pertinência à troca de sítio.

Simulação, pelo SketchUp, da planta originada da maquete e sua superposição ao recorte de mapa da cidade de Belém levantado pela CODEM em 1978; o Monumento Lauro Sodré se encaixaria fronteiriço ao Chafariz das Sereias, um equipamento público art noveau e cartão postal de Belém.


A construção que ligou Nicholas Chase a Bolonha-Giorgi

Foto antiga do local onde foi erigido o Monumento Lauro Sodré – superfície retangular regular

O monumento-jardim de Bolonha-Giorgi começou a ser construído em junho de 1958 e seria inaugurado em 10 de junho de 1959; não ficou pronto para o centenário de nascimento de Lauro Sodré; nem Barata o viu acabado, morreria dias antes da conclusão das obras.

Plano original (triangular irregular) apresentado em maquete para o largo defronte ao Cinema Olímpia em 1957 e projeto executivo (retangular regular), sob a mão do construtor Nicholas Chase, da adaptação feita à praça do Mercado de São Braz.
Não sabemos se essas pranchas foram desenhas no Rio de Janeiro, pelos projetista; ou: em Belém, pela equipe de construção – certamentte em comum acordo.

Fotografia feita no dia da inauguração do monumento: 10JUN1959

Em matéria publicada no Diário do Pará de 06MAR2010 o professor Oswaldo Coimbra escreve: Dois autores dizem que o espelho d’água estendia-se até o painel onde foram concentradas as três das cinco esculturas de Bruno Giorgi… …E foi aterrado porque nele frequentemente caíam boêmios que se embebedavam nas redondezas do Mercado de São Braz.
Tando a concepção primeva Bolonha-Giorgi, quanto a fotografia acima, do IMS, confirmam o que disseram Carlos Rocque e José Valente no texto de Coimbra; mais: há o clichê da construção desse lago-espelho d’água:


Mais sobre Nicholas Ellis Chase e Francisco de Paula Lemos Bolonha:
Ingleses pretos, barbadianos negros, basileiros morenos? Identidade e memórias (Belém, séculos XX e XXI)
Diário do Pará 06MAR2010 – Oswaldo Coimbra
Diário do Pará 13MAR2010 – Oswaldo Coimbra
Diário do Pará 21MAR2010 – Oswaldo Coimbra
Diário do Pará 27MAR2010 – Oswaldo Coimbra


Fontes: jornais Estado do Pará e A Província do Pará.

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Irmãos Bolonha – um arcabouço familiar

Estrutura gráfica com imagens de personagens definidos por seu ascendentes e descendentes.

Ao ler Palacete Bolonha: Uma promessa de amor (Plantas A3); ou: A Cidade como Narrativa…, pareceu-nos complicado entender as relações familiares nas tramas desses dois trabalhos acadêmicos; daí a ideia do prospecto montado com a ajuda de descendentes de Julieta e Benjamin.
Pela parte de Julieta tivemos o auxílio de Henrique Soares, seu neto, filho de Elza; Henrique nos forneceu as fotografias de Fancisco Bolonha e de Julieta; mais: a certidão de óbito da avó e uma planta levantada pelo engenheiro agrimensor Hugo dos Santos, datada de 11 de fevereiro de 1939, que revela os Terrenos edificados e baldios de dona Alice (Ten Brink) Bolonha na área da dita Passagem Bolonha:

Imagens ampliável

Sobre Benjamin, o caçula dos irmãos Bolonha, ajudou-nos o professor Alex Bolonha Fiúza de Mello, ex-reitor da UFPA; Alex é neto de Benjamin, filho de Yolanda, foi ele quem nos forneceu a lista dos descendentes diretos de Benjamin, da qual consta Francisco – Francisco de Paula Lemos Bolonha -, arquiteto modernista contemporâneo de Oscar Niemeyer.

O nacionalmente conhecido arquiteto Francisco de Paula Lemos Bolonha era sobrinho do engenheiro Francisco Bolonha: filho de seu irmão Benjamin de Paiva Bolonha com Eglantina Lalor Lemos (Bolonha)

Foto de Marcia Poppe momentaneamente linkada à Wikipédia.

A obra sabida como planificada por Francisco de Paula Lemos Bolonha em Belém, sua cidade natal, é o Largo de São Brás, defronte ao mercado de mesmo nome, mandada erigir por Magalhães Barata, que morreu sem a inaugurar:

Monumento inaugurado em 10 de junho de 1959.

Ler a matéria publicada na revista RIO de janeiro de 1950: O estranho caso da arquitetura brasileira.


Fotografias do material fornecido por Henrique Soares: Luiza Carla Girard Mendes Teixeira.


Ler Casa de saúde hospital Guadalupe em construção (outra obra do sobrinho do engenheiro Francisco Bolonha em Belém).

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90 Anos – Claudia Andujar: Uma vida com os Yanomami

Claudia Andujar nasceu na Suíça, em 1931, e em seguida mudou-se para Oradea, na fronteira entre a Romênia e a Hungria, onde vivia sua família paterna, de origem judaica. Em 1944, com a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, fugiu com a mãe para a Suíça, e depois emigrou para os Estados Unidos, onde foi morar com um tio. Em Nova York, desenvolveu interesse pela pintura e trabalhou como guia na Organização das Nações Unidas. Em 1955, veio ao Brasil para reencontrar a mãe, e decidiu estabelecer-se no país, onde deu início à carreira de fotógrafa.
Sem falar português, Claudia transformou a fotografia em instrumento de trabalho e de contato com o país. Ao longo das décadas seguintes, percorreu o Brasil e colaborou com revistas nacionais e internacionais, como LifeApertureLookCláudiaQuatro Rodas e Setenta. A partir de 1966, começou a trabalhar como freelancer para a revista Realidade. Recebeu bolsa da Fundação Guggenheim (1971 e 1977) e participou de inúmeras exposições no Brasil e no exterior, com destaque para a 27ª Bienal de São Paulo e para a exposição Yanomami, na Fundação Cartier de Arte Contemporânea (Paris, 2002). Em 2015, a exposição No lugar do outro (IMS Rio) apresentou a primeira parte da carreira da fotógrafa. A segunda parte da carreira, dedicada aos Yanomami, foi apresentada na retrospectiva Claudia Andujar: A luta Yanomami.

Fonte: Instituto Moreira Salles.


Atualidade:

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EPV 2022 – resultado final: dois trabalhos da FAU

Estágio PIBIC-Verão 2022:

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Clique sobre a imagem e veja a mídia completa no site da UFPA


Apresentação dos trabalhos das duas estudantes do curso aprovadas no Edital 17-2022 (EPV):

Sâmyla Eduarda Moreira Blois Alves (bolsista PIBIC 2021) orientada por Ana Cláudia Duarte Cardoso

Tatiana Chagas Prata (bolsista PIBIC 2021) orientada por Raul da Silva Ventura Neto

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ABC da greve; por Leon Hirszman

Em 1979, enquanto Leon Hirszman (1937-1987) escreve com Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) o roteiro do filme Eles não Usam Black-Tie (1981), ocorre a primeira greve geral após a implantação do AI-5 pelo regime militar. Na região do ABC paulista, no 13 de março, véspera da posse do general Figueiredo à presidência, e cerca de 180 mil operários cruzam os braços e interrompem a produção metalúrgica: conduzidos pelo sindicato, cuja liderança central é naquele momento exercida por Luís Inácio Lula da Silva, reivindicam, principalmente, um ajuste salarial maior do que aquele proposto pelos órgãos oficiais do governo e das indústrias. Tendo em vista o projeto em que estava envolvido e percebendo a importância de um movimento grevista forte o suficiente para se opor aos militares no poder, Hirszman decide interromper os trabalhos preparatórios de Black-Tie para se engajar no registro cinematográfico da greve metalúrgica. Às pressas, monta uma pequena equipe, formada por Adrian Cooper, Uli Bruhn, Francisco Mou, Cláudio Kahns (1951) e Ivan Novais, que trabalha com ele em sistema de cooperativa: para viabilizar o documentário, cada um deles abdica de uma parte do salário e empresta equipamentos para a produção, adquirindo em troca uma parcela dos direitos de comercialização do filme.
Em entrevista concedida no dia 3 de abril de 1979, publicada apenas em 1990 com o título O Espião de Deus¹, Hirszman explica que a realização do documentário, além de ajudar na composição dos personagens e situações de Eles não Usam Black-Tie, tem por objetivo principal servir à causa dos grevistas que, em sua opinião, adquiriam naquele momento consciência inédita de sua força política. O realizador procura integrar-se ao próprio processo de mobilização política, desejando que seu documentário, posteriormente chamado de ABC da Greve, mobilize o debate público durante o período, momento em que está em pauta a luta pela abertura democrática. Como sugere o diretor durante a entrevista, seu registro dos acontecimentos na região do ABC, apresentando a mobilização dos operários, deveria oferecer ao espectador a imagem – censurada pela televisão e pelos órgão de repressão – de uma classe que se organiza por seus direitos e exerce oposição à ditadura. Um filme, em suas palavra, para “recolher a memória das coisas que desconhecíamos (…) [Para sair ] da casca do medo. [De] toda essa couraça que impedia que desabrochasse a consciência do real, do que se passa de fato no país”.
Infelizmente, embora desejasse inserir ABC da Greve nos debates contemporâneos à mobilização dos metalúrgicos, Hirszman não consegue terminar o filme antes de sua morte prematura, em 1987. Pelo envolvimento em dois projetos ambiciosos – a adaptação cinematográfica de Black-Tie e Imagens do Inconsciente (1987) – e pelas dificuldades encontradas em conseguir financiamento para a transformação de ABC da Greve em uma produção de circulação nacional, processo que implicaria no alto custo de ampliar a película de 16mm para 35mm, o cineasta acaba por deixar o documentário inacabado na produtora Taba Filmes. Entre 1989 e 1990, seguindo as indicações deixadas por Hirszman e retomando a edição que iniciara há alguns anos, o fotógrafo Adrian Cooper conclui o projeto com o apoio da Cinemateca Brasileira. Lançado em 1991, na própria Cinemateca, o filme, que não é exibido no circuito comercial de salas de cinema, se transforma em importante registro de um passado recente, e vem à tona em um momento no qual o “novo sindicalismo” adquire projeção nacional com o Partido dos Trabalhadores (PT) e a primeira disputa de Lula à presidência.
O documentário segue a ordem cronológica das negociações entre operários e patrões do ABC paulista no decorrer dos meses de março, abril e maio de 1979. São utilizadas técnicas do cinema direto, com uma câmera a observar a mobilização dos trabalhadores sem intervir na cena, ou entrevistas como forma de recolher as opiniões dos diferentes agentes sociais envolvidos na greve. O filme reconta integralmente o episódio histórico, detalhando a organização do operariado: os piquetes nos pontos de ônibus, a distribuição de alimentos para as famílias dos grevistas, o apoio recebido por artistas, as reuniões no sindicato e os encontros dos dirigentes sindicais com os operários no estádio da Vila Euclides.
Para além do movimento político em ascensão, o documentário também registra as reações, naquele contexto, dos representantes oficiais dos patrões e do governo militar, como é o caso da ação repressiva da polícia militar ou da decisão do Ministro do Trabalho, Murilo Macedo, que no dia 23 de março intervém no Sindicato dos Metalúrgicos expulsando a diretoria responsável pelo comando da greve. Com destaque para a atuação dos líderes trabalhistas, principalmente Lula, o filme recupera os principais embates entre as partes envolvidas e vai até o desfecho das negociações em 13 de maio, quando os grevistas voltam ao trabalho após aceitarem um reajuste salarial de 63%. A aparente derrota do movimento por um reajuste de 70% é, no entanto, encarada como vitória em ABC da Greve: nos minutos finais, a voz em off (feita por Ferreira Gullar) informa que o governo, em decorrência dos acontecimentos, se viu forçado a recuar em relação à “Lei da Greve” de 1964, a qual impunha fortes restrições ao livre exercício da atividade sindical. Ao som da música Pode Guardar as Panelas, de Paulinho da Viola (1942), o filme termina com a sensação de que a luta dos trabalhadores estava apenas começando.
Ao optar por uma montagem que se estrutura no confronto, Adrian Cooper segue a sugestão deixada por Hirszman em entrevista concedida a Alex Viany (1918-1992) em 19832. Segundo ele, ABC da Greve deveria mostrar criticamente “três rios simultâneos”: os trabalhadores, os empresários e o regime militar. O primeiro deles, os trabalhadores, é apresentado na versão final não apenas como força política. Como autocrítica, questionando em 1979 a postura do artista politizado que representa o popular sem conhecê-lo concretamente, Hirszman faz de seu documentário uma possibilidade de participar diretamente no movimento grevista e na luta cotidiana da classe proletária3. Assim, buscando a proximidade com o povo como necessária para atualizar seu próprio engajamento, o cineasta vai além das filmagens da greve para se deter, em alguns momentos, na condição miserável dos moradores de uma favela.
Fazer do cinema a denúncia da situação vigente é uma constante na montagem que ABC da Greve reserva aos outros dois rios, os empresários e o regime militar. À certa altura do documentário, representantes da classe patronal anunciam, em entrevistas para a televisão, o esvaziamento da greve. Para desmenti-los, a montagem recorre à narração e às imagens de centenas de trabalhadores mobilizados, que comprovam a sua força política ao romperem com a proibição, imposta pelo governo, de utilizar o estádio da Vila Euclides como espaço para o encontro do sindicato com os operários. Torna-se recorrente esta estratégia de contrapor o discurso da elite no poder às ações da classe popular mobilizada, em um desmonte das “verdades” anunciadas pela televisão.
O filme faz ainda um comentário sobre a possível aliança entre vários setores da esquerda, motivo de entusiasmo de Hirszman em ver trabalhadores, artistas e organizações engajadas da igreja católica unidos contra a ditadura militar e pelo sucesso do movimento operário. União que o filme faz questão de gravitar em torno de Lula, liderança cujo carisma, posto à prova quando precisa convencer os trabalhadores a interromper a greve, perpassa toda a montagem de ABC da Greve.

Notas
1. CINEMATECA Brasileira. O espião de Deus. IN. Leon Hirszman: ABC da greve, documentário inédito. Catálogo. Cinemateca Brasileira: São Paulo, 1991.
2. VIANY, Alex. Leon Hirszman. AVELLAR, Jose Carlo (org.). O processo do cinema novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999, p. 283-314.
3. Na entrevista intitulada “O espião de Deus”, Hirszman declara: “A vivência perto do povo foi uma experiência riquíssima para mim enquanto diretor de cinema. Passei a compreender uma série de coisas, (…) não há nada que enriqueça mais do que a vivência de uma greve real. Vale mais do que cem dias de pensamento concentrado em qualquer monastério do saber”.

Fonte do texto: Enciclopédia Itaú Cultural.

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Comissão Nacional da Verdade – Lula em 08DEZ2014

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a Comissão Nacional da Verdade, em São Paulo, para dar seu depoimento sobre a perseguição e repressão sofridas no período da ditadura militar no Brasil. Durante cerca de uma hora e meia, Lula contou aos membros da CNV, Maria Rita Kehl e Paulo Sérgio Pinheiro, como foi lutar por melhores condições de trabalho nos anos 1970 e 1980, e deu detalhes sobre os 31 dias que passou na cadeia, sua relação com os militares, com o então delegado Romeu Tuma, investigadores e carcereiros.
Data: 8/12/2014
Edição: Thiago Dutra Vilela (CNV)
Vinheta: Thiago Dutra Vilela (CNV)
Arte do canal: Paula Macedo e Isabela Miranda (CNV)
Captação de imagens e áudio: Thiago Dutra Vilela (CNV)

Fonte: Canal Comissão Nacional da Verdade.

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DEMOCRACIA SEMPRE!

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA manifesta seu profundo repúdio pelos atos golpistas e anti democráticos acontecidos no dia de ontem em Brasília, os quais devem ser entendidos como inaceitáveis em um estado democrático de direito. Manifestamos ainda a enorme indignação pelo incalculável prejuízo causado com a depredação e vandalização de prédios icônicos e tombados, e a destruição de obras de arte que são patrimônio público brasileiro. Tais ataques à Democracia são intoleráveis e devem ser rigorosamente apurados.
DEMOCRACIA SEMPRE!

(Nota da direção da FAU.)

Compartilhamos ainda a Nota Oficial do Reitor da UFPA, Prof. @emmanueltourinho e a convocação para ato público em defesa da Democracia, amanhã, dia 10.01, às 10h no Centro de Eventos Benedito Nunes. (@ufpa_oficial)

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Há Athos Bulcão na identidade visual do governo Lula?

Até o momento desta publicação não foram encontradas na Internet versões (oficiais) em tons de cinza e em alto contraste (positivo e negativo) – o que pode até indicar um lançamento emergencial e precoce da peça; contudo: Athos Bulcão dominava com maestria essas soluções gráficas; portanto: basta seguir seus brasileiros ensinamentos que tudo se completará com harmonia.

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Representação e Expressão II – 2022

Audiovisual: Coletivo Ribeirinhos

O registro da produção do Coletivo Ribeirinhos* – todos os alunos das duas turmas da disciplina Representação e Expressão II do ano de 2022 – é o produto final que cumpre a função extensionista do Laboratório Virtual e faz chegar à sociedade os resultados obtidos nos “bancos” da escola (FAU-ITEC-UFPA).
Os estudantes Felipe Martins (manhã) e Paulo Guilherme Chaves (tarde), ambos monitores voluntários da disciplina em seus turnos, organizaram as sequências e fotografaram 893 trabalhos para se chegar a esta animação bruta que pode ser recortada e reeditada em curtas e aleatórias apresentações:

Esses cortes podem ser feitos pelas equipes instituídas, de identidades visuais próprias, ou por um conjunto delas, o que gerará resultados diversos e distintos.


Carlos Alberto Maciel Gomes, o MG Calibre, franqueou-nos a música METASKA, executada por si, por Erik Santos e Alberi Rodrigues – o que interliga a escola à produção cultural paraense.
Para mais basta chegar à ficha técnica no epílogo do audiovisual dirigido por Felipe Martins e Paulo Guilherme Chaves com fotografias das equipes feitas por Louize Ramos.


*O ateliê da FAU está à beira do Guamá; portanto: ribeirinhos, nós.


Postscriptvm (01JAN2023):

Mais trabalhos desta turma:
Primeiros experimentos de Representação e Expressão I – 2022; Representação e Expressão I – 2022 (Extensão do ITEC), Representação e Expressão I 2022 – trabalho final: Camiseta do Círio e Experimentos de Representação e Expressão II.
Outside: Camisetas Círio 2022 e Camiseta Círio 2022-2.

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DI/VER/(S)CIDADE – menção honrosa ANPARQ 2022

Fonte: Prêmio Anparq 2022.

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Alunos e professoras da FAU são premiados no “II PRÊMIO CASA” do CAU-PA

No dia 13/dez ocorreu a premiação do “II PRÊMIO CASA” promovido pelo CAU-PA, que busca premiar trabalhos de arquitetura e urbanismo, desenvolvidos em disciplinas e trabalhos de conclusão de curso, com a temática da Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social – ATHIS, elaborados entre os anos de 2021 e 2022 por estudantes de graduação dos cursos de arquitetura e urbanismo das Instituições de Ensino Superior do Pará – IES.
O prêmio de melhor Trabalho de Conclusão de Curso foi dado ao trabalho intitulado “Soluções baseadas na natureza para uma vila situada na várzea: Maiauatá adaptada às mudanças climáticas” desenvolvido pela discente Ana Clara Amaral Vidal Rocha, sob a orientação da professora Ana Cláudia Duarte Cardoso. Na categoria “Disciplina” o trabalho premiado em 1º lugar foi o projeto “Reencontrar Guajará”, desenvolvido pelos discentes da disciplina Projeto VI: Waleska Samara Gama Oeiras, Pablo Ariel da Costa Fernandez, Gabriel Ferreira Alves, Thamires Tavares Alves, Rafaela Silva dos Santos, Michelle de Lima Borges, Ana Luiza da Rocha de Souza, Ronald Souza e Silva, Rita de Cássia Dias Costa, Rodrigo da Cruz Pantoja, Sandoval Mata Balieiro, Sarah Evelin Wanzerley Lima, sob a orientação da professora Rachel Sfair Ferreira Benzecry. 
Ainda na categoria “Disciplina” o trabalho premiado com a Menção Honrosa foi o projeto “RessignificATHIS” desenvolvido pelos discentes também da disciplina Projeto VI: Arthur Queiroz Moreira, Camila Leticia da Silva Azevedo, Ewerton Bruno Neves Gomes, Felipe de Souza Bahia, Gabriela Wiziak Cervantes, Higor Humberto Feio Cardoso, Iago de Souza Lobato, Luana Maria da Silva Mendes, Matheus Moreira Pojo, Maycon Macedo Furtado, Noelly Vasconcelos Santiago, Paloma Geovanna Souza Moreira, Rafael Lavareda Mendes da Costa, Willy Luis Lisboa de Matos Macieira; que contaram com a orientação da professora Rachel Sfair Ferreira Benzecry.
A banca avaliadora do concurso ressaltou o alto nível dos trabalhos inscritos e avaliou que isso reflete o emprenho das Instituições de Ensino na formação dos alunos e o esforço pessoal de cada estudante na elaboração e apresentação das propostas.
A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA parabeniza o CAU-PA pela iniciativa e seus alunos e professoras pelo resultado alcançado.

Fonte: página oficial da FAU.

Maiauatá – TCC 1º Prêmio

Reencontrar Guajará – Projeto VI 1° Prêmio

RessignificATHIS – Projeto VI Menção Honrosa
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O Jardim do LAFORA; por Renata Monteiro

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Port of Pará em 1914 – o inusitado monumento à Riachuelo

Monumento à Batalha Naval de Riachuelo inaugurado em 11 de junho de 1914: idealizado e construído pelo arquiteto José da Gama Malcher – foto Revista FON-FON!.

… Após a missa, será inaugurado o artístico e sumptuoso monumento alegórico à data de 11 de junho, do plano do hábil arquiteto dr. José da Gama Malcher e construído com a direção do mesmo profissional e do dr. Antonio Ferreira Celso, competente diretor da repartição de águas.
Descerrará a cortina do monumento o exmo. sr. inspetor do Arsenal de Marinha, o capitão de fragata João Huet de Bacellar Pinto Guedes, representante por designação especial do exmo. sr. almirante Alexandrino de Alencar, ministro da Marinha.
Serão observadas as formalidades do estilo; sendo, por essa ocasião, prestadas as honras militares pelas forças presentes. Uma bateria do 5º batalhão de artilharia salvará o monumento com 21 tiros…

(Estado do Pará – 10JUN1914)


Por ora o Laboratório Virtual da FAU não encontrou nenhuma outra imagem que dê certeza da localização dessa obra no Porto de Belém; mas, segue-se investigando.

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Convite à FAU – homenagem a Jorge Derenji em 13DEZ

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Domingo, dia 04DEZ – atividades no Carmo – 43º CIRCULAR

Divulgação:

Caros: gostaria de convidá-los, em especial as pessoas que têm filhos pequenos entre 5 e 10 anos, para a atividade de educação patrimonial que realizaremos como parte da Programação da 43ª Edição do Circular Campina Cidade Velha e Reduto, no próximo domingo, dia 04.12, pela parte da manhã
Faremos um percurso da Praça Frei Caetano Brandão, seguindo pela Siqueira Mendes até a Praça do Carmo, fechando com atividades lúdicas dentro do Fórum Landi.

(release)

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Sábado, dia 03DEZ – atividades no Carmo – extensão universitária

Divulgação:

No sábado, dia 03.12, teremos a apresentação de duas peças de teatro, resultado de um projeto de extensão da Escola de Teatro e Dança da UFPA, que trabalhou com moradores do Beco do Carmo, crianças e jovens/adultos, sendo os ensaios realizados no Fórum Landi.
A peça infantil será apresentada dentro do Fórum Landi e a dos adultos no anfiteatro da praça.

(release)

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Baú do Ferreira (29NOV2022)

Referência da matéria: Estádio Municipal de Belém ― complexo desportivo inexecutado.

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